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29/11/2005

Erupção do Santa Helena surpreende cientistas

The New York Times
Kenneth Chang

Em Nova York
Os veículos com antenas de comunicação por satélite e os repórteres partiram há muito tempo. Faz nove meses que o Monte Santa Helena não solta jatos de vapor e cinzas.

Daniel Dzurisin, um vulcanólogo do Observatório de Vulcões Cascades, do Departamento de Pesquisas Geológicas dos Estados Unidos, em Vancouver, Washington, diz que as pessoas lhe perguntam com freqüência quando o Santa Helena entrará novamente em erupção.

"Quando lhes digo que ele já está em erupção, elas ficam surpresas", afirma Dzurisin.

Essa montanha tem uma personalidade dividida. A erupção cataclísmica em 18 de maio de 1980 obliterou 400 metros do cume da montanha, acabou com 35 mil hectares de florestas e matou 57 pessoas. A atual erupção, que está no seu 15º mês, é silenciosa, quando comparada a outras erupções vulcânicas. Não há sinais de que ela vá se tornar violenta - não há indícios de explosão, e não se vêem cinzas lançadas para o alto.

Não há sequer lava. Em vez disso, o que está saindo da terra é um tubo de pedra que, embora ainda quente, se solidificou a talvez 1.600 metros de profundidade e, a seguir, foi empurrado para cima. O processo é algo semelhante ao de se segurar um tubo de creme dental verticalmente e espremê-lo, fazendo com que a pasta saia.

A cada segundo, um metro cúbico da nova montanha - mais ou menos o equivalente à capacidade de carga de uma picape - é empurrado para a superfície, aumentando o tamanho de uma cúpula que cresce no interior da cratera.

Em meses anteriores, o cilindro de rocha nova, que possui cerca de 200 metros de diâmetro, tombou para um lado enquanto subia. Agora, a nova rocha está enterrada debaixo de material depositado anteriormente, e pressiona a montanha inteira.

"O fenômeno é bastante impressionante", afirma Jon Major, hidrólogo do observatório. "Existe uma enorme pilha de pedra e entulho".

Para os cientistas do observatório vulcânico, o ano passado foi de uma bonança inesperada, já que proporcionou que tivessem uma nova compreensão do Monte Santa Helena, o mais novo e ativo vulcão das Montanhas Cascades, e talvez também dos 60 outros vulcões do território continental dos Estados Unidos que entraram em erupção nos últimos dez mil anos, e que apresentam o potencial para entrar novamente em atividade.

A média de atividade de longo prazo dos vulcões dos Estados Unidos é de duas erupções por século.

"Isso não parece ser muito", afirma John Ewert, cientista do Departamento de Pesquisas Geológicas que estuda os riscos representados pelas erupções vulcânicas. "Mas quando levamos em conta o tamanho dos vulcões, e consideramos que a maioria deles é coberta por neve e gelo, esse número se torna bem mais significante".

Uma erupção é capaz de derreter a neve e o gelo, provocando avalanches e fazendo com que uma quantidade gigantesca de destroços desça montanha abaixo. Mas, por ora, o departamento possui poucos instrumentos monitorando esses vulcões.

No Monte Shasta, no norte da Califórnia, existem dois sismógrafos em um raio de dez quilômetros do vulcão, e outros quatro em um raio de 32 quilômetros. "E isso é tudo o que temos", diz Ewert.

O monitoramento por satélite pode ser capaz de proporcionar um alerta antecipado de atividade vulcânica. Por exemplo, satélites foram capazes de detectar um aumento do tamanho do vulcão South Sister, na região central do Estado de Oregon, em 2001.

As séries de pequenos terremotos - geralmente o primeiro sinal do despertar de um vulcão - só tiveram início três anos mais tarde. No entanto, a técnica não é exata. Ela não funcionou, por exemplo, no caso do Monte Santa Helena.

Vários dos cientistas que atualmente observam o Monte Santa Helena estavam lá quando ele entrou em erupção em 1980, e continuaram a observá-lo enquanto ocorria uma série de cerca de 20 erupções menores, algumas com a duração de apenas alguns dias, até 1986. Depois disso a montanha adormeceu, e os cientistas não esperavam presenciar uma outra erupção no decorrer de suas vidas.

Em setembro último, uma série de pequenos terremotos começou a sacudir o vulcão. A primeira erupção de vapor e cinzas ocorreu duas semanas mais tarde, provocando a chegada de uma multidão de repórteres que lotaram as salas de entrevistas coletivas, perguntando se uma outra catástrofe como a de 1980 seria iminente.

O Monte Santa Helena lançou para o alto mais algumas pequenas nuvens de vapor e cinzas. Os repórteres foram embora.

O trabalho realizado pelos pesquisadores no Monte Santa Helena na década de 1980 foi marcado por morte e devastação. Desta vez, os cientistas contam com a rara possibilidade de darem uma espiada de perto no vulcão, correndo um risco relativamente pequeno. "Na escala das erupções vulcânicas, está é insignificante", explica John Pallister, geólogo do observatório de vulcões.

Desta vez, gases como os dióxidos de carbono e de enxofre - os ingredientes que tornam os vulcões explosivamente letais - estão praticamente ausentes. "Isto está se transformando em um incrível experimento científico", afirma Pallister. "O Santa Helena é simplesmente um ótimo lugar para trabalharmos neste momento".

