UOL Notícias Internacional
 

01/12/2005

Bush rejeita novamente prazo para sair do Iraque

The New York Times
David Sanger

Em Annapolis, Maryland
Dois anos e meio após a invasão americana no Iraque, o presidente Bush apresentou nesta quarta-feira (30/11) o que chamou de estratégia para a vitória, prometendo que a retirada não ocorrerá de acordo com "prazos artificiais estabelecidos por políticos", mas ao mesmo tempo oferecendo o primeiro vislumbre de seu plano para liberar as forças americanas.

Em um discurso aqui para saudar aspirantes na Academia Naval dos Estados Unidos, o primeiro de uma série de quatro que planeja fazer antes da eleição de 15 de dezembro no Iraque, Bush descreveu um plano militar geral no qual as forças americanas seguirão uma estratégia semelhante a que os Estados Unidos estão tentando no Afeganistão: concentrar as forças americanas nos terroristas que podem ir além das fronteiras do país, deixando os iraquianos para lidar com os rebeldes locais, incluindo os sunitas insatisfeitos e os remanescentes do regime de Saddam Hussein.

"Nós mudaremos do fornecimento de segurança e condução de operações contra o inimigo no país para a condução de operações mais especializadas voltadas contra os terroristas mais perigosos", disse o presidente.

"Nós sairemos cada vez mais das cidades iraquianas, reduziremos o número de bases a partir das quais operamos e conduziremos menos patrulhas e comboios."

Bush não deu prazo para tal transição e repetiu sua rejeição aos pedidos --expressos fortemente por muitos democratas no Congresso e sussurrados por alguns republicanos, cada vez mais temerosos das conseqüências nas urnas no próximo ano devido à crescente impopularidade da guerra.

"Muitos defensores de um prazo artificial para retirada de nossas tropas são sinceros --mas eu acredito que estão sinceramente errados", disse Bush. "Retirar nossas tropas antes de atingirem seu propósito não é um plano para vitória."

Juntos, o discurso de Bush e a não confidencial "Estratégia Nacional para Vitória no Iraque" que o acompanhou, divulgada na quarta-feira pela Casa Branca, fizeram claramente parte de um esforço para mudar uma discussão na capital que Bush e seus assessores temiam estar saindo de seu controle.

Ele escolheu o local cuidadosamente: os aspirantes na academia naval saudaram sua chegada, uma banda militar tocou assim que ele apareceu e o palco no salão gigante, no centro do famoso campus, estava adornado com um fundo gigante estampado com as palavras "Plano para Vitória".

Mas os democratas estavam preparados para o discurso bastante anunciado, e o declararam rapidamente como sendo o triunfo da manipulação sobre a estratégia.

"O presidente fracassa em ver e confrontar a verdade sobre a guerra no Iraque", disse a senadora Barbara Boxer, da Califórnia, uma das maiores críticas de Bush no Capitólio, imediatamente após. Ela acrescentou que "o presidente se recusa a reconhecer que erros foram cometidos e que esta guerra foi baseada em falsos argumentos".

Na verdade, Bush chegou o mais perto até o momento de reconhecer os erros --sem chamá-los disto-- desde agosto de 2004, quando em uma entrevista ele reconheceu um "erro de cálculo" na avaliação de quão rapidamente uma insurreição se desenvolveria.

Ele disse que quando as forças americanas e aliadas chegaram, "nós iniciamos o processo de criação de um exército iraquiano para defender o país de ameaças externas" e forças de defesa civis para subjugar os problemas dentro das fronteiras do país.

"As forças de defesa civis não tinham poder de fogo ou treinamento suficientes", disse ele. "Elas provaram não ser páreo para um inimigo armado com metralhadoras, granadas propelidas por foguete e morteiros. Assim, a abordagem foi corrigida."

Ele falou longamente sobre o treinamento que os iraquianos estão recebendo agora e considerou espúria a observação dos críticos de que "apenas um batalhão iraquiano conseguiu independência completa da coalizão". Isto, ele disse, não traduz a capacidade dos iraquianos de se juntarem ao combate.

Bush disse que nem toda unidade iraquiana precisa atingir um grau de independência a ponto de fornecer seu próprio apoio, logística, inteligência e assumir à dianteira no combate. Ele disse que até alguns batalhões da Otan não atendem tal padrão.

Em um esforço relacionado para começar a liberar as forças americanas no próximo ano, oficiais militares disseram na terça-feira que buscarão bilhões de dólares adicionais para melhor treinar os iraquianos a defenderem o país.

Os oficiais militares no Iraque disseram que pediram US$ 3,9 bilhões para o próximo ano para ajudar a treinar e equipar as tropas iraquianas, construir novas bases policiais e fornecer novos uniformes aos soldados iraquianos.

Tal quantia faria parte de um pedido maior de gastos ao Congresso para o esforço geral de guerra e se somaria aos US$ 10,6 bilhões que os legisladores já aprovaram para reconstrução das forças de segurança do Iraque.

