UOL Notícias Internacional
 

06/12/2005

"Crise de extinção" ameaça Mongólia

The New York Times
John Noble Wilford

Em Ulan Bator, Mongólia
Em uma estrada a oeste desta capital, placas anunciam marmotas, raposas e outros animais selvagens, e pilhas de peles estão em exposição. Nas feiras, os comerciantes vendem peles e couros, a maioria ilegal. Mercados semelhantes floresceram em outras partes da Mongólia, especialmente ao longo da fronteira com a China.

Se a boa notícia na Mongólia é a volta gradual dos cavalos selvagens Przewalski, a notícia preocupante é o número em queda de outros animais selvagens, sob sítio impiedoso do excesso de caça e comércio de peles e outros produtos de origem animal.

Um novo estudo da vida selvagem, um dos recursos mais característicos do país, revelou uma queda alarmante na maioria das espécies, especialmente nos últimos 15 anos. Segundo algumas estimativas, as populações de espécies ameaçadas --marmotas, argalis (uma espécie de carneiro), antílopes, veados-vermelhos, ursos, asnos selvagens asiáticos- despencaram entre 50% e 90%.

A única exceção possível na triste tendência, disseram especialistas em preservação, é o aumento aparente dos lobos. Mas isto não é bem-vindo pelos pastores. Se os animais que servem de presas aos lobos se tornarem escassos, estes predadores poderão se tornar uma ameaça maior aos seus animais de criação, e há evidência de que isto já está acontecendo.

"O país está enfrentando uma crise de extinção extraordinária e não notada, ou pelo menos a ameaça de uma", disse Peter Zahler, diretor assistente para Ásia da Sociedade de Preservação da Vida Selvagem, em Nova York.

A sociedade, com financiamento do Banco Mundial, realizou um estudo abrangente sobre a vida selvagem da Mongólia e concluiu: "Há um acordo quase unânime entre caçadores, comerciantes e biólogos na Mongólia de que a manutenção do comércio de vida selvagem nos volumes informados é insustentável".

Em agosto, biólogos, especialistas internacionais em preservação e autoridades do governo mongol se reuniram aqui para analisar os resultados do estudo. Os participantes, informou a sociedade de preservação, citaram várias falhas nas leis e nas práticas da administração e aplicação da lei que contribuem para o problema. Eles também disseram que a corrupção existe "em todos os níveis de governo".

Apesar Constituição mongol declarar a vida selvagem como um recurso comum para as pessoas, a sociedade descobriu que o governo tem feito apenas esforços débeis para regular o comércio e controlar a caça.

Uma cópia preliminar do estudo, "A Estepe Silenciosa: a Crise de Comércio Ilegal da Vida Selvagem na Mongólia", vinha circulando recentemente. Ela notava que a independência do país da União Soviética, em 1990, "representou o abandono do esforço de um século da Mongólia de controlar o comércio de vida selvagem". Assim que ficou por conta própria, a economia do país "caiu pela metade, a inflação disparou, as rendas caíram para quase zero e as prateleiras das lojas ficaram vazias".

Diante das circunstâncias, prosseguiu o relatório, "virtualmente todos procuravam uma forma de sair desta repentina pobreza e, para muitos, a vida selvagem, agora desprotegida, fornecia a resposta". A caça para subsistência e renda aumentou. O comércio ilegal de carne e outros produtos de origem animal proliferaram.

"Países vizinhos, particularmente a China, se tornaram felizes receptores deste novo fluxo de produtos derivados da vida selvagem, consumindo milhões de animais a cada ano e gerando lucros não declarados", disse o relatório.

Os investigadores descobriram que mais de 250 mil mongóis, de uma população de 2,6 milhões, são caçadores ativos. O comércio de vida selvagem é conservadoramente estimado em mais de US$ 100 milhões por ano, sem incluir a venda de carne de caça e produtos medicinais tradicionais derivados de animais. Quase todo o comércio é ilegal.

James R. Wingard, um advogado de Montana que é especializado em lei de preservação, passou grande parte deste ano dirigindo o estudo. Ele e estudantes da Universidade Nacional da Mongólia realizaram mais de 3 mil entrevistas com caçadores, biólogos, autoridades do governo e comerciantes de vida selvagem. Com Zahler e outros especialistas, ele também examinou as pesquisas disponíveis sobre as populações de animais, sua reprodução e taxas de crescimento e a capacidade do ambiente de sustentar espécies individuais.

