UOL Notícias Internacional
 

02/12/2005

Fragmentação de rebeldes no Iraque desafia EUA

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá, Iraque
Aqui está uma pequena amostra dos grupos rebeldes que reivindicaram a responsabilidade pelos ataques contra as forças americanas e iraquianas nos últimos meses: Simpatizantes do Povo Sunita. Brigada da Fé dos Homens. Cólera Islâmica. Brigada Suicida Al Baraa Bin Malik. Leões Tawid de Abdullah Ibn Al Zobeir.

Apesar de alguns deles, como a Brigada Suicida, alegarem ligação com a Al Qaeda e a Al Qaeda alegar ligação com os grupos, outros alegam agir por conta própria ou sob orientação de outro grupo.

Apesar de, na quarta-feira, o presidente Bush ter prometido nada menos do que a "vitória completa" sobre a insurreição iraquiana, a aparente proliferação dos grupos militantes no Iraque talvez ofereça a melhor explicação para o motivo da insurreição ser tão difícil de destruir.

O governo Bush há muito argumenta, e Bush reiterou isto em seu discurso de quarta-feira, que a insurreição envolve três elementos: árabes sunitas descontentes, ou "rejeicionistas"; membros leais do antigo governo de Saddam Hussein; e terroristas estrangeiros ligados à Al Qaeda.

No Iraque, autoridades americanas e iraquianas dizem que o fato mais importante sobre a insurreição é que ela consiste não de poucos grupos, mas de dezenas, possivelmente até 100. E não é, como é freqüentemente descrito, uma organização coerente cujos membros zelosamente executam ordens de cima, mas uma coleção extensa de grupos menores que freqüentemente agem por conta própria ou se unem para um único ataque, disseram as autoridades.

Grupos altamente visíveis como a Al Qaeda, Ansar al Sunna e o Grupo Exército Vitorioso parecem agir como fachadas, disseram autoridades iraquianas e americanas, fornecendo dinheiro, direção geral e perícia aos grupos menores, e freqüentemente assumindo a responsabilidade pelos seus ataques ao anunciá-los por todo o globo.

"Os líderes geralmente não têm nada a ver com os detalhes", disse Abdul Kareem Al-Eniezi, o ministro iraquiano da segurança nacional. "Às vezes eles dão a grupos menores um alvo, ou um tipo de alvo. Os grupos não estão ligados uns aos outros. Eles não são tão organizados."

Alguns especialistas e autoridades dizem que há exceções importantes. Os líderes da Al Qaeda, por exemplo, estão profundamente envolvidos com atentados suicidas espetaculares, a maioria deles ainda supostamente executado por não-iraquianos. Eles também dizem que alguns dos grupos menores que reivindicam responsabilidade pelos ataques podem ser fictícios, compostos de um punhado de combatentes esperando parecer mais numerosos e formidáveis do que realmente são.

Mas seja qual for a aparência, as autoridades americanas e iraquianas concordam na estrutura essencial da insurreição iraquiana: ela é horizontal e não hierárquica, e improvisada em vez de unida. Elas dizem que esta característica central, semelhante às das organizações terroristas na Europa e na Ásia, é o que torna a insurreição iraquiana tão difícil de destruir. Ataque uma parte dela e as demais prosseguirão praticamente intocadas. Ela não pode ser decapitada, porque a insurreição, em grande parte, não tem cabeça.

"Não há centro de gravidade, não há liderança, não há hierarquia; são mais uma constelação do que uma organização", disse Bruce Hoffman, um especialista em terrorismo da Rand Corp.

"Eles adotaram uma estrutura que assegura sua longevidade", disse Hoffman.

A capacidade de sobrevivência da insurreição representa talvez o desafio mais difícil de longo prazo para o governo iraquiano e aos comandantes americanos. A meta militar primária de grupos como a Al Qaeda e o Ansar Al Sunna não é vencer, mas apenas não perder; suportar até que os Estados Unidos se esgotem e partam. Mesmo a morte ou captura do líder da Al Qaeda na Mesopotâmia, Abu Musab Al Zarqawi, disseram muitas autoridades americanas e iraquianas, não colocará um fim à rebelião.

Em uma guerra tão obscura quanto a do Iraque, detalhes sobre o modo operacional da insurreição são poucos e efêmeros. Mas o que está disponível sugere que o movimento é disperso e fragmentado, mas não menos letal por ser assim.

Uma análise das dezenas de proclamações feitas por grupos jihadistas e postadas em sites islamistas na Internet revelou que mais de 100 grupos alegaram estar operando no Iraque ou serem associados a um grupo com a Al Qaeda. A maioria das postagens na Internet foi localizada e traduzida pelo Instituto SITE, um grupo de Washington que, entre outras coisas, rastreia a atividade rebelde na Internet.

Dos grupos encontrados pelo SITE, 59 foram reivindicados pela Al Qaeda e 36 pelo Ansar Al Sunna. Oito grupos alegaram estar operando sob a direção do Grupo Exército Vitorioso e cinco grupos disseram estar operando sob a Brigada da Revolução de 20 de Julho.

A natureza complexa da insurreição foi ilustrada em 24 de outubro, quando três homens-bomba suicidas, um dirigindo um misturador de cimento cheio de TNT, executaram um ataque coordenado aos hotéis Palestine e Sheraton, no centro de Bagdá. O ataque foi um dos mais sofisticados já realizados, com uma primeira explosão abrindo uma brecha nas barreiras protetoras do hotel. Isto permitiu que o misturador de cimento chegasse a poucos metros do Sheraton antes de ficar preso em arame farpado.

Um soldado americano abriu fogo contra o motorista do caminhão e a bomba aparentemente foi detonada por controle remoto. Seis pessoas morreram, mas os americanos e iraquianos concordaram posteriormente que o ataque foi próximo o bastante para derrubar ambas as torres.

Em questão de 24 horas, a Al Qaeda, em uma postagem na Internet, se gabou de seu papel no ataque a "cruzados e seus anões".

Mas nas letras miúdas da proclamação do grupo, a Al Qaeda declarou que o ataque foi de fato executado por três grupos separados: a Brigada de Ataque, a Brigada de Foguetes e a Brigada Suicida Al Baraa Bin Malik. Os três grupos, disse a nota da Al Qaeda, agiram em "colaboração", com alguns combatentes realizando a vigilância e outros fornecendo fogo de cobertura.

Rita Katz, a diretora do SITE, um grupo sem fins lucrativos que auxilia o governo americano na investigação das células jihadistas, disse que o ataque aos hotéis Palestine e Sheraton provavelmente foram planejados e dirigidos pelo escalão mais alto da Al Qaeda. Os líderes podem ter reunido as três "brigadas" para a realização do ataque, ela disse, e provavelmente forneceram perícia assim como os próprios homens-bomba suicidas.

Mas na maioria dos ataques, tal coordenação de cima para baixo provavelmente está ausente, disseram Katz e autoridades americanas e iraquianas. A maioria, elas disseram, é planejada e executada pelos grupos locais, com os líderes dos grupos superiores tendo pouco ou nenhum conhecimento deles.

*Colaborou Sabrina Tavernise, de Ramadi, Iraque. Insurgência é horizontal e não hierárquica, e improvisada em vez de unida; não pode ser decapitada, porque não tem "cabeça" George El Khouri Andolfato

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