UOL Notícias Internacional
 

09/12/2005

Estranhos na noite: óleo, miséria e promessas

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Ebocha, Nigéria
O sol tinha quase sumido, e começava outra happy hour melancólica no botequim One for the Road. Verônica, a proprietária, espalhou cadeiras e mesas de plástico, verificou seu estoque de cerveja gelada e esperou os clientes. Não havia necessidade de acender as luzes. Do outro lado da rua, dia e noite, queima uma chama tenebrosa e eterna.

"É o tempo todo assim", disse Verônica, gesticulando para as colunas, de mais de 60 m de altura de chamas verticais que brotam de um emaranhado de oleodutos na usina de exploração de petróleo do outro lado da rua. "Todos os dias, toda as noites. Não temos escuridão."

Michael Kamber/The New York Times 
Crianças brincam perto do fogo provocado pela queima permanente de gás em Ebocha

Por todo o Delta do Níger torres infernais de fogo lançam uma luz peculiar acastanhada no horizonte, tostando as comunidades que vivem em baixo delas e enviando colunas escuras de fumaça aos céus. As chamas são alimentadas pelo gás natural, extraído junto com o petróleo cru leve Bonny que torna a Nigéria o segunda nação mais rica da África, depois da África do Sul.

O gás é um produto altamente valioso, usado para movimentar indústrias em todo o mundo sedento de energia. A Nigéria tem uma das maiores reservas de gás do mundo, com mais de 17 trilhões de pés cúbicos. Se extraído e utilizado, o gás nigeriano poderia iluminar todo o continente por quase um milênio.

Durante décadas, porém, não houve forma de usá-lo, porque as empresas de petróleo e o governo nigeriano, que é sócio majoritário em todas as operações de petróleo do país, não tinham construído a infra-estrutura necessária para tanto. O mercado para o gás natural dentro da Nigéria é minúsculo e sua exportação requer investimentos de bilhões de dólares em infra-estrutura, na construção de gasodutos, por exemplo.

Então, por décadas, o gás foi simplesmente queimado. Em Ebocha, que abriga uma usina de petróleo da empresa italiana Agip, as chamas estão acesas desde o início dos anos 70, dizem os moradores. Com os anos, elas se tornaram um símbolo flamejante de como o governo e seus sócios na indústria sugaram as riquezas intermináveis da região. Eles deixaram os moradores sofrerem as conseqüências ambientais da extração do petróleo enquanto colhiam os poucos benefícios econômicos.

Isso deve mudar em breve. Em um esforço para eliminar a prática da queima, o governo nigeriano vai requerer que todos as chamas sejam apagadas até 2008, e as exportações de gás cresçam para 50% das atuais exportações de petróleo. Ativistas ambientais dizem que a queima custa caro à saúde das pessoas, plantas e animais.

As empresas petrolíferas estão construindo furiosamente instalações para coletar e embarcar o gás, em um esforço que custará US$ 15 bilhões (em torno de R$ 33 bilhões). A queima caiu em 40% desde seu pico, e o país está exportando 14 bilhões de metros cúbicos de gás, de acordo com o governo. O Banco Mundial está ajudando a construir um gasoduto que vai ligar a Nigéria a vários de seus vizinhos costeiros, criando um mercado mais amplo em uma região sem energia.

A pressão dos ecologistas para pôr fim à prática é alta. Neste mês a justiça nigeriana decidiu que a queima viola os direitos humanos das pessoas que moram em volta das plantas.

Quase todo mundo em Ebocha parece ansioso para ver as chamas apagadas, mas muitas pessoas acham difícil imaginar esse lugar sem elas. As chamas literalmente definem o lugar: seu nome significa lugar de luz.

Negócios como One for the Road, com sua geladeira de cerveja e sua falange de prostitutas, dependem dos funcionários da usina como clientes. As crianças correm iluminadas pelo brilho do fogo para coletar besouros que são fritos e comidos como especialidade local. Com o tempo, a cidade foi crescendo em direção à usina, e muitos moradores vieram de outras partes da Nigéria para abrir negócios aqui, perto dos funcionários que têm dinheiro para gastar. Entre os jovens, muitos passaram a vida toda debaixo das chamas.

No One for the Road, Lucky Ekberi e seus amigos reuniram-se em torno das mesas vazias. Ekberi, 24, disse que não se lembrava de uma época em que as noites não fossem iluminadas pelas chamas.

"Estão sempre lá", disse ele, o brilho alaranjado refletido em seus olhos. "Nunca se apagam. Deixam-nos doentes, e muitas vezes meus olhos doem. As plantas não crescem bem."

Como seus amigos, Ekberi diz que é "aplicante", um eufemismo para desempregado. Na verdade, há poucos empregos aqui. Apesar das amplas reservas de petróleo e gás, o delta do Níger talvez seja a região mais pobre de um país onde a maior parte das pessoas vive em extrema pobreza.

Ekberi e meia dúzia de amigos não tinham dinheiro para pagar refrigerantes, muito menos cerveja, então se sentaram incomodados na mesa vazia, conversando e secando a testa com lenços cobertos de fuligem.

Verônica, que não quis dar seu último nome, lançou olhares desconfiados para eles. Era um código pouco sutil para que soubessem que teriam que deixar a mesa quando os clientes pagantes da Agip aparecessem.

Segundo Ekberi, sua maior ambição, apesar do sofrimento de viver debaixo das chamas, era trabalhar na planta.

"Meu sonho é ter um emprego na Agip", disse ele. "Então poderia ter uma vida boa."

Outro jovem, Ajari Uchenna, 26, tem segundo grau completo. "Quero ser advogado", disse ele. Verônica riu. "Advogado!" exclamou. "Sim, advogado", respondeu Uchenna alto, olhando para ela. "Quero cursar a faculdade. Mas não tenho dinheiro para pagar as mensalidades ou o alojamento", acrescentou docemente. "Vivemos com isso", disse, gesticulando para as chamas, "mas não vemos nenhuma vantagem. É como se fôssemos estranhos aqui."

Ninguém disse nada por um tempo, e logo os funcionários da Agip começaram a chegar. Os desempregados saíram para a noite extremamente luminosa. Sem aproveitamento, gás produz chama eterna na Nigéria, até hoje Deborah Weinberg

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