Erupções passadas do Monte Santa Helena variaram bastante em intensidade. Em algumas ocasiões ele explodiu com violência, como em 1980. Em outras, a lava fluiu na forma de líquido incandescente, de maneira similar ao que ocorre durante as erupções do Kilauea, no Havaí.

O magma novo oriundo das profundezas da Terra costuma estar repleto de gases vulcânicos, de forma que a ausência desses gases sugere que o vulcão está apenas expelindo vagarosamente restos de rocha derretida das erupções da década de 1980, como se fosse uma garrafa de refrigerante que tivesse perdido o gás. A composição química dessas rochas é bastante similar à do material expelido na década de 1980, o que fortalece ainda mais essa hipótese.

Resta saber por que o magma que vem se acumulando silenciosamente em camadas subterrâneas durante quase duas décadas começou a ser expelido novamente do vulcão.

Os cientistas dizem que mais magma pode ter saído do manto (camada que fica abaixo da crosta terrestre) e empurrado o magma velho para cima. Talvez as pesadas chuvas ocorridas em agosto do ano passado tenham penetrado em camadas profundas da crosta terrestre, atingindo as rochas quentes sob o vulcão e se transformando em vapor, que enfraqueceu e fragmentou as rochas, permitindo que a lava voltasse a subir.

"Isso pode ter sido a gota d´água", opina Major. "Não sabemos ao certo".

Debaixo da montanha, o magma sobe através de um canal condutor, semelhante a um canudo para bebidas, a partir de uma câmara magmática pequena que fica a cerca de oito quilômetros da superfície. Abaixo dessa câmara provavelmente há um outro canal condutor que vai até o manto.

À medida que a atual erupção esvaziava esse canal, os cientistas detectaram uma pequena redução do tamanho das paredes do vulcão, embora não tão intensa quanto se previa, o que sugere que a câmara foi parcialmente reabastecida com novo magma. A composição desse novo magma poderia ajudar a determinar o que acontecerá a seguir.

Faz apenas duas semanas que Pallister descobriu os primeiros sinais diretos do novo magma - uma pequena bolha de vidro incrustada na rocha expelida pela erupção. Presume-se que o vidro seja formado por magma novo e quente que se resfriou rapidamente ao entrar em contato com o magma mais antigo e frio. "Talvez haja algo de diferente acontecendo", diz Pallister. "Mas, pelo menos até agora, qualquer fato novo não está contribuindo significativamente para a erupção".

Enquanto a erupção prossegue, continuam ocorrendo os terremotos que anunciaram o despertar do Monte Santa Helena, em intervalos de aproximadamente um minuto. Houve mais de um milhão destes terremotos nos últimos 14 meses. Tais terremotos são superficiais, ocorrendo a umas poucas centenas de metros da superfície, e pequenos, com magnitudes entre 0,5 e 1,5 graus na escala Richter. "Eles são tão regulares que costumamos chamá-los de batidas de tambor", diz Dzurisin.

Ele conta que certa vez ficou absolutamente parado durante uma hora, tentando sentir os tremores sem o auxílio de instrumentos. Embora a metade deles seja muito fraca para ser notada, ele diz: "Em uma hora, senti 23 terremotos. Não foram tremores violentos. É algo de muito sutil. Dá apenas para perceber que algo está se movendo, que alguma coisa está acontecendo".

Ele diz que alguns dos terremotos são acompanhados por um ruído surdo. As laterais das rochas que sobem até a superfície trazem arranhões profundos, o que faz com que os geólogos acreditem que elas ficam presas no canal condutor, e depois, à medida que a pressão de baixo aumenta, deslizam para cima, provocando um pequeno terremoto.

"A geologia está nos olhando nos olhos", diz Seth Moran, sismólogo do Observatório de Vulcões Cascades. No caso de outros vulcões, os cientistas argumentaram que tremores similares foram causados por gases vibrando nas fissuras da Terra, de forma similar ao que ocorre na tubulação de um órgão de igreja.

"Provavelmente existe uma combinação dos dois fenômenos em andamento", explica Moran.

Um outro mistério do Monte Santa Helena é o da geleira que desapareceu. Após a primeira série de erupções que terminou em 1986, uma geleira começou a formar-se no interior da cratera, atingindo um volume de 120 milhões de metros cúbicos. A nova cúpula vulcânica dividiu a geleira ao meio e pode ter derretido algo entre um quinto e um quarto do gelo e da neve.

Mas a quantidade de água que flui da cratera é a mesma.

"Não houve aumento perceptível desse fluxo", diz Major, o hidrólogo. "A água poderia estar descendo e formando um aqüífero - a montanha estaria funcionando como uma grande esponja - e fluindo de fontes que ficam fora da cratera".

Os cientistas não estão preparados para prever o que o Monte Santa Helena, ou qualquer outro vulcão, fará a seguir. A atual erupção do Monte Santa Helena, que já se acalmou um pouco, quando comparada à atividade do vulcão há um ano, pode sofrer uma redução ainda maior, até cessar por completo. Ou poderia ainda prosseguir no ritmo atual por décadas.

Ou, quem sabe, o vulcão poderia apresentar um comportamento totalmente diferente.

Kenneth McGee, um outro cientista do observatório de vulcões, que vem acompanhando com atenção os gases expelidos pelo Santa Helena, conclui: "De certa forma, determinar quando terminará uma erupção é mais difícil do que prever o seu início". 25 anos após seu cataclisma final, vulcão dá potentes sinais de vida Danilo Fonseca

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