UOL Notícias Internacional
 

06/12/2005

Saddam volta a ser agressivo durante julgamento

The New York Times
Robert F. Worth

Em Bagdá, Iraque
Dois sobreviventes de um dos massacres de Saddam Hussein ofereceram testemunhos tocantes de tortura, execuções e detenções sob Saddam em um tribunal iraquiano na segunda-feira (05/12). A força dos testemunhos, porém, foi quase superada pela atitude de Saddam e dos outros réus que dominaram o tribunal com uma série de gritarias, diatribes e uma breve retirada de toda a equipe de defesa.

"Não me interrompa!" gritou Saddam irritadamente para o juiz, que estava tentando sem sucesso fazê-lo ater-se ao questionamento das testemunhas. Mais tarde, Saddam bateu na tribuna e no microfone, comparando-se a Mussolini e insistindo que era o governante de direito do Iraque.

As duas testemunhas foram as primeiras no julgamento de Saddam e de sete de seus associados, reiniciado na sexta-feira depois de uma semana de recesso. A primeira testemunha, Ahmad Hassan Muhammad, 38, conseguiu a atenção da corte com a descrição das cenas de tortura que tinha testemunhado depois de sua prisão em 1982, inclusive de um moedor de carne que tinha cabelo e sangue humano em um quartel da polícia militar.

Em pé a apenas 3 metros de Saddam ele chorou brevemente ao se lembrar de como seu irmão foi torturado com choques elétricos na frente de seu pai de 77 anos.

"Nós disciplinamos o Iraque por meio de vocês, povo de Dujail,", lembra-se Muhammad de ter ouvido uma autoridade dizendo durante sua prisão.

Durante grande parte do relato de Muhammad, Saddam e seus colegas réus ouviram em silêncio. Às vezes, Saddam parecia contemplativo, descansando a cabeça na palma da mão. Ele riu diversas vezes, inclusive durante a narrativa de Muhammad de sua tortura e detenção.

Em outros momentos, porém, o tribunal ficou caótico, com gritos e insultos que ameaçaram minar a gravidade do processo. Cedo, toda a equipe de defesa, inclusive Ramsey Clark, ex-advogado geral da união dos EUA, deixou a sala depois que o juiz recusou seu pedido de questionar oralmente a legitimidade da corte. Os réus não puderam deixar seus assentos, mas ficaram raivosos e barulhentos, argumentando e gritando com o juiz, que disse que os advogados podiam apresentar suas moções por escrito.

"Por que o senhor não nos executa de uma vez?" gritou Barzan Al Tikriti, meio-irmão de Saddam e réu. Mais tarde, ele se levantou e começou a gritar e a cuspir em um homem da galeria, que o teria ameaçado. O juiz pediu ordem, mas não ficou claro quem teria feito a ameaça. Durante o dia, os policiais não armados da corte pareciam relutar em disciplinar os réus quando se levantavam, gritavam ou interrompiam o juiz, as testemunhas ou seus próprios advogados.

Inicialmente, o time de defesa pareceu determinado em adiar o julgamento, tática que ficou clara nas duas sessões anteriores, dos dias 19 de outubro e 28 de novembro. No entanto, depois de um recesso, o juiz Rizgar Muhammad Amin cedeu e permitiu que os advogados apresentassem seus argumentos.

Clark falou primeiro e teve cinco minutos. Ele disse que os advogados de defesa não estavam recebendo proteção adequada e lembrou ao juiz que dois dos 13 membros da defesa foram assassinados desde o início do julgamento, no dia 19 de outubro. Ele chamou um dos advogados assassinados de "herói da verdade e da justiça". Clark disse que era impossível ter um julgamento justo se a segurança dos advogados não podia ser assegurada e protestou quando Amin interrompeu-o bruscamente quando seu tempo chegou ao fim.

Outro membro da equipe, Najeeb Al Nuaimi, teve exatamente 16 minutos para questionar a legitimidade do julgamento. Ele repetiu uma série de argumentos levantados no passado por membros da equipe legal de Saddam, dizendo que a lei internacional proibia a criação de um tribunal durante uma ocupação. Ele também apelou ao nacionalismo iraquiano, dizendo: "Acreditamos que essa terra se tornou mais americana do que árabe."

Isso provocou rápida reprovação de Amin, que disse: "A terra é iraquiana, não americana."

Só quando Muhammad prestou seu juramento que o foco passou para os eventos em questão no julgamento: a execução de mais de 140 homens e adolescentes na cidade xiita de Dujail, em 1982, depois de uma tentativa de assassinato contra Saddam.

Vestindo um paletó verde claro e camisa cor de rosa, Muhammad deixou claro desde o início que não seria intimidado pelos réus ali presentes, que foram os homens mais temidos no Iraque.

O tribunal ficou mais tranqüilo pouco depois de Muhammad começar sua narrativa. Agarrando a tribuna e olhando intensamente para o juiz, ele se lembrou de como ouviu tiros na suposta tentativa de assassinato de Saddam e como a cidade rapidamente ficou repleta de agentes armados. Ele deu nomes e datas de nascimento de amigos e parentes que foram presos e descreveu com detalhes angustiantes uma noite passada em um prédio da polícia militar com 350 outros presos, onde viu pessoas sendo torturadas com queimaduras e choques elétricos. Sete de seus 10 irmãos desapareceram ou foram mortos, disse ele, que tinha apenas 15 anos de idade na época, mas foi torturado e mantido preso por quase quatro anos.

Saddam interrompeu a narrativa de Muhammad ao menos uma vez, dizendo: "Não é essa nossa ética", depois de Muhammad descrever a tortura que vivenciou. Em certa altura, Muhammad disse que viu Al Trikiti em Dujail, vestindo jeans e carregando um rifle. Isso levou o acusado a dizer: "Você é um mentiroso."

Mas foi apenas quando os réus tiveram a oportunidade de questionar Muhammad que as trocas ficaram realmente acaloradas. Saddam e vários outros réus implicaram com uma série de detalhes no relato de Muhammad. Al Tikriti ficou irritado quando Muhammad lhe respondeu e chamou-o de "ninguém", pelo que foi reprovado pelo juiz.

Mas foi Saddam que mais saiu do tema, fazendo uma palestra ao juiz e chamando-o como lacaio dos americanos. Amin lutou para conter o ex-ditador, mas com pouco sucesso.

"Dê-me tempo, dê-me espaço", disse Saddam, com o dedo em riste para o juiz. "Não estou apenas me defendendo, mas a vocês todos." Ex-ditador iraquiano grita com o juiz e as testemunhas de acusação Deborah Weinberg

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