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29/11/2005

Para Nova Orleans, diques mais altos não bastam

The New York Times
John Schwartz

Em Nova Orleans
Em meio a toda a discussão sobre como reconstruir esta cidade devastada, há um ponto universalmente aceito aqui: Nova Orleans deve contar com um sistema de proteção contra inundações forte o bastante para suportar tempestades de categoria 5, a pior que a natureza pode proporcionar.

É um grito de ordem ouvido nas transmissões de rádio e no editorial de primeira página do "The New Orleans Times-Picayune", nos bairros arruinados e nas diretorias corporativas.

Uma forte proteção é a base da qual tudo mais depende, disse Joe Veninata, proprietário de um shopping center e casas de aluguel no bairro de Gentilly.

"Para as pessoas virem à cidade e investirem, para as pessoas se sentirem seguras", disse Veninata. "Sem isto, não poderemos mais construir Nova Orleans."

Mas construir uma proteção categoria 5 está provando ser uma proposta tecnicamente complexa e astronomicamente cara. Ela envolveria bem mais do que apenas diques mais altos: teria que haver mudanças extensas no sistema de canais e bombas de drenagem da cidade, restauração ambiental em vasta escala para recuperar os pântanos protetores e ilhas barreiras, e mesmo um portão de mar longe da cidade, perto do Golfo do México.

As estimativas de custo ainda são imprecisas, mas a obra custaria facilmente mais de US$ 32 bilhões, disseram autoridades estaduais, e poderia levar décadas para ser concluída.

O atual sistema de diques ao redor da cidade foi projetado para suportar o equivalente a uma tempestade categoria 3, e o Corpo de Engenheiros do Exército está gastando US$ 1 bilhão para devolver às seções danificadas sua força original. Ela planeja completar tal esforço antes da próxima temporada de furacões, que começa em 1º de junho.

Mas um senso de quão mais extensa uma proteção categoria 5 seria pode ser encontrada 37 quilômetros ao leste do centro de Nova Orleans, em um estreito chamado Rigolets, que liga o golfo ao Lago Ponchartain. Por quase 200 anos, o baluarte de tijolos do Forte Pike dá vista para a abertura de 1 quilômetro, protegida originalmente pelo forte para rechaçar ameaças militares por terra ou mar.

Mas atualmente, a ameaça é do próprio mar. Uma série de tempestades como o furacão Katrina pode lançar água pela abertura e causar inundações na cidade. Assim, os engenheiros e outros especialistas dizem que a Corpo dos Engenheiros deveria construir um portão de mar nos Rigolets que permaneceria aberto grande parte do tempo, mas que poderia ser fechado em caso de tempestade.

Mas na costa, ao lado das ruínas do Forte Pike e olhando do outro lado da água reluzente, o projeto parece enormemente audacioso, na escala dos sistemas de diques que protegem Londres e Amsterdã. E é apenas um passo no sentido de fortificar Nova Orleans no nível mais elevado. O Congresso apenas recentemente concordou em dar US$ 8 milhões para o Corpo estudar a implementação de uma proteção aumentada para o Sul da Louisiana, com um relatório preliminar previsto para seis meses. O plano final só será apresentado daqui dois anos.

Apesar de todo especialista ter uma lista de coisas que melhorariam os controles de inundação da cidade, a proteção categoria 5 não é fácil de definir, disseram especialistas. Dan Hitchings, diretor da Força-Tarefa Esperança, o esforço de ajuda do corpo ao furacão Katrina, notou que furacões categoria 3 são especificamente definidos, enquanto a categoria 5 inclui quaisquer furacões cujos ventos ultrapassem 249 km/h e uma onda de tempestade que ultrapasse 5,4 metros.

"Qual é o topo para um furacão categoria 5?" disse Hitchings. "Não há um."

Herbert Saffir, co-criador da escala Saffir-Simpson para furacões, disse que não recomendaria o planejamento de um sistema de proteção categoria 5 porque é improvável que tal tempestade atinja um local em particular uma vez a cada 500 anos. Apenas três tempestades categoria 5 atingiram os Estados Unidos na história registrada, disse Saffir; o furacão Katrina atingiu a categoria 5 no Golfo, mas caiu para categoria 4, no máximo, quando entrou no continente ao leste de Nova Orleans, perto de Buras, Louisiana.

Outros discordam. Maarten van der Vlist, um engenheiro do Rijkswaterstaat, o equivalente holandês ao Corpo de Engenheiros, disse que após a inundação desastrosa de 1953, a Holanda optou por se proteger contra inundações que ocorrem uma vez a cada 10 mil anos.

A maioria das propostas categoria 5 para Nova Orleans inclui dispositivos para o fechamento das passagens para o mar, como Rigolets, e portões nas bocas dos atuais canais de drenagem e navegação. Jurjen Battjes, um professor de engenharia civil da Universidade de Tecnologia Delft na Holanda e um especialista em sistemas de diques, disse que a abordagem funcionou bem em seu país. "Você não vai querer que o inimigo invada profundamente seu território", disse Battjes. "Feche sua cerca no perímetro externo."

