UOL Notícias Internacional
 

04/12/2005

"Merci" da mulher com rosto transplantado

The New York Times
Craig S. Smith*
Em Lyon, França
A primeira pessoa do mundo a ter um novo rosto despertou na segunda-feira, 24 horas depois de sua operação na cidade de Amiens, no norte do país, e se olhou no espelho.

O nariz, lábios e queixo inchados que ela viu não eram os seus --eles foram arrancados de seu rosto pelo seu cão labrador em maio-- mas para a mulher de 38 anos, cujo rosto se tornou um sorriso bruto, sem lábios, eles eram parecidos o bastante. Ela pegou uma caneta e papel e escreveu para os médicos: "Merci".

Na sexta-feira, estes médicos defenderam sua pressa em dar à mulher um transplante parcial de rosto apenas meses após sua desfiguração, apesar dos enormes riscos de morte e problemas psicológicos. Eles rejeitaram as críticas de que visavam apenas a glória às custas da paciente, cuja identidade está sendo retida a pedido dela.

"Nós somos médicos", disse Jean-Michel Dubernard, que liderou a equipe de transplante e que ajudou a realizar o primeiro transplante de mão em Lyon, sete anos atrás. "Nós tínhamos uma paciente com uma desfiguração severa que seria extremamente difícil, se não impossível, de ser reparada com a cirurgia clássica."

Em uma coletiva de imprensa no Edouard-Herriot Hospital, em Lyon, para onde a paciente foi transferida para monitoramento da terapia imunossupressora que ela manterá por toda sua vida, os médicos explicaram como os ferimentos terríveis da mulher quase que imediatamente a tornaram uma candidata para o primeiro transplante de rosto do mundo. Eles negaram veementemente os relatos na imprensa local que citavam sua filha adolescente, com a qual ela tem relações estremecidas, como tendo dito que ela era suicida, levantando dúvidas sobre se ela era psicologicamente estável o bastante para a operação.

Dubernard já enfrentou tais acusações antes. Clint Hallam, o homem que ele selecionou para o primeiro transplante de mão do mundo, se recusou a manter seu regime permanente de medicamentos, necessário para suprimir a resposta imunológica, juntamente com os exercícios regulares para treinar a nova mão. Depois de três anos, ele teve a mão removida.

Segundo Dubernard, a mulher brigou com sua filha certa noite em maio, na casa dela em Valenciennes, uma cidade no norte, e a filha saiu para passar a noite na casa da avó. A mulher ficou agitada, ele disse, e tomou remédio para dormir. Durante a noite, ele disse, a mulher levantou e andou cambaleante pela casa, encontrando o cachorro.

Relatos na imprensa local sugeriram que a mulher, que é divorciada, caiu inconsciente e que o cão mordeu e arranhou o rosto dela em uma tentativa de despertá-la. Mas Dubernard disse que o cão tinha sido adotado de um canil local e era conhecido por ser agressivo. O cão foi sacrificado.

Logo após o ferimento da mulher, o dr. Bernard Devauchelle, o chefe de cirurgia de rosto e maxilar do Hospital da Universidade de Amiens, decidiu que a mulher era candidata para um transplante parcial de rosto e enviou um pedido urgente de ajuda para a localização de um doadora na Agência Francesa de Biomedicina, que supervisiona a alocação de órgãos para transplante na França. A janela para um transplante bem-sucedido era pequena, disseram os médicos, devido ao ferimento estar desenvolvendo tecido de cicatrização.

O dr. Benoît Lengelé, um cirurgião belga que foi assistente no transplante, disse que a mulher necessitaria de pelo menos três ou quatro cirurgias plásticas tradicionais para reconstrução de seu rosto com tecido extraído de outras partes de seu corpo, mas que os resultados nunca seriam esteticamente e funcionalmente satisfatórios.

Enquanto isso, o ferimento da mulher dificultava para que ela falasse e até mesmo comesse e bebesse, porque os alimentos e líquidos vazavam facilmente de sua boca. Os médicos disseram que sua capacidade de abrir a mandíbula também estava diminuindo progressivamente à medida que o tecido ferido se enrijecia. Em julho, Devauchelle consultou Dubernard, que visitou a mulher no início de agosto.

"No momento em que ela removeu sua máscara, que ela sempre usou, eu não hesitei mais", disse Dubernard na sexta-feira.

Nenhuma informação foi dada sobre a doadora, uma mulher com morte cerebral cujo anonimato é protegido por lei. Ela foi localizada no sábado em um hospital na cidade de Lille, ao norte, a 136 quilômetros de Amiens.

Pacientes com morte cerebral na França são considerados doadores de órgãos a menos que tenham declarações explícitas do contrário, e a aprovação por parente não é normalmente exigida. Mas dada a sensibilidade do caso, a família da doadora foi consultada sobre a possível coleta de parte do rosto durante as entrevistas iniciais que são realizadas para assegurar que o falecido não tenha dado instruções contrárias à doação de órgãos.

