UOL Notícias Internacional
 

24/11/2005

Vítimas do furacão Katrina reinventam suas casas

The New York Times
Bradford McKee

Em Mississippi
Para milhares de moradores da Costa do Golfo do Mississippi, a reconstrução de suas casas destruídas após o furacão Katrina poderá se transformar em uma questão de caráter.

Após morarem em tendas e trailers, e negociar o quebra-cabeça de seguro e ajuda federal, muitos proprietários de imóveis enfrentarão nos próximos meses dúvidas sobre como reconstruir casas de um certo aspecto histórico, como as casas de estilo creole e estilo "shotgun" (os vários cômodos são ligados por um longo corredor reto). Eles receberão alguns conselhos gratuitos de projeto, queiram ou não.

Na próxima semana, a Comissão de Recuperação, Reconstrução e Renovação, que foi organizada pelo governador do Mississippi, Haley Barbour, começará a distribuir cópias gratuitas do "Manual de Padrão para os Bairros da Costa do Golfo".

O manual de 72 páginas detalha as características básicas das casas tradicionais e, começando com uma carta do próprio Barbour, pedindo fortemente para que as pessoas as reproduzam o mais fielmente possível quando reconstruírem.

O manual é resultado de esforços de planejamento na região de um grupo de projetistas com fortes contatos políticos conhecido como Congresso para um Novo Urbanismo, que defende estilos antigos de construção de casas, bairros e cidades. Desde sua fundação em 1993, o grupo, que conta com cerca de 2 mil membros, tem provocado controvérsia ao rejeitar idéias arquitetônicas contemporâneas em prol do aspecto histórico, uma abordagem que os críticos tem desprezado como uma forma de nostalgia.

David Buege, um professor de arquitetura da Universidade Estadual do Mississippi, disse que ficou consternado com o predomínio de máximas do Novo Urbanismo nos esforços oficiais de reconstrução. "Me incomoda não termos defensores críveis de formas urbanas que terão uma vida útil mais longa e que serão profundamente mais satisfatórias do que as do Novo Urbanismo", disse ele.

Marlon Blackwell, um arquiteto e professor da Universidade do Arkansas, é contra o que chamou de foco singular dos novos urbanistas em projetos historicistas enquanto tentam reconstruir a região. "Eles usam historicismo como forma de validar uma espécie de abordagem moralista à arquitetura", disse Blackwell. "Eu vejo isto um pouco como um flagelo."

O manual de padrão resultou de elaboradas oficinas de planejamento realizadas pela comissão, em outubro, para ajudar a reconstruir ruas, casas e prédios públicos em 11 cidades que foram destruídas ao longo da costa. Propostas detalhadas deverão passar por apreciação pública a partir de 30 de novembro.

Com uma primeira tiragem de 21 mil exemplares, a comissão pretende oferecer o manual em locais estratégicos como lojas da Home Depot e centros de materiais de construção, em um esforço para "reconstruir a costa de uma forma que honre o tempo", como escreveu Barbour no prefácio. Nos próximos meses, o manual também poderá ser inserido nos jornais locais.

O custo do manual, assim como o orçamento da comissão, foi pago por doações da Fundação Knight e de Jim Barksdale, o ex-executivo-chefe da Netscape, que agora atua como presidente da comissão do governador.

O manual de padrão, assim como os novos planos para as cidades, são "apenas o começo", disse Barksdale. "Tudo em uma faixa de um quilômetro e meio continente adentro foi destruído, então isto exigirá muito tempo. A construção de casas será nosso maior empreendimento, com 50 mil unidades a serem substituídas."

O manual ostenta o selo do Estado do Mississippi, mas não estabelece regras ou regulamentação com força de lei. Em vez disso, ele descreve formas "apropriadas" e "aceitáveis" para reconstrução de casas em um modo tradicional -até os detalhes das janelas. Mas mesmo os defensores da preservação esperam que os ideais do manual entrem em choque com as realidades da reconstrução.

David Preziosi, diretor do Fundo de Herança do Mississippi, em Jackson, que está tentando salvar locais históricos, disse: "Você pode dar idéias e sugestões para as pessoas, mas tudo dependerá de quanto irá custar".

Para os proprietários, seguir as especificações do manual poderão adicionar "de zero a 20%" aos custos de reconstrução, disse Rob Robinson, seu principal autor e um arquiteto da Urban Design Associates, uma firma de Pittsburgh. Em outubro, Robinson era um dos cerca de 200 projetistas de todo o país que se mobilizaram por todas as cidades costeiras do Mississippi, de Waveland a oeste até Pescagoula no leste, para dar início a um esforço planejado de reconstrução.

Robinson disse que o manual foi concebido para milhares de pessoas cujas propriedades danificadas provavelmente não serão cobertas pelo grande esforço de reconstrução coordenado pela Agência Federal de Administração de Emergências (Fema).

"Nós visamos o sujeito comum que não faz parte de nenhum dos grandes acordos políticos", disse ele. "Para todas as pessoas que ficaram por conta própria para reconstruir e se virarem com o que têm."

Dada a urgência da reconstrução e a demora que os proprietários têm experimentado no acionamento do seguro, disse Robinson, a maioria das decisões de reconstrução provavelmente serão tomadas em "uma vitrine da Home Depot".

Robinson disse que previa as críticas ao esforço baseado no passado. Os críticos insistem que a construção de formas tradicionais é "uma idéia Disney", disse ele, "em vez de uma linguagem, como culinária, que faz parte de uma herança cultural".

Mas entre os proprietários que sobreviveram ao furacão, assim que as autoridades federais finalmente determinarem se poderão ou não construir de acordo com os novos mapas de inundações, a primeira preocupação provavelmente será impedir futuras perdas, em vez de seguir as prescrições de um manual de padronização.

Allison Rouse, 29 anos, uma arquiteta de interiores que perdeu a casa vitoriana que seu bisavô construiu em Gulfort em 1907, disse que espera que a maioria das pessoas na região não gastará muito para reviver os detalhes ornamentais de suas velhas casas.

"As pessoas gostam de economizar por aqui", disse Rouse. "Elas adoram construção rápida e porca em vez de qualidade, e é assim que as coisas são."

Rouse acrescentou que enquanto começa a projetar uma nova casa para si mesma, ela não planeja uma reprodução exata de sua antiga casa. "Eu estou começando do zero", disse ela. "Eu espero fazer uma declaração. Ela será uma fortaleza, porque não quero vê-la ser levada pelas águas de novo." Meta do governo é recuperar estilo arquitetônico da Costa do Golfo George El Khouri Andolfato

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