Certa manhã, Wingard parou em vários pontos de comércio de beira de estrada fora de Ulan Bator. Eles tinham grandes depósitos atrás de cercas, mas não escondiam a natureza de seu comércio. Em um local, uma placa com letras grandes listava como um menu: marmota, cabra, vaca, cavalo, veado e raposa.

"Eles sabem sobre nosso projeto", disse Wingard. "Eles são muito, muito francos quando conversam conosco. A caça dos animais pode ser ilegal, mas assim que o animal entra no mercado, não há virtualmente nenhum controle."

No ano passado, por exemplo, o governo impôs uma proibição à caça da marmota, um roedor com comportamento semelhante ao da marmota americana e antes abundante nas planícies e colinas. Mas a pele da marmota ainda aparece no mercado, chegando a US$ 10 cada. Os chineses, disse Wingard, misturam pele de marmota com de zibelina na produção do que vendem como casacos de zibelina.

Um censo das marmotas citado no relatório mostrou que os animais, que antes chegavam a 40 milhões, caíram para 20 milhões em 1990 e menos de 5 milhões em 2002, um declínio de 75% em apenas 12 anos.

As perspectivas são ainda mais alarmantes para outras espécies. Nos últimos cinco anos, a população do antílope saiga caiu de mais de 5 mil para menos de 800; o chifre do saiga é altamente procurado na China como remédio tradicional. A população do veado-vermelho caiu 92% em 18 anos, e a do argali, o carneiro montanhês selvagem com belos chifres espiralados, caiu 75% em 16 anos.

Um dos animais mais raros é o leopardo da neve, e sua sobrevivência está ameaçada. Apesar do comércio ser difícil de rastrear, os investigadores disseram que encontraram 17 peles frescas de leopardo em uma pequena cidade de fronteira na China, aparentemente vindas da Mongólia. O urso Gobi, parente do urso pardo e só existente em um canto do deserto aqui, pode estar além da salvação. Zahler disse que restam cerca de 25.

Na Conferência Internacional do Asno Selvagem Asiático, realizada em agosto no Parque Nacional de Hustai, na Mongólia, biólogos e especialistas em preservação expressaram preocupação com os números em queda de um animal conhecido aqui como khulan. Ela é uma das últimas três espécies de asnos ainda existentes na vida selvagem; as outras estão na África e em outro local na Ásia.

O khulan, menor do que um cavalo mas maior do que uma mula, costumava ser uma visão familiar. Ninguém sabe quão abundantes eles eram, mas um censo de 2003 os estimou em 20 mil. Os cientistas na conferência disseram que a caça e os recentes invernos rigorosos provavelmente causaram uma perda líquida de 10% ao ano.

Christian Walzer, um biólogo da Universidade de Viena, disse que a atitude do povo mongol, apesar de compreensível, é um obstáculo para regular a caça do khulan. "Eles se preocupam com a disputa pelo pasto que dão aos seus rebanhos", disse ele. "Se meu sustento depende das minhas ovelhas e seus pastos, eu não veria de forma favorável milhares de asnos selvagens aparecendo à minha porta."

Os criadores também caçam o khulan pela carne, e Wingard disse que os processadores de carne em Ulan Bator estavam prosperando com a fabricação de salsicha de carne de asno selvagem.

"Este é o país grande menos populoso do mundo", disse Wingard. "Então o grande problema não se trata de perda de hábitat ou fragmentação. É o comércio não regulamentado de vida selvagem."

Ele disse que o próprio tamanho do país torna irrealista um policiamento rígido da caça, e alguns dos guardas florestais estão envolvidos na caça ilegal. Ele sugeriu que as comunidades locais devem receber incentivos claros para apoiar o cumprimento das leis e proibições de caça. Da maior importância, ele disse, é a aprovação e aplicação por parte do governo de leis mais severas para coibir a demanda e controle de produtos de origem animal.

"Parece haver uma crescente vontade política de fazer algo a respeito", disse Wingard. "Se você puder controlar o comércio, você pode ter a África da Ásia aqui, no que se refere à vida selvagem, e então o turismo associado à vida selvagem, como na África." População recorre à caça ilegal para escapar da pobreza George El Khouri Andolfato

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