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27/11/2005

Chávez almeja um programa de energia nuclear

The New York Times
Larry Rohter e Juan Forero

Em Brasília
Com seu país dotado de uma das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, e com sua constante conversa sobre revolução socialista e críticas ao governo Bush, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem adquirido uma certa notoriedade em Washington e entre alguns de seus vizinhos latino-americanos.

Mas ele raramente provocou tanto espanto quanto ao anunciar recentemente planos para iniciar um programa de energia nuclear com a ajuda do Brasil e da Argentina. Somada à sua conversa sobre gastar aos montes em armas como rifles, navios e aeronaves de combate, assim como seu apoio ao direito do Irã de desenvolver um programa nuclear, suas ações têm provocado um debate sobre suas motivações.

Chávez e seu governo rebatem as preocupações, dizendo que o mundo deve se preocupar menos com o que está acontecendo em Caracas e mais com o que está acontecendo em Washington.

"Os países que desenvolveram energia nuclear não têm o direito de proibir os do Terceiro Mundo de a desenvolverem", argumentou Chávez recentemente. "Não somos nós aqueles que estão desenvolvendo bombas atômicas, são outros que fazem isto", ele acrescentou em uma entrevista a um jornal brasileiro.

No início de novembro, Bernardo Alvarez, o embaixador da Venezuela em Washington, disse: "É absolutamente ridícula a idéia de que a Venezuela ia querer ser uma potência nuclear e se tornar uma ameaça nuclear. A América Latina respeita completamente os tratados de não proliferação, mas é claro que isto não significa que energia nuclear não possa ser almejada, assim como ocorre na Europa e em outros lugares. A Venezuela diz que tem o direito de explorar tais possibilidades".

Até o momento, o governo Bush tem reagido com cautela às ambições de Chávez. O presidente venezuelano tem buscado se posicionar como inimigo do "imperialismo americano" e um defensor de Cuba e Fidel Castro, e criticá-lo publicamente apenas aumentaria sua popularidade na América Latina.

"Nós estamos vigilantes, mas não preocupados", disse um funcionário diplomático americano, que falou sob a condição de anonimato por causa da delicadeza política da questão. "Chávez fala muito sobre muitas coisas", ele acrescentou. "Às vezes ele as faz, às vezes não."

Chávez manifestou pela primeira vez o assunto da energia nuclear em maio, dizendo que estava interessado em iniciar negociações com o Irã para diversificar a oferta de energia da Venezuela. Ele retomou o tema no início de outubro, desta vez citando o Brasil e a Argentina como seus parceiros preferenciais.

Ele encontrou apoio à idéia. Quando Chávez falou em um encontro de cúpula na Espanha, em outubro, sobre a aquisição de até uma dúzia de reatores, o Brasil reagiu inicialmente com entusiasmo. "Qualquer país que queira compartilhar com o Brasil seus programas para uso pacífico serão bem-vindos", disse Marco Aurélio Garcia, o assessor para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse à conferência.

Mas após o alvoroço imediato aqui, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro começou a recuar. "Não há nenhum acordo ainda, apenas uma idéia", disse Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores e rival de Garcia no controle da política externa. "Este é um tema que precisa ser examinado quando recebermos uma proposta concreta."

Na verdade, o Brasil e a Venezuela já têm um amplo acordo, um memorando de entendimento assinado há mais de década, para cooperação no campo nuclear. Quase nada foi feito desde então, mas ambos os países estão interessados em reviver o acordo como parte do que um funcionário do governo brasileiro chamou de "processo de aproximação e integração", que cresceu desde que Lula e seu esquerdista Partido dos Trabalhadores assumiram o governo em 2003.

No ano passado, o Brasil se desentendeu com a Agência Internacional de Energia Atômica em torno do acesso às instalações para produção de combustível nuclear. O Brasil alegava ter desenvolvido uma tecnologia própria de centrífuga para processamento de urânio enriquecido e queria limitar o acesso dos inspetores para verificar se as centrífugas atendiam as normas internacionais.

