UOL Notícias Internacional
 

30/11/2005

Universidade do Sul luta contra a origem racista

The New York Times
Alan Finder

Em Sewanee, Tennessee
As bandeiras dos Estados do Sul desapareceram da capela. O bastão cerimonial dedicado a Nathan Bedford Forrest, um general confederado que ajudou a fundar a Ku Klux Klan, desapareceu. O próprio nome da Universidade do Sul foi mudado, se tornando Sewanee: A Universidade do Sul, com uma maior ênfase em Sewanee.

Tudo isto parecia altamente sensível para os administradores da universidade, buscando ter apelo além dos garotos brancos privilegiados do Sul, que por muito tempo foram a base da universidade, e assim tornar a universidade mais nacional, seletiva e racialmente diversa.

Josh Anderson/The New York Times 
Bastão utilizado em cerimônias oficiais traz a bandeira dos Estados Confederados, que defendiam a escravidão, no século 19
Mas as mudanças provocaram um debate acalorado entre ex-alunos, muitos dos quais as consideram uma traição de sua história.

Alguns tradicionalistas dizem temer que o nome da casa de convidados da universidade, Descanso do Rebelde, será a próxima a mudar e que um monumento doado pelas Filhas Unidas da Confederação, comemorando Edmund Kirby-Smith, um general confederado que lecionou na universidade por quase 20 anos, será removido.

"Eu acho que devem deixar do jeito que é", disse o dr. David W. Aiken, um ex-aluno que é cirurgião ortopédico em Metairie, Louisiana. "Eu não sou favorável à mudança de nada. Eu acho que eles estão se saindo muito bem. Qual é o propósito de torná-la uma escola mais nacional? Eu quero garotos da Califórnia, de Nova York, vindo para cá? Realmente não."

Por todo o país, as universidades estão tentando se reposicionar para atrair estudantes de maior qualidade e melhorar seu perfil nacional. Mas talvez em nenhum outro lugar isto seja mais desafiador do que no Sul, onde os diretores de universidades freqüentemente se vêem lutando para mudar as imagens confederadas sem alienar ex-alunos e doadores determinados a manter sua herança.

"A questão que todos nós enfrentamos é a de que ex-alunos adoram preservar a instituição em âmbar", disse George Gee, o reitor da Universidade Vanderbilt. "A verdade é que para que a instituição sobreviva, ela precisa crescer, olhar o mundo como ele é em vez de como queria que fosse."

Variações deste debate estão ocorrendo em muitos campi do Sul. A Vanderbilt removeu a palavra confederado do nome do Salão Memorial Confederado, um dormitório, mas recuou após perder um processo em maio. Na Universidade Estadual da Louisiana, os estudantes marcharam várias vezes no mês passado para protestar contra a exibição de bandeiras confederadas, nas cores púrpura e dourada da universidade, durante um piquenique antes dos jogos de futebol.

A Universidade da Carolina do Norte decidiu no final do ano passado encerrar um prêmio para mulheres depois que uma estudante de doutorado descobriu que Cornelia Phillips Spencer, a pessoa que dava nome ao prêmio, foi contra os esforços para admissão de estudantes negros durante a Reconstrução.

E na Universidade do Texas, as autoridades consideraram remover as estátuas de líderes confederados de um local proeminente. Apesar do plano estar temporariamente suspenso, os estudantes levantaram dinheiro para a criação de esculturas homenageando Barbara Jordan e Cesar Chavez.

Sewanee, como a Universidade do Sul é conhecida há décadas, não é exceção, com alguns ex-alunos argumentando que em sua busca para tornar a universidade menos regional, os administradores estão desonrando símbolos queridos.

"Eles estão tentando enterrar os pais fundadores e os homens fundadores que ensinaram lá e que tiveram um papel importante na Guerra Civil, tendo sido generais e engenheiros", disse Prescott N. Dunbar, um ex-aluno de Nova Orleans. "É um tipo idiota de reversão para atrair estudantes."

Os administradores, membros do conselho e outros ex-alunos de Sewanee dizem que não estão esquecendo o passado, mas apenas tentando distinguir entre símbolos que são uma parte orgânica da história da universidade e aqueles que não são.

Por exemplo, eles disseram, a bastão cerimonial de prata e nogueira foi criado em 1964 como um presente de uma mulher da Flórida, cujo irmão freqüentou a universidade; ele foi dedicado a Forrest, que não tinha ligação com a universidade.

Por outro lado, disseram os administradores, ninguém quer eliminar o nome da casa de convidados, o memorial Kirby-Smith ou as bandeiras e selos confederados nos vitrais da Capela de Todos os Santos.

Eles disseram que para a universidade prosperar em um mercado altamente competitivo, ela precisa atrair uma maior variedade de estudantes; apenas 4,5% dos 1.400 alunos são negros, 2% são latinos e 2% são ásio-americanos. Para isto, eles disseram, Sewanee precisa atrair estudantes, não ofendê-los.

"A Sewanee que conheço e amo tem muito mais a ver com Trollope do que com a causa perdida", disse Jon Meacham, um ex-aluno que descreveu brincando a universidade como uma "combinação estranha de 'Memórias de Brideshead' e 'Amargo Pesadelo'".

