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26/11/2005

Até quem votou no presidente Bush duvida dele

The New York Times
Kate Zernike*

Em Columbus, Ohio
Leesa Martin nunca considerou o presidente Bush um grande líder, mas ela votou nele no ano passado porque admirava como ele lidou com os ataques terroristas de 2001.

E então veio o verão passado, quando o número de baixas da guerra no Iraque atingiu este Estado de forma particularmente intensa --16 fuzileiros navais do mesmo batalhão foram mortos em uma semana. Ela achou que o governo federal deveria ter agido com mais presteza para ajudar os atingidos pelo furacão Katrina. E ficou desnorteada com o fato de Bush ter escolhido Harriet E. Miers, uma mulher que ela considera destituída de qualificação para ocupar um cargo na Suprema Corte, e desapontada quando ele não indicou uma mulher após Miers ter desistido da vaga. Além disso, ela continua perturbada com as questões relativas ao alegado vazamento, por parte da Casa Branca, do nome de uma agente da CIA cujo marido acusou o presidente de ludibriar o país quanto às informações de inteligência que levaram à guerra.

"Não sei se é um desses fatos em particular, ou a somatória de todos eles", afirma Martin, 49, enquanto almoça no North Market, na zona limítrofe do centro desta cidade. "A coisa cresceu como uma bola de neve".

As suas preocupações encontram eco nas mais de 75 entrevistas realizadas aqui e em diversas regiões do país nesta semana, e ajudam a explicar a queda do índice de aprovação de Bush e da confiança no presidente, conforme registraram pesquisas recentes.

Muita gente que votou no presidente há um ano encontrou dificuldade em atribuir o seu atual descontentamento a um único fator. Muitos mencionaram o furacão e a acusação de um assessor graduado do vice-presidente Dick Cheney, algo que, segundo diversas pessoas, gerou dúvidas quanto à sinceridade e à capacidade de julgamento de Bush. Mas há a sensação de que algo saiu de rumo nas últimas semanas, e a guerra foi a constante sempre presente. Repetidamente, até mesmo alguns dos apoiadores de Bush fizeram comparações com o Vietnã.

"Continuamos ouvindo notícias sobre homens-bomba e baixas, e nunca escutamos nada a respeito de progressos na guerra", diz Dave Panici, 45, um maquinista de trem de Bradley, em Illinois. "Não consigo vislumbrar um fim para esta situação; parece ser algo interminável. Sinto que o nosso país está simplesmente boiando, à deriva, sem navegar rumo a lugar algum".

Panici votou em Bush em 2004, tendo chamado a sua opção de "um voto pela segurança".

"Agora um ano se passou, e não percebi nenhum avanço no Iraque. E não sinto que o mundo esteja mais seguro", afirma Panici.

Uma pesquisa USA Today/CNN/Gallup conduzida em meados de novembro revelou que 37% dos norte-americanos aprovam Bush, o que consiste no seu menor índice de aprovação já registrado por uma pesquisa desde que ele assumiu a presidência. Para se ter uma noção da dimensão desta queda, basta comparar os números atuais com o índice de aprovação de 55% há um ano, e com o apogeu de 90%, registrado pouco após o 11 de setembro de 2001.

Uma pesquisa Associated Press/Ipsos do início deste mês registrou o mesmo índice de 37% de aprovação, e também os menores números relativos à integridade e à honestidade do presidente: 42% dos norte-americanos disseram que Bush é honesto, comparados aos 52% que tinham esta opinião no início do ano.

Vários dos entrevistados disseram que no ano passado acabaram acreditando que o presidente não foi totalmente honesto quanto às informações de inteligência que levaram à guerra. Segundo Bush, tais informações se constituíam em evidências sólidas da existência de armas iraquianas de destruição em massa.

"Creio que a população depositou sua fé em Bush, esperando que ele tomasse a decisão correta", opina Stacey Rosen, uma dona de casa de Boca Raton, Flórida, que disse que votou em Bush, mas que ficou "totalmente desapontada" com o presidente. "É difícil acreditar que não havia uma evidência sequer da existência de armas de destruição em massa. Creio que isso comprova que eles só nos dizem aquilo que querem".

Mark Briggs, que trabalha para o escritório local da Nationwide Insurance, diz que não quer acreditar que o presidente "manipulou" informações de inteligência, levando o país à guerra. Na sua opinião ele as avaliou mal.

Mesmo assim, por mais que discorde das políticas de Bush, Briggs diz que admira o presidente porque ele sustenta aquilo que diz. "Existe a idéia de liderança e de se permanecer fiel ao plano traçado. E eu acredito nisso", diz ele. "George Bush é transparente e consistente. Ele tomou uma decisão difícil de ir à guerra --e outros também votaram a favor dessa opção. E creio que ele estava certo. Os que mudaram de posição podem estar tentando reescrever a história".

Kacey Wilson, 32, que almoça com Martin, diz que também se preocupa com as baixas da guerra. Mas ela diz que sente que Bush falou a verdade, ainda que tal verdade possa não ser aquilo que o país deseja ouvir. "Eu gosto do seu estilo curto e grosso, de quem não faz prisioneiros", explica Wilson. "Creio que as pessoas estavam acostumadas a ouvir enrolações".