O diretor da Comissão Nacional de Energia Nuclear do Brasil, Odair Gonçalves, recusou o pedido de entrevista sobre a perspectiva de acordo com a Venezuela, dizendo por meio de um porta-voz que sua agência foi ordenada a não comentar o assunto. Mas em uma entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", em outubro, ele deixou claro que o Brasil não estava interessado em vender centrífugas para Chávez.

Qualquer programa de cooperação nuclear com a Venezuela "não implicará a transferência de tecnologia", disse ele. "A transferência de tecnologia de enriquecimento de urânio é impensável."

A Argentina também disse que Chávez recentemente se manifestou sobre a compra de um reator. "Nós estamos prontos e dispostos a cooperar com todos os países que fazem parte do Tratado de Não Proliferação, e a Venezuela é um deles", disse o vice-ministro das Relações Exteriores, Jorge Taiana, em outubro.

Apesar do programa nuclear brasileiro ser mais avançado que o da Argentina, especialistas dizem que a Argentina oferece a melhor solução para a Venezuela. Ela é especializada em reatores pequenos de um tipo apropriado para pesquisa médica e geração de energia, já tendo vendido para a Austrália, Egito, Peru e Argélia.

"A tecnologia é bastante avançada, e devido ao sistema de salvaguardas e inspeções, não há como desviá-la" para um programa de armas, disse Elias Palacios, um cientista argentino que é co-secretário da Agência Brasileiro Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares. "Se é economicamente lucrativo para a Argentina, não há motivo para não ser feito."

Como o Brasil, a Argentina tinha um programa de armas nucleares quando era governado pela ditadura militar no final dos anos 70 e início dos 80. Mas os governos civis dos dois países posteriormente os abandonaram e, "devido a fatores econômicos e outras prioridades ao longo dos últimos 15 anos, muita atividade teve que ser desacelerada ou adiada", disse Palacios.

Devido ao grau de hostilidade entre o governo Bush e Chávez, Washington tem tido pouca influência sobre a Venezuela. Mas este não é o caso com o Brasil e a Argentina, com os quais tem laços extensos, e os Estados Unidos parecem decididos a concentrar seus esforços aí.

"Nós consideramos países como o Brasil e a Argentina parceiros responsáveis em questões como energia nuclear e proliferação", disse Thomas A. Shannon, o secretário-assistente de Estado para questões das Américas. "Nós esperamos plenamente que ajam de forma responsável."

Mas apesar de o Brasil e da Argentina não quererem parecer estar encorajando as ambições nucleares de Chávez, eles também não querem ofendê-lo. Com seu país disposto a se juntar ao bloco comercial do Mercosul que lideram, Chávez prometeu investir pesadamente em projetos regionais de energia, incluindo a construção de um gasoduto de 6 mil quilômetros e US$ 10 bilhões da Venezuela até a Argentina, e fornecer energia em termos favoráveis para os quatro países do grupo.

José Goldemberg é um físico que, como ministro da Ciência e Tecnologia nos anos 90, levou ao desmonte do programa de armas nucleares do Brasil. Apesar de ter dito se preocupar que até mesmo um pequeno flerte com a Venezuela possa prejudicar a reputação dos dois países, que conquistaram elogios pela renúncia de seus programas de armas nucleares, ele não acha que muito resultará da campanha de Chávez.

"Isto é fanfarronice", disse ele. "É uma forma de desafiar Bush, de se fazerem sentir importantes e forçarem os Estados Unidos a prestarem atenção."

Mas Lawrence Scheinman, que foi secretário assistente de Estado para não proliferação e desarmamento no governo Clinton, nota que há um "fator de prestígio envolvido" na posse de reatores nucleares, e prestígio sempre interessou Chávez. Independente do que Chávez diga agora, se a Venezuela adquirir a tecnologia para produção de energia nuclear, ela teria urânio e combustível que poderiam ser usados para fabricação de uma bomba.

"É preciso contemplar tal possibilidade", disse Scheinman. "Nós temos um problema aqui de um país que é muito antagônico aos Estados Unidos e que se associa a Cuba. Há motivo para ficarmos vigilantes." Presidente da Venezuela busca cooperação de Brasil e Argentina George El Khouri Andolfato

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