UOL Notícias Internacional
 

01/12/2005

Presidiárias, mas livres para ser rainha da beleza

The New York Times
Paulo Prada

Em São Paulo
Foi um novo julgamento ao estilo brasileiro.

Quarenta criminosas condenadas --traficantes de drogas e assaltantes, na maioria, mas uma seqüestradora e assassina também-- apareceram novamente na quinta-feira perante um júri nomeado pelo Estado aqui em São Paulo, a capital do Estado mais populoso do Brasil.

Em vez de algemas e traje de presidiária, as condenadas vestiam vestidos de noite e salto alto, trajes de banho e jóias. Ignorando os crimes das mulheres, o júri foi instruído a julgá-las por sua beleza e simpatia, e por seus talentos na redação de ensaios e poesia.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Angelica Mazua desfila sob aplauso de colegas detentas após ser coroada Miss Penitenciária

O segundo concurso anual Miss Penitenciária foi o clímax de uma competição que durou meses e na qual 603 presas de 10 prisões disputaram títulos naquele que está rapidamente se tornando um dos concursos mais conhecidos no Brasil obcecado pela beleza. Ao permitir a 4 mil mulheres nas prisões do Estado a chance de desfilar na passarela, as autoridades esperam elevar a moral e no processo melhorar a imagem de um sistema penitenciário mais conhecido pelas prisões para homens lotadas e tomadas pelo crime, onde rebeliões e assassinatos normalmente ganham as manchetes mundiais.

A final, por exemplo, ocorreu no pátio de um presídio feminino vizinho ao que restou do complexo do Carandiru, a antes vasta penitenciária onde policiais mataram 111 presos durante uma rebelião em 1992. O antigo presídio foi demolido para dar lugar a um parque público -operários ainda estão removendo o que restou da entrada de concreto do Carandiru- mas a lembrança de tais eventos permanece alojada na consciência brasileira.

"O concurso é uma mensagem para as prisioneiras e para aqueles do lado de fora, também", disse Nagashi Furukawa, o secretário estadual encarregado do sistema penitenciário, que agora está considerando um concurso de talentos musicais para os homens no próximo ano. "Estas são pessoas com algo a oferecer e que precisam de oportunidades para poder demonstrá-lo."

E as participantes realmente mostraram.

Após aulas matinais com um coreógrafo que treina as participantes do concurso Miss Brasil, as detentas caminharam pelo palco, uma plataforma em forma de T decorada com um drapeado vermelho e branco. Além das 700 detentas que formavam a platéia -seus vivas e vaias às vezes abafando as vozes dos apresentadores e participantes- dezenas de fotógrafos e equipes de televisão registravam cada passo e pose.

As presas competiam em categorias que, além da classificação de "beleza", incluíam simpatia e uma competição de ensaio e poesia com o tema "reescrevendo o futuro". Apesar dos prêmios serem modestos -a vencedora em cada categoria ganhou R$ 350- as detentas foram motivadas pela mudança de sua rotina e pela chance de participar de um evento improvável para elas do lado de fora.

"Eu fazia parte de outro mundo antes de vir para cá", disse Márcia Santana Santos, 30 anos, que está cumprindo pena por assalto à mão armada e que foi eleita Miss Simpatia. "Eu nunca poderia ter feito algo assim."

Patrocinadores privados cobriram o orçamento do concurso de cerca de US$ 20 mil. Um banco e um grupo de advogados criminalistas ajudaram a pagar pelos sistemas de luz e som, e escolas de beleza locais e caridades forneceram maquiagem, cera e tratamentos de cabelo. Alexandre Pires, um astro pop brasileiro de voz suave, apareceu gratuitamente.

O júri de 15 membros incluiu um cirurgião plástico, um membro da defensoria pública, um apresentador de televisão e Rita Cadillac, uma ex-stripper conhecida pelas apresentações de caridade em presídios para homens. Grafite, um astro do futebol que participou do júri, passou mais tempo dando atenção às detentas fãs na platéia do que prestando atenção nas que desfilavam no palco.

"Elas parecem felizes", disse ele, apontando para as mulheres trajando as calças amarelas e camisetas brancas de prisão que faziam fila para pedir autógrafo. "Eu estou orgulhoso de poder de alguma forma fazê-las se sentirem melhor quanto a si mesmas."

Apesar de cada participante ter recebido um pacote com xampus, loções e maquiagem, a melhoria da auto-estima, elas disseram, foi a melhor parte.

Angelica Mazua, uma alta e magra angolana de 23 anos que foi presa no aeroporto de São Paulo no início do ano com 1 quilo de cocaína inserido em um par de tênis, disse estar participando "para representar meu presídio e fazer nós todas nos sentirmos melhor quanto a nossa situação". A vencedora da categoria beleza, Mazua está presa no presídio onde ocorreu a final, e portanto contou com a torcida local.

Uma torcida local semelhante era evidente um dia antes na prisão de segurança mínima para mulheres em São José dos Campos, uma pequena cidade a 88 quilômetros ao leste de São Paulo. Enquanto as quatro candidatas provavam seus vestidos e sapatos de salto alto para desfilar no pátio interno, as companheiras davam dicas de postura e contato olho no olho. Priscila Maria Pereira Ferreira, uma loira de olhos azuis de 22 anos, condenada por posse de maconha, disse que as companheiras de cela a acompanharam nos exercícios noturnos para modelar a barriga.

"Foi um desafio para nós todas", disse ela. "Nós todas queríamos que o presídio ganhasse."

Alguns defensores da lei e da ordem ficaram ofendidos pelo concurso. "O que virá a seguir?" perguntou Jorge Damus, fundador do Movimento de Resistência ao Crime, em São Paulo. "Eles vão pagá-las para pousarem nuas? Esta é uma glorificação patrocinada pelo Estado de pessoas que supostamente deveriam estar sendo punidas."

As participantes dizem que tal atitude não ajuda na recuperação.

"Nós não somos animais para você colocar em uma jaula e esquecer", disse Santos, a Miss Simpatia, com o glitter reluzindo no seu cabelo recentemente espetado. "A sociedade deve nos ajudar a explorar nossos talentos e nosso potencial." O Miss Penitenciária foi o clímax de uma competição que durou meses com 603 presas de 10 prisões; o concurso está rapidamente ficando um dos mais conhecidos no Brasil, obcecado pela beleza George El Khouri Andolfato

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