"Você se livra da história do lugar para torná-lo atrativo para uma nova geração?" disse Meacham, que é editor administrativo da revista "Newsweek" e membro do conselho diretor de Sewanee. "Não. Seria impossível fazê-lo."

Ele acrescentou: "Em casos particulares, se algo é considerado ofensivo, é considerado problemático ou inoportuno, não apenas para alunos potenciais mas também para as pessoas que fazem parte do coração e alma do lugar, então eu acho que é obrigatório que algo seja feito".

No coração do velho Sul

Uma pequena universidade liberal de artes com um campus com prédios de arenito no Cumberland Plateau, no sudeste do Tennessee, Sewanee foi fundada por bispos episcopais pouco antes da Guerra Civil e começou a funcionar em 1868.

Ainda de propriedade de 28 dioceses episcopais do Sudeste, ela é um local refinado com tradição em excelência acadêmica, particularmente em disciplinas como inglês e religião. Ela é lar da "Sewanee Review", uma prestigiada revista literária trimestral.

Por décadas, homens vestiam terno e gravata nas salas de aula e alguns ainda o fazem. Os membros da sociedade de honra, chamada de Ordem dos Homens de Toga, costumavam vestir rotineiramente suas togas acadêmicas para assistir a aula. Alguns ainda o fazem, ocasionalmente.

Alguns ex-alunos se aborreceram com o relaxamento de tais tradições e muitos ficaram alarmados à medida que objetos pelos quais tinham afeição foram removidos para arquivos ou simplesmente desapareceram. Primeiro, os diretores da universidade removeram as bandeiras da nave da Capela de Todos os Santos em meados dos anos 90, dizendo que isto melhoraria a acústica. Algumas das bandeiras continham imagens confederadas.

Então, em 1997, o bastão, que era carregado pelo presidente da Ordem dos Homens de Toga nas procissões acadêmicas, desapareceu. Gerald L. Smith, um professor de religião, disse que o quebrou acidentalmente quando estava vendo o bastão para uma pesquisa de doutorado de um ex-aluno. Os diretores da universidade decidiram não reparar o bastão.

O dr. Samuel R. Williamson, um professor de história que era o executivo-chefe de Sewanee na época, disse que encomendou um novo em 1992 ou 1993 em homenagem aos bispos que fundaram a universidade. Em uma carta aos ex-alunos em julho de 1997, Williamson disse que o antigo bastão seria colocado nos arquivos e que um professor concordou em projetar um novo. Ele não foi concluído.

Smith disse que um equívoco levou ao desaparecimento do bastão. Ele disse que pediu ao chefe da polícia da universidade que o colocasse no depósito, que seria no arquivo. O chefe o colocou no depósito de armas da polícia, onde foi finalmente encontrado neste ano.

Cerca de 30 ex-alunos então se ofereceram para pagar pelo reparo do bastão, mas a universidade recusou o presente, disse Dunbar, o ex-aluno de Nova Orleans.

"Estes símbolos nunca deviam ter sido removidos, para começar", disse Erle J. Newton III, um ex-presidente da sociedade de honra que se formou em maio. "Você não pode separar a Universidade do Sul da história do Sul e da história confederada."

Outros ex-alunos disseram que o bastão era impróprio, especialmente nas cerimônias na Capela de Todos os Santos. "Eu não poderia em boa consciência me sentar com meus amigos afro-americanos e dizer 'isto faz parte da cerimônia da igreja'", disse Bruce Dobie, um jornalista de Nashville envolvido em um empreendimento online.

Alguns ex-alunos também ficaram furiosos com um relatório encomendado pela universidade junto a uma firma de marketing de Chicago, no ano passado, que dizia que a palavra Sul freqüentemente gerava conotações negativas entre os estudantes de todo o país; quanto menor a conexão entre o Sul e o nome da universidade, melhor, disseram os consultores.

Isto provocou um debate feroz em torno do logotipo não oficial que a universidade vinha usando há uma década em seu material de escritório, cartões comerciais, mapas do campus e atualmente em seu site na Internet: "Sewanee: a Universidade do Sul". Freqüentemente a palavra Sewanee está em tipo grande, com o restante do nome em letras pequenas abaixo.

Muitos estudantes disseram que foram atraídos a Sewanee por suas tradições, mas muitos endossaram a idéia de recrutar uma maior variedade de estudantes.

"Eu acho que muitas pessoas estão com medo que de se ampliarmos demais, nós perderemos aquilo que tornava a escola tão atraente", disse Townsend Zeigler, o editor do jornal da escola. "Eu não necessariamente concordo com isto."

O dr. Joel Cunningham, vice-reitor e presidente, disse que suas metas incluem tornar a admissão mais seletiva e recrutar uma maior diversidade de estudantes. Sewanee agora admite cerca de dois terços dos pedidos de matrícula, e Cunningham disse que gostaria de aumentar o número de pedidos, para que entre 40% e 50% fossem admitidos. Ele disse que tais ambições não devem entrar em conflito com o respeito pela herança de Sewanee.

"O fato é que estamos no Sul, e nos beneficiamos da tradição literária, do calor, da amizade", disse Cunningham. "Mas temos que reconhecer que há aqueles que podem ter outras conotações e que temos que atraí-los para que tenham um melhor entendimento do lugar? Sim." Objetivo é atrair mais estudantes; antigos alunos rejeitam mudanças George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,27
    3,252
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h23

    1,58
    74.594,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host