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05/12/2005

Mikhail Baryshnikov descobre seu terceiro ato

The New York Times
John Rockwell
Em Nova York
Em outubro, uma válida organização de Nova York chamada Career Transition for Dancers celebrou sua festa de gala anual. Ela faz parte de um movimento mundial para ajudar os bailarinos se reinventarem quando se aproximam de sua aposentadoria prematura.

Seria difícil encontrar melhor exemplar de reinvenção de carreira do que Mikhail Baryshnikov. É claro que ele começou com algumas pequenas vantagens, como ser o mais idolatrado bailarinos de todos os tempos, sedutoramente bonito, com múltiplos talentos e a fama para capitalizá-los.

Ele estrelou no cinema, na Broadway e na televisão. Ele foi coreógrafo e diretor artístico do American Ballet Theater e fundou e estrelou seu próprio Projeto de Dança White Oak. Mas a maior parte de seus esforços até agora foram extensões de sua carreira de dança, e não uma transição a partir dela.

Agora, Baryshnikov está supervisionando outra coisa, o muito comentado, porém quase secreto, Centro de Artes Baryshnikov. A princípio, a inauguração seria em 2004. Depois, foi adiada para novembro. Entretanto, não houve estréia oficial, ou publicamente anunciada, nenhum evento de gala. E o centro, nos últimos três andares de um prédio novo de seis andares da 450 West 37th Street, já está funcionando há vários meses.

Mikhail Baryshnikov é o tema principal, mas o centro atrai atenção. Está quase pronto, e a idéia é expandir em 2008 com a compra do menor dos três teatros do prédio (de 299 assentos) no terceiro andar. Os andares de baixo são administrados pelo West 37th Group, um consórcio de produtores da Broadway e off-Broadway.

Ainda está meio vago o que vai acontecer exatamente no centro e se vai envolver performances de Baryshnikov. Já existe um programa de estágio experimental com a Faculdade de Artes Tisch, da Universidade de Nova York, no qual jovens artistas trabalharão com mentores mais velhos. Os mentores provavelmente serão tirados de uma lista de assessores artísticos reunidos por Baryshnikov --pessoas como Pedro Almodóvar, Pina Bausch, Trisha Brown, William Forsythe, Gidon Kremer, Mark Morris, David Salle, Peter Sellars e Sam Shepard.

Há também um programa de artes comissionadas. O coreógrafo-diretor Richard Move fará um show nesta primavera na Kitchen, já comissionado pela Fundação de Dança Baryshnikov e avaliado em 2002. Há também um programa de residência para artistas como Donna Uchizono, Tere O'Connor, John Jasperse e Deborah Hay --a maior parte bailarinos, mas que deve se diversificar. Haverá um programa de subsídio de aluguel para artistas. E haverá eventos púbicos, mesmo antes da aquisição do teatro, a começar com a série de música de câmara em um dos estúdios do centro.

Tudo isso custa dinheiro. Primeiro, há a meta de US$ 7 milhões (em torno de R$ 15,4 milhões) para a aquisição do imóvel. A campanha foi iniciada com uma doação de US$ 1 milhão (em torno de R$ 2,2 milhões) de Baryshnikov e já chegou a US$ 6 milhões (aproximadamente R$ 13,2 milhões). No entanto, será preciso angariar mais fundos, inclusive para a compra do teatro no terceiro andar. O custo anual de operações anuais, estimado em US$ 300.000 (R$ 660.000), será coberto pelo aluguel dos estúdios. O orçamento da programação, atualmente estabelecido em um pouco mais de US$ 1 milhão por ano, está garantido pela Fundação de Dança Baryshnikov, por meio de arrecadação de doações e renda das turnês de Baryshnikov.

Acima de tudo, Baryshnikov quer que o centro torne-se um laboratório de intercâmbio artístico tranqüilo, apesar de estar no coração de Manhattan. Em uma conversa com Susan Sontag, há dois anos, ele citou como modelo o ambiente de "camaradagem fácil e sem pressão" que havia na White Oak Plantation, na Flórida, do falecido patrocinador das artes Howard Gilman, e da Black Mountain, nos anos 40 e 50 e inúmeras outras obras utópicas de artes americanas.

