UOL Notícias Internacional
 

09/12/2005

Egípcios choram os mortos de eleição sangrenta

The New York Times
Michael Slackman*

Em Ezbet Al-Shams, Egito
Parece que a cidade inteira compareceu. Na quinta-feira (08/12), centenas de pessoas se aglomeraram em um estreito caminho do cemitério para expressar o pesar e a raiva no funeral de Moustafa Abdel Salam, um avô de 60 anos que foi baleado na cabeça e se transformou em uma nota fatal das eleições parlamentares do Egito.

Os três turnos da eleição terminaram na última quarta-feira, na fértil região agrícola do delta do Nilo, ao norte do Cairo. Mas o dia seguinte não foi para se discutir política. Para os moradores desta vila e outras pessoas da área, foi um dia para sepultar os mortos, rezar pelos feridos e praguejar contra o governo, que todos eles afirmam ser o responsável pelo ocorrido.

O último turno das eleições parlamentares do Egito terminou com oito pessoas mortas, um jovem com três balas alojadas no cérebro, dois outros homens também com ferimentos a tiros na cabeça, e dezenas de outros com marcas de balas de borracha, além de grãos de chumbo de espingarda espalhados pelo corpo.

Pais preocupados pediam para ver os feridos nos corredores do hospital da vizinha cidade de Zagazig.

Se eleições parlamentares deveriam ser um exercício de democracia, conforme prometeu o presidente Hosni Mubarak, elas serviram apenas para que muitos cidadãos se lembrassem do poder avassalador e ilimitado do Estado.

Depois que a proscrita Irmandade Muçulmana começou a criticar o monopólio de poder exercido pelo partido do governo, tropas de choque, policiais à paisana e civis armados a serviço da polícia começaram a bloquear as salas de votação, impedindo que os simpatizantes da irmandade votassem.

Os resultados da eleição demonstraram que o grupo muçulmano aumentou a sua representatividade no parlamento de 15 para 88 membros, enquanto o governista Partido Democrático Nacional reteve a sua vasta maioria de 454 cadeiras.

As autoridades também contaram os seus corpos. Ao final do dia, o número de mortos durante as eleições parlamentares havia aumentado, já que outros pacientes não resistiram aos ferimentos.

"Não há nada que possamos fazer", lamentou Hosni Abdel Salam, 55, que disse que jamais lhe ocorreu pedir ao governo que investigasse a morte do seu irmão Moustafa.

Ele disse que estava de pé ao lado de Moustafa, na noite de quarta-feira, último dia das eleições, quando viu a polícia disparar de um carro em movimento, matando o seu irmão e ferindo oito outras pessoas.

Autoridades egípcias insistem em dizer que não atiraram com munição de verdade, e que as forças de segurança só atuaram no sentido de garantir a segurança nas unidades de votação.

"Teve gente que foi baleada com munição real", disse um funcionário graduado do Ministério do Interior, que pediu que o seu nome não fosse divulgado, já que não tem autorização para falar publicamente. "Mas não foram as forças de segurança que atiraram contra essas pessoas, já que os soldados só podem usar gás lacrimogêneo e canhões de água, e, em casos extremos, balas de borracha. Eles não contam com munição real".

Mas várias testemunhas, incluindo diplomatas ocidentais, organizações de direitos humanos, médicos, os próprios feridos e moradores locais, dizem o contrário. Elas garantem ter visto policiais atirarem contra homens, mulheres e crianças com munição real, além de usarem gás lacrimogêneo e balas de borracha. As testemunhas mostraram, como prova, cartuchos deflagrados.

"Sabemos que foi o governo que atirou contra o povo", disse Muhammad Saad Muhammad Mehdi, 19, sentado ao lado do corpo inerte do seu primo, Muhammad Ahmed Muhammad, ligado a um respirador artificial no Hospital da Universidade de Zagazig.

Um médico levantou uma chapa de raios-x que mostrava três balas alojadas na parte posterior do cérebro de Muhammad. O médico disse que uma ambulância transportou Muhammad até o hospital, depois que ele foi atingido por disparos feitos pela polícia contra as multidões, a fim de tentar mantê-las distante das urnas.

O primo diz que Muhammad seguia do trabalho para casa.

No Hospital da Universidade de Zagazig, um amplo complexo que atende a toda a região, a maioria dos pacientes jaz sobre colchões finos, usando roupas comuns. Muhammad al-Sayed al-Hady, 16, senta-se de frente para a avó, em um leito hospitalar. Ele traz uma grande venda sobre o olho esquerdo, que foi atingido por uma bala de borracha disparada pela polícia. Segundo Muhammad, ele tentava ir para casa quando se deparou com um pelotão de policiais que tentava impedir que o povo chegasse aos centros de votação.

"A polícia disparou contra o povo", disse ele, em um sussurro. O seu pai, Abu Hamid, afirmou estar furioso, mas resignado, com o fato de nada poder fazer. "A eleição terminou e todos retornaram aos seus afazeres", disse ele. "Será que a polícia virá até aqui se desculpar? Várias pessoas morreram".

*Colaborou Mona el-Naggar, de Ezbet al-Shams (Egito). O último turno das eleições parlamentares do Egito terminou com oito pessoas mortas, um jovem com três balas alojadas no cérebro, dois outros homens também com ferimentos a tiros na cabeça Danilo Fonseca

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