Os atuais diques podem ser aumentados e reforçados, e qualquer novo sistema poderia também incluir diques internos que impediriam que uma ruptura em algum ponto inundasse grandes áreas da cidade, disse Thomas F. Wolff, um professor associado do departamento de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual de Michigan. Diques, disse Wolff, são conhecidos como "sistemas em série", que ele comparou a "luzes de árvores de Natal dos anos 50 -quando uma queima, todas deixam de funcionar".

Tal trabalho de diques deve ser somado à restauração dos pântanos costeiros e ilhas barreiras que podem impedir o progresso de uma tempestade, disse Ivor van Heerden, um professor do departamento de engenharia civil e ambiental da Universidade Estadual da Louisiana e vice-diretor do centro de furacões da universidade.

"Onde tinha pântanos, os diques não sofreram desgaste", disse Van Heerden sobre os estragos do furacão Katrina, "e onde não havia pântanos, os diques foram aniquilados".

Mas a construção de muros e bombas é apenas parte do desafio. Muitos especialistas dizem que é igualmente importante reorganizar o método do país de projetar e construir sistemas para inundação.

A atual colcha de retalhos de agências locais, estaduais e federais responsáveis pela proteção contra inundações deve ser unificada e enxugada, disse Robert G. Bea, um professor de engenharia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O Corpo de Engenheiros deve administrar o projeto, como tem feito historicamente, disse Bea, mas deve evitar a abordagem pouco a pouco que tem tornado o sistema mais vulnerável com o tempo. (O Legislativo da Louisiana votou recentemente contra uma proposta que uniria os conselhos administrativos de diques que mantêm os sistemas de inundação da região.)

Especialistas dizem que Nova Orleans também precisa de restringir locais onde as pessoas podem construir, assim como de uma nova organização independente com poder para estabelecer normas para diques em todo o país e inspecioná-los. Uma maior ênfase em evacuação e planos de segurança também seriam necessários.

Mas oficiais do Corpo dizem que é impossível prever a próxima tempestade. O general de exército Carl A. Strock, o chefe dos engenheiros do Corpo, disse em uma entrevista em Washington que um foco excessivo no que saiu errado no furacão Katrina poderá levar a planos menos eficazes no futuro.

"Nós não precisamos travar a última guerra o tempo todo", disse Strock. A próxima tempestade poderia passar pelo centro da cidade, ou ao longo do lado oeste, enchendo as bacias do rio oeste e sobrecarregando os diques ao longo do Rio Mississippi que suportaram o furacão Katrina.

Mesmo se muitas das atuais propostas puderem ser realizadas, disse Van der Vlist, continuaria difícil saber se realmente suportariam uma tempestade categoria 5. "Na Holanda, nós não temos furacões como vocês", disse ele. O país abaixo do nível do mar é protegido contra as forças da água, mas não experimenta o poder esmagador dos ventos de um furacão.

Nova Orleans também poderá se virar com um sistema de proteção abaixo do necessário para resistir a uma tempestade categoria 5, se for projetado e construído de forma robusta, disse Robert A. Dalrymple, um professor de engenharia civil da Universidade Johns Hopkins e membro da equipe da Sociedade Americana de Engenharia Civil que investigou as rupturas dos diques.

"Se você tiver um sistema de proteção categoria 3 e uma tempestade categoria 4 a atingir, a água passará por cima dos diques", disse Dalrymple. Mas se os diques puderem ser construídos de forma a resistirem à ação do excesso de água, e "se os diques se mantiverem no lugar, haverá inundação apenas por horas", ele acrescentou. As estações de bombeamento e a drenagem de rua poderiam então remover a água.

Mas o custo de qualquer atualização significativa seria enorme -mais do que os US$ 21 bilhões gastos em Nova York depois de 11 de setembro, mas menos do que os US$ 57 bilhões que serão gastos em construção e manutenção de estradas no recente pacote de federal de transportes. Washington e os governos estaduais gastam cerca de US$ 160 bilhões por ano em infra-estrutura, incluindo estradas, transportes e serviços públicos, segundo a Sociedade Americana dos Engenheiros Civis.

Mas dado o grande déficit federal e outras exigências de dinheiro, ainda não há indício de que Washington pagará os US$ 32 bilhões ou mais por uma proteção plena.

Scott A. Angelle, o secretário do Departamento de Recursos Naturais da Louisiana, disse que a fortificação de Nova Orleans ao nível mais elevado poderia ser realizada dando à Louisiana uma participação maior do que a que atualmente recebe da receita da exploração de petróleo além da costa, mas que estão dentro do limite territorial de 5 quilômetros da costa. O governo federal atualmente recebe cerca de US$ 5 bilhões por ano destes poços.

O trabalho à frente, disse Angelle, é intimidante mas certamente possível. "Nós podemos consertar qualquer coisa nas quais nos concentrarmos. "Nós, como povo, e nós, como americanos." Cidade continua sofrendo com estragos feitos pelo furacão Katrina George El Khouri Andolfato

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