Uma equipe especial de psicólogos trabalhou com a família na tarde de sábado, enquanto os médicos envolvidos eram notificados de que uma doadora potencial tinha sido encontrada. À meia-noite de sábado, Devauchelle, que liderou a equipe cirúrgica, estava em Lille para iniciar a remoção do rosto enquanto outra equipe de cirurgiões, na nevosa Amiens, começava a remover o tecido cicatrizado da paciente em preparação ao transplante.

A coleta do rosto foi complicada pela convergência de várias equipes para remoção de outros órgãos da doadora, mas a operação foi concluída às 5 horas da manhã de domingo. Antes do funeral da doadora, uma equipe diferente de médicos reconstruiu o rosto da doadora com próteses de silicone feitas a partir de um molde tirado antes da remoção.

"A restauração foi notável", disse Carine Camby, a diretora da Agência Francesa de Biomedicina, sobre as próteses. Devauchelle correu para Amiens com o pedaço do rosto, resfriado em uma solução salina a 3,8º Celsius, e deu início ao transplante, começando por uma microcirurgia para conectar os vasos sangüíneos que alimentam o rosto. Devauchelle disse que a circulação sangüínea para a parte transplantada foi restaurada às 9 horas da manhã de domingo, quatro horas depois ter sido removida da doadora.

A operação prosseguiu tarde de domingo adentro, enquanto uma equipe de oito cirurgiões conectava músculos e nervos "tão finos como fibras penduradas de uma vagem", disse Dubernard. Finalmente eles costuraram a pele e as membranas mucosas da boca, trabalhando 15 horas ao todo. Enquanto limpavam o rosto da mulher e preparavam as bandagens, o silêncio tomou conta da sala de operação.

"O resultado foi além de nossas expectativas", disse Lengelé, membro da equipe cirúrgica. "Foi maravilhoso."

Uma enfermeira perguntou se podia aplaudir, e quando um dos médicos consentiu, as enfermeiras aplaudiram.

Na manhã de sexta-feira, a mulher estava comendo, bebendo e falando claramente, disseram os médicos. Apesar de ainda não ter controle muscular ou sensação na parte transplantada do rosto, ela é capaz de abrir e esticar a boca com os músculos faciais que permaneceram intactos.

Os médicos disseram que levará meses até saberem quanta sensação ou controle motor ela terá no enxerto, se é que terá, apesar de terem dito que o inchaço já começou a ceder e sua aparência estar relativamente normal.

"Há apenas uma pequena cicatriz contornando a área transplantada", disse Lengelé, acrescentando que a paciente já mostrou sinais de aceitação psicológica do transplante, dizendo na quinta-feira: "Este é meu rosto".

Os médicos disseram que a aparência é determinada tanto pela estrutura óssea abaixo quanto pelos elementos da pele, mas acrescentaram que a cor da pele da doadora, textura e espessura apresentavam uma combinação "surpreendente" com a da recebedora. Se o transplante for bem-sucedido, eles disseram, a mulher nem se parecerá exatamente como era antes e nem com a doadora.

"Será um novo rosto", disse Devauchelle.

"Uma área de tecido removido do antebraço da doadora e transplantado sob o braço da mulher permitirá aos médicos monitorar a resposta do corpo ao enxerto sem ter que realizar biópsias que marcariam seu rosto. Os médicos disseram que a mulher já superou o período em que trombose, ou coágulos de sangue, representava um grande risco à vida dela, mas que grande parte do período crítico para possível rejeição ao enxerto ocorrerá na próxima semana.

Dubernard disse que já injetou células-tronco da medula da doadora na paciente em uma tentativa de ampliar a tolerância do corpo ao tecido transplantado. Após analisar transplantes de mão bem-sucedidos, ele teorizou que as células produzidas pela medula das mãos dos doadores eram um elemento crítico no sucesso das operações. Ele acrescentou que outra "infusão" de células-tronco da medula da doadora será realizada na paciente no 11º dia após o transplante. O transplante não incluiu osso.

Como acontece com todos os transplantes, há cerca de 33% de risco de morte, 33% de risco de rejeição do enxerto pelo corpo e apenas 33% de chance do transplante ser bem-sucedido. Equipes cirúrgicas de outros países, incluindo dos Estados Unidos, estão acompanhando atentamente o resultado antes de prosseguirem com os transplantes de rosto que estão planejando.

"Nós pensamos em todas as pessoas que foram desfiguradas às quais podemos estar dando uma nova esperança", disse Dubernard.

*Lawrence K. Altman contribuiu com reportagem para este artigo, em Nova York George El Khouri Andolfato

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