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25/11/2005

Bento 16 manda com discrição, mas ativamente

The New York Times
Ian Fisher*

Em Roma
Os primeiros sete meses do pontificado do papa Bento 16 têm sido tão discretos, carentes de um único ato definidor, que um pensamento começou a incomodar aqui: será possível que Bento, 78 anos, tão contencioso e cheio de idéias como cardeal, teria se transformado em um mero papa zelador?

Ele mesmo pareceu levantar a possibilidade.

"Minha missão pessoal não é emitir muitos novos documentos", ele disse para um entrevistador de televisão no mês passado. Em vez disso, ele queria assegurar que muitas obras do papa João Paulo 2º fossem "assimiladas, por serem um rico tesouro".

Então na terça-feira, vazou o primeiro grande documento de seu pontificado, proibindo o sacerdócio à maioria dos homens gays. Para muitos especialistas em Igreja, o documento foi um sinal atrasado de que Bento será, de fato, um papa ativo --apesar de talvez mais discreto, mais deliberativo e mais surpreendente do que muitos esperavam quando este homem muito sutil, chamado de "Rottweiler de Deus" por seus críticos, assumiu a Igreja.

"O papa anterior foi caracterizado por grandes gestos simbólicos", disse Sandro Magister, um dos principais analistas do Vaticano na Itália. "Bento 16 não está à procura de gestos simbólicos. (...) João Paulo 2º escrevia manchetes. Bento está escrevendo um romance", disse ele.

Um leigo católico romano com laços com o Vaticano, falando sob a condição de anonimato por não querer colocar em risco tais laços, disse: "A impressão é de que ele não está, vamos dizer, governando muito".

"Mas, todavia, mudanças estão acontecendo", ele acrescentou.

Em um aspecto, o documento sobre os seminaristas gays parece ser um forte passo inicial, de acordo com o caráter de Bento, que como cardeal Joseph Ratzinger serviu por duas décadas como o conservador defensor da fé de João Paulo 2º.

Ele parece confirmar as expectativas entre os católicos liberais de que o papa está visando a rigidez doutrinária e entre os conservadores de que a doutrina está finalmente sendo observada.

Mas como apontam muitos especialistas, o documento sobre os seminaristas gays foi iniciado sob João Paulo 2º há uma década. Eles também notaram que ele foi emitido ligeiramente à distância --não pelo próprio Bento, mas por meio do departamento do Vaticano encarregado da educação católica.

Muitos especialistas dizem que a primeira encíclica de Bento, prevista para o início de dezembro, deverá ser mais esclarecedora. Alguns poucos indícios que vazaram sugerem que ela não abordará temas sociais contenciosos como aborto ou eutanásia, mas será uma meditação sobre o retorno de Cristo ao centro da Igreja e da vida humana.

Uma coisa parece certa sobre o papado de Bento: apesar de permanecer profundamente conservador --ele já afirmou fortemente as posições de João Paulo 2º contra aborto, homossexualidade e secularismo-- ele não será facilmente rotulado.

Um caso em questão foi a decisão de Bento de convidar Hans Kung, um teólogo suíço liberal proibido por João Paulo 2º de lecionar em escolas católicas, para uma conversa e jantar de quatro horas no palácio papal de verão. João Paulo 2º se recusou por anos a se encontrar com Kung. O encontro com um dissidente liberal tão proeminente, que Bento conhece há décadas, pareceu ainda mais notável dado seus encontros anteriores com conservadores proeminentes como Oriana Fallaci, uma escritora italiana que criticava João Paulo 2º por não ser duro o bastante contra o Islã militante.

"Considerando a astúcia com que este papa se move, não há dúvida de que estes são sinais importantes, mesmo que não facilmente decifráveis", disse o jornal italiano "La Stampa", em setembro.

As contradições, ou pequenas surpresas, continuam.

Este homem tímido, com pouco do carisma de João Paulo 2º, continua atraindo maiores multidões do que seu antecessor nas tradicionais audiências de quarta-feira na Praça de São Pedro. Uma piada comum é que grande parte da Alemanha veio dar uma espiada no novo papa alemão.

Um homem que como cardeal expressou reservas quanto aos esforços de diálogo inter-religioso de João Paulo, continua a colocar isto no centro de seu pontificado. Parece possível, apesar de não ser certo, que ele conseguirá avanços em dois dos maiores desafios da Igreja: o catolicismo na China e o cisma de 1.000 anos com a Igrejas Ortodoxa.

(Por esta ser a Itália, e o papado ser uma instituição italiana, a moda não deve passar sem ser mencionada: um homem um tanto fora de moda, professoral, passou a usar óculos escuros cheios de estilo e sapatos vermelhos feitos pela Prada.)

Mas as grandes iniciativas ainda precisam ser articuladas. Muitos especialistas esperavam que Bento, que tirou seu nome do monge que difundiu o cristianismo na Europa Ocidental na época dos bárbaros, abordaria com mais força o esforço para reevangelizar a região. Mas até o momento, há pouca evidência de qualquer esforço para cultivar o que ele chamou de "sementes de mostarda" ou pequenos grupos de fiéis mais devotos, em vez de tentar atingir a população maior de católicos.

Uma área na qual Bento, ou pelo menos o Vaticano, parece estar se movendo com alguma agressividade é na política italiana, que ele vê como uma frente importante na luta contra o secularismo na Europa, para expressar a preocupação da Igreja com temas sociais como o aborto.

No início deste ano, o cardeal Camillo Ruini, o chefe da conferência dos bispos italianos, que é um conselheiro próximo do papa e foi um dos principais articuladores de sua eleição, ajudou a derrotar um referendo local sobre fertilidade assistida.

Nas últimas semanas, o cardeal tem se manifestado abertamente contra o reconhecimento de uniões homossexuais e a introdução da pílula do dia seguinte, e tem falado a favor da presença de conselheiros nas clínicas públicas de saúde para orientar as mulheres contra o aborto.

Em um país sensível à interferência da Igreja --apesar de paradoxalmente sempre se voltar para a Igreja em busca de orientação moral-- a campanha tem causado certa revolta.

"A presença da Igreja na arena pública e institucional tem se tornado cada vez mais forte, invasiva", disse o jornal de esquerda "La Repubblica", em um editorial na semana passada.

Mas Bento tem se mantido em grande parte acima da briga, apesar de defender fortemente o direito de a Igreja se manifestar em questões importantes para ela. Ele disse ao presidente Carlo Azeglio Ciampi, em junho, que acredita em um Estado secular, "todavia sem exclusão das referências éticas que encontram suas raízes na religião".

Marco Tosatti, um especialista em Vaticano do "La Stampa", expressou uma avaliação comum do novo papa: "É muito difícil fazer previsões. Mas ele quer fazer as coisas da forma como está acostumado: lenta e discretamente".

*Colaborou Elisabetta Povoledo, com reportagem. Recente veto a homossexuais em seminários mostra estilo do papa George El Khouri Andolfato

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