Bush continuou enfatizando que as forças americanas não podem ser retiradas antes que seu trabalho esteja concluído -o que significa em parte que primeiro é necessário que um número suficiente de forças iraquianas esteja treinado para garantir estabilidade e segurança ao Iraque.

O secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, também enfatizou o imperativo de que os iraquianos ganhem o controle de seu país, repetindo na terça-feira o pensamento de que em vez de "uma estratégia de saída, nós deveríamos nos concentrar em nossa estratégia para vitória".

Enquanto Bush voltava da Ásia na semana passada e voava para casa para o debate no Congresso em torno da presença americana, funcionários do governo começavam a reconhecer que o nível de forças e gastos pode ser politicamente insustentável.

A Casa Branca disse que a estratégia apresentada na quarta-feira não é nova, mas que nunca foi reunida em um único documento não confidencial.

Sem sugerir qualquer tipo de prazo, o relatório disse que "não é realista" esperar o surgimento de uma democracia iraquiana plenamente funcional, capaz de derrotar seus inimigos, em menos de três anos após a derrubada de Saddam Hussein -que serão completados em março próximo.

"A vitória levará tempo", declara o relatório. "O Iraque provavelmente enfrentará algum grau de violência ainda por muitos anos."

O Pentágono agora gasta US$ 6 bilhões por mês para manter a presença militar americana no Iraque. Um alto funcionário do governo disse que a meta final de Bush, à qual não estabeleceu prazo, é passar para uma força americana "menor, mais letal" que "possa ser igualmente bem-sucedida".

Apesar da nova ênfase, autoridades do Pentágono e altos comandantes no Iraque não mais falam em termos de vitória militar direta, no sentido de eliminação de toda a resistência. Em vez disso, eles discutem o que Rumsfeld disse no Pentágono como sendo uma "estratégia da coalizão de ajudar o povo iraquiano a cada vez mais assumir o controle de seu país".

Ele respondeu fortemente às sugestões de que as tropas americanas sozinhas executariam uma estratégia militar de "limpar, controlar e construir" em cidades e outros territórios antes controlados pelos rebeldes. A frase foi adotada pela secretária de Estado, Condoleezza Rice.

"Qualquer um que pegar estas três palavras e pensar que significam que os Estados Unidos devem limpar, que os Estados Unidos devem controlar e que os Estados Unidos devem construir não entende a situação", disse Rumsfeld aos repórteres.

"É o país dos iraquianos, 28 milhões deles. Eles são perfeitamente capazes de dirigir o país. Eles não o farão do jeito que você faria ou eu, ou da forma como nós fazemos aqui neste país, mas eles vão dirigi-lo."

Antes do discurso do presidente Bush, Rumsfeld e o general Peter Pace da Corporação Marine, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, buscaram expor o progresso obtido pelas forças de segurança iraquianas no ano passado. Eles disseram que os iraquianos assumiram o controle de 29 das 110 bases militares mantidas pelos americanos e mais que dobraram o número de soldados treinados e equipados, para 212 mil soldados e policiais.

O Pentágono continua a avaliar que um terço destas forças é capaz de assumir a dianteira em operações de combate, com algum apoio americano, e várias centenas de soldados iraquianos como capazes de operar de forma plenamente independente das tropas americanas.

Após o discurso do presidente, o senador Russell Feingold, um democrata de Wisconsin, emitiu uma declaração o criticando como não sendo nada novo e "um panfleto de 35 páginas cheio da mesma retórica que já ouvimos antes".

"A ação de hoje pela Casa Branca não é um passo à frente, mas um passo para trás", disse Feingold, que em outubro de 2002 votou contra a resolução autorizando o uso da força contra o Iraque e que tem sugerido um prazo público para a retirada, tendo o final de 2006 como data alvo.

O senador John Cornyn, um republicano do Texas, disse: "Eu espero que cessem as alegações partidárias de que nossas forças armadas não têm um plano".

"Nós estamos conseguindo progresso significativo no treinamento das forças de segurança iraquianas, o que permitirá o retorno para casa das forças americanas", disse ele. "Mas nós não devemos deixar prematuramente o Iraque, o que seria um desastre para o Iraque e para a nossa segurança. Em vez disso, nós devemos permanecer, lutar e vencer."

O documento de estratégia de 35 páginas divulgado pelo governo na quarta-feira enfatiza que a guerra não será vencida em um prazo, e também descreve conseqüências mais amplas de um esforço fracassado no Iraque. Ele resultaria em caos sectário e tribal e os reformistas do Oriente Médio não mais confiariam nas garantias americanas de apoio a democracia e direitos humanos, segundo o documento.

Como ocorreu muitas vezes no passado, o governo considerou a guerra no Iraque como parte da linha de frente da guerra contra o terror e líderes terroristas como Osama Bin Laden e Abu Musab Al Zarqawi, o líder da Al Qaeda no Iraque, segundo o documento de estratégia americana. Presidente insiste que as tropas permanecerão até a "vitória final" George El Khouri Andolfato

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