Sem dúvida que toda essa atividade também serve a um interesse próprio. Ao comissionar tantos projetos com sua fundação, inaugurada em 1979, Baryshnikov também estendeu sua carreira de bailarino e se manteve sob os holofotes.

Mas essa é assim que deve funcionar o capitalismo -o modelo econômico pelo qual Baryshnikov desertou da Rússia e do Balé de Kirov em 1974: a ambição alimentada pelo auto-interesse que leva ao bem maior. E não há dúvidas que suas comissões de dança e o White Oak contribuíram muito para o bem do mundo da dança. E foram o ganha-pão de bailarinos e coreógrafos envolvidos. Danças foram comissionadas e executadas por artistas tão diversos quanto Karole Armitage, Maurice Bejart, Lucinda Childs, Eliot Feld, David Gordon, Erick Hawkins, Lar Lubovitch, Morris (sete deles!), Yvonne Rainer, Jerome Robbins e Sara Rudner.

Uma grande parte dos esforços de Baryshnikov concentrou-se na retomada dos experimentalistas de dança do centro da cidade, agrupados em torno da Igreja Judson nos anos 60. Esse interesse culminou com a turnê do White Oak chamada "PastForward", de 2001, com trabalhos antigos e novos desses veteranos, alguns dos quais reapareceram como coreógrafos em um programa de 2003 de solos que Baryshnikov comissionou para si mesmo.

Todo esse trabalho altamente diversificado com dança foi em parte um ajuste astuto para seu próprio corpo. Baryshnikov está com 57 anos, impossivelmente velho para qualquer bailarino clássico, exceto os que, como Frederic Franklin que, com 91 anos, ainda faz o papel de reis e outros personagens. Além disso, Baryshnikov tem problemas crônicos de joelho. Os que lembram seus saltos que desafiavam o princípio da gravidade em 1974, quando dançou pela primeira vez com o American Ballet Theater, encontram algo muito diferente hoje, apesar de sua graça e elegância nunca terem-no deixado. Agora, porém, ele tem um e corpo diferente e precisa dançar uma dança diferente.

As reinvenções de Baryshnikov são mais do que uma forma de prolongar sua carreira. Desde que era estudante de Alexander Pushkin, o grande mestre russo de balé, na Escola de Kirov em São Petersburgo, nos anos 60, ele tinha uma curiosidade incansável. "É assim o trabalho de um bailarino --desenvolver uma variedade de escolhas o mais ampla possível", escreveu em "Baryshnikov at Work", publicado em 1976.

Para onde a mais recente invenção de Baryshnikov o levará, bem como as artes e artistas para os quais serve? O Centro de Artes Baryshnikov é uma nobre idéia e esperamos que ele possa sustentá-la e desenvolvê-la e estabelecê-la como entidade própria depois de sua partida.

Por "partida" não quero dizer para algum novo empreendimento, mas a morte. Os dois pais de Baryshnikov morreram bastante jovens. Em entrevista com Jennifer Dunning, no New York Times em 1998, quando fez 50 anos, ele estava reflexivo sombrio. "Esta é a última parte da vida", disse ele. "A vida acabou. É isso." E completou: Só o que quero fazer é "encontrar paz comigo mesmo e todos em volta e ver meus filhos crescerem pelo máximo de tempo que puder."

Ele ainda está conosco e encontrou novos trabalhos, outras formas de se inventar e sustentar.

Naquele mesmo ano, no prefácio de um sofisticado livro de introdução ao balé de Robert Greskovic, chamado "Ballet 101", recém reeditado pela Limelight Editions, Baryshnikov escreveu: "Bailarinos excepcionais, na minha experiência, também são pessoas excepcionais, com uma atitude em relação à vida, uma espécie de busca e uma qualidade interior."

Nenhum bailarino foi tão excepcional quanto Mikhail Baryshnikov, e nenhuma busca mais excitante e recompensadora que a sua. Que suas transições de carreira continuem até que alcance a uma velhice ainda mais madura que até agora atingiu. Deborah Weinberg

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