Outros, porém, enxergam arrogância em tal abordagem.

"Precisamos deixar de ser tão teimosos", adverte Vicky Polka, 58, diretora aposentada de uma escola em Statesboro, Georgia, que votou em Bush, mas que diz que o seu apoio ao presidente está "desaparecendo". "Algo não está correndo bem. Precisamos resolver esta situação. Detesto dizer isto, mas acho que o Iraque está seguindo o caminho do Vietnã".

Pouca gente disse estar acompanhando o escândalo do vazamento, que levou à acusação de I. Lewis Libby Jr., o ex-assessor de Cheney. Alguns que foram capazes de citar os nomes dos principais envolvidos e os episódios ocorridos minimizaram a importância do escândalo, sob a alegação de que tudo não passa de teatro político.

Um número ainda menor de entrevistados disse ter prestado atenção nos outros escândalos que preocupam Washington --a acusação do deputado Tom DeLay, o poderoso republicano do Texas, e a admissão de culpa por parte do seu ex-porta-voz.

Mas várias pessoas disseram que o escândalo do vazamento os deixou com a sensação de que o presidente estava ocultando da população o seu grau de envolvimento.

"Ele precisa nos fornecer mais informações", diz Phil Niemie, 51, uma diretora de escola primária que almoça com a família em um restaurante de Columbus. "Quanto mais tempo se passa sem uma conclusão do caso, mais o problema faz lembrar aqueles anos de Nixon e Watergate. Senti a mesma coisa em relação a Clinton".

Mas, para Niemie, que votou em Bush, e outros, o escândalo do vazamento gerou grandes dúvidas com relação a Cheney.

"Vários problemas dizem respeito a alguns dos assessores de Cheney", afirma Martin. "A impressão que tenho é que ele poderia ter se saído melhor como vice-presidente neste segundo mandato".

Em Atlanta, Selena Smith, diretora de uma agência de publicidade, fez coro aos outros ao dizer que acha que já se gastou muito tempo com a investigação.

"Agora a guerra é o problema mais importante para mim", diz Smith, 46. "Qual é o plano? Dêem-nos algo no qual possamos nos agarrar. O que realmente está no topo da minha lista de preocupações é o número de gente que está morrendo. E como vamos trazer os soldados para casa?".

Aqui em Ohio, o Estado onde as eleições de 2004 foram mais disputadas, as pesadas baixas sofridas por um batalhão local de fuzileiros navais foram manchetes nas estações de televisão e nos jornais durante todo o verão, e a maior parte das 24 pessoas entrevistadas aqui disse desejar que as tropas voltem para casa.

Alguns, no entanto, culparam os norte-americanos por terem períodos curtos de atenção. "Nós ficamos entediados com qualquer coisa que dure mais de dois meses", critica Rich Canary, 35, especialista em tecnologia de informação. "Houve progressos. Os iraquianos possuem uma constituição. Eles estão realmente criando o seu próprio país. Quando ouvimos os soldados falar, percebemos que eles sentem que o que estão fazendo é importante".

E houve também muita divisão no que diz respeito à forma de terminar a guerra. Algumas famílias de militares dizem que é importante concluir a tarefa iniciada pelas tropas, enquanto outras afirmaram que se ressentem das acusações de que não são patriotas quando criticam a guerra. Alguns indivíduos que disseram que o seu apoio ao presidente não diminuiu, afirmaram, não obstante, que desejam um fim rápido para a guerra. Já alguns dos mais ásperos críticos de Bush disseram que a retirada rápida das tropas do Iraque desestabilizaria aquele país.

"Muita gente sairia ferida", argumenta Laurence Melia, 28, um vendedor de Newton, Massachusetts, que fez campanha contra Bush no ano passado. "No final terá que haver um último contingente em terra, e poderá haver problemas se sairmos muito rapidamente".

Em Houston, Geoff Van Hoeven, um contador, disse achar que a guerra no Iraque agravou a ameaça terrorista ao criar "um terreno para o crescimento da Al Qaeda". Mesmo assim, ele diz que uma retirada rápida não é possível. "Isso porque todos perceberão os Estados Unidos como extremamente fraco e não confiável, e acreditarão que, quando a situação fica difícil, nós caímos fora".

Mesmo aqueles que votaram contra Bush um ano atrás não estão muito satisfeitos com os problemas enfrentados pelo presidente. "Uma parte minha gosta de vê-lo em dificuldades", admite Shirley Tobias, 46, sentada com uma colega da Netscape em um café em Grandview, um subúrbio de Columbus. "Mas ele está lutando por nós. Estamos todos juntos nesse problema".

*Contribuíram Gretchen Ruethling, em Chicago; Katie Zezima, em Boston; Brenda Gooddman, em Atlanta; Kelly Kennedy, em Boca Raton, Flórida; Bill Dawson, em Houston; e Cindy Chang, em Los Angeles. Aumento das baixas americanas no Iraque, indicações impopulares à Suprema Corte, furacão Katrina, escândalo da CIA: os problemas se acumulam enquanto despenca a avaliação nas pesquisas Danilo Fonseca

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