UOL Notícias Internacional
 

09/12/2005

Tese do elo Iraque-Osama foi obtido por coerção

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
O governo Bush baseou uma afirmação crucial pré-guerra, sobre laços entre o Iraque e a rede terrorista Al Qaeda, de Osama Bin Laden, em declarações detalhadas feitas por um prisioneiro enquanto estava sob custódia egípcia, que posteriormente disse tê-las inventado para escapar de maus-tratos, segundo atuais e ex-funcionários do governo.

Os funcionários disseram que o prisioneiro, Ibn Al Shaykh Al Libi, forneceu os relatos mais específicos e elaborados sobre as ligações entre o Iraque e a Al Qaeda apenas após ter sido entregue secretamente ao Egito pelos Estados Unidos, em janeiro de 2002, em um processo conhecido como "rendition" (rendição, entrega).

A nova revelação fornece a primeira evidência pública de que má inteligência sobre o Iraque pode ter resultado, em parte, da confiança excessiva do governo em terceiros para a execução de interrogatórios de membros da Al Qaeda e outros detidos nos esforços de contra-terrorismo americanos. O governo Bush usou os relatos de Libi como base para suas alegações pré-guerra, agora refutadas, de que os laços entre o Iraque e a Al Qaeda incluíam treinamento em explosivos e armas químicas.

O fato de Libi ter retirado o que disse após a invasão americana no Iraque e que a inteligência baseada em seus comentários foi removida pela CIA, em março de 2004, já é de conhecimento público há mais de um ano. Mas as autoridades americanas não tinham reconhecido anteriormente que Libi tinha feito declarações falsas sob custódia estrangeira ou que Libi tinha dito que suas declarações foram feitas sob coerção.

Um funcionário do governo disse que parte da inteligência fornecida por Libi em suas declarações sobre a Al Qaeda eram precisas, e que as alegações de Libi de ter sofrido maus-tratos sob custódia egípcia não foram corroboradas.

Um relatório confidencial da Agência de Inteligência da Defesa (DIA), emitido em fevereiro de 2002, que expressava ceticismo quanto à credibilidade de Libi em questões ligadas ao Iraque e a Al Qaeda, foi baseado em parte no conhecimento de que Libi não estava mais sob custódia americana quando fez as declarações detalhadas, e que ele poderia ter sido submetido a maus-tratos, disseram os funcionários. Os funcionários disseram que a decisão da CIA de remover a inteligência baseada nas alegações de Libi foi tomada devido às suas alegações posteriores, a partir de janeiro de 2004, de que as tinha inventado para obter um melhor tratamento por parte de seus captores.

Na época de sua captura no Paquistão, no final de 2001, Libi, um líbio, era o mais alto líder da Al Qaeda sob custódia americana. Uma reportagem de 6 de novembro em The New York Times, citando um documento da DIA de fevereiro de 2002, disse que ele fez as afirmações sobre os laços entre o Iraque e a Al Qaeda envolvendo armas ilícitas enquanto estava sob custódia americana.

De fato, Libi ficou inicialmente sob custódia das forças armadas americanas no Afeganistão, e foi interrogado lá por oficiais da CIA, segundo um novo relato fornecido por atuais e ex-funcionários do governo. Mas apesar de sua alta posição, ele foi transferido para o Egito para maiores interrogatórios em janeiro de 2002, porque a Casa Branca ainda não tinha fornecido autorização detalhada para que a CIA o detivesse.

Apesar de ter feito algumas declarações sobre o Iraque e a Al Qaeda enquanto estava sob custódia americana, disseram os funcionários, foi só depois de ele ter sido entregue ao Egito que ele fez as afirmações mais específicas, que posteriormente foram usadas pelo governo Bush como base para suas alegações de que o Iraque treinou membros da Al Qaeda no uso de armas químicas e biológicas.

A partir de março de 2002, com a captura de um agente da Al Qaeda chamado Abu Zubaydah, a CIA adotou a prática de manter a custódia dos prisioneiros que ocupavam posições de comando, uma prática que se tornou o principal foco da recente controvérsia em relação à detenção de suspeitos de terrorismo.

A agência mantém atualmente sob custódia entre duas e três dezenas de suspeitos de terrorismo em prisões secretas ao redor do mundo. Relatos de que as prisões estão localizadas na Europa Oriental provocaram grande desconforto na Europa e perseguiram a secretária de Estado, Condoleezza Rice, durante sua visita ao continente nesta semana.

Libi foi devolvido à custódia americana em fevereiro de 2003, quando foi transferido para o centro de detenção americano em Guantánamo, Cuba, segundo atuais e ex-funcionários do governo. Ele retirou suas alegações sobre ligações entre o Iraque e a Al Qaeda em janeiro de 2004, e seu atual paradeiro é desconhecido. Um porta-voz da CIA se recusou na quinta-feira a comentar o caso de Libi.

Atuais e ex-funcionários do governo que concordaram em discutir o caso o fizeram sob a condição de anonimato, porque a maioria dos detalhes envolvendo o caso de Libi continuam confidenciais.

Durante o período em que esteve sob custódia egípcia, Libi fez parte de um grupo que os funcionários americanos descreveram como sendo de cerca de 150 prisioneiros, enviados pelos Estados Unidos de um país estrangeiro a outro desde os ataques de 11 de setembro de 2001, para fins de interrogatório.

Autoridades americanas incluindo Rice têm defendido a prática, dizendo que ela explora a língua e a perícia cultural dos aliados americanos, particularmente no Oriente Médio, e fornece uma ferramenta importante para o interrogatório. Elas disseram que os Estados Unidos executam as "renditions" apenas depois de obter garantias explícitas dos países de que os prisioneiros que receberiam não seriam torturados.

Evidência "crível"

Nabil Fahmy, o embaixador egípcio nos Estados Unidos, disse em uma entrevista por telefone, na quinta-feira, que não tinha conhecimento específico do caso de Libi. Fahmy reconheceu que alguns prisioneiros foram enviados ao Egito segundo um acordo mútuo entre Estados Unidos e Egito. "Nós realizamos interrogatórios baseados em nosso entendimento da cultura", disse Fahmy. "Nós não estamos no ramo de torturar ninguém."

Em declarações antes da guerra, e sem mencioná-lo pelo nome, o presidente Bush, o vice-presidente Dick Cheney, o então secretário de Estado, Colin L. Powell, e outras autoridades do governo citaram repetidas vezes a informação fornecida por Libi como evidência "crível" de que o Iraque estava treinando membros da Al Qaeda no uso de explosivos e armas ilícitas.

Entre as primeiras e mais proeminentes afirmações esteve uma de Bush, que disse em um importante discurso em Cincinnati, em outubro de 2002, que "nós descobrimos que o Iraque tem treinado membros da Al Qaeda na fabricação de bombas e venenos e gases".

A razão para o governo ter se apoiado tão fortemente nas declarações feitas por Libi há muito é motivo de discussão. O senador Carl Levin, de Michigan, o líder da bancada democrata no Comitê de Serviços Armados do Senado, tornou públicas no mês passado passagens não confidenciais do documento de fevereiro de 2002, que dizia que Libi provavelmente "estava enganando intencionalmente os interrogadores".

O documento mostrou que a DIA identificou Libi como provável mentiroso meses antes do governo Bush ter começado a usar suas declarações como base para suas alegações de ligação entre o Iraque e a Al Qaeda envolvendo armas ilícitas.

Levin tem pedido para a agência liberar quatro outros de seus relatórios de inteligência, três deles de fevereiro de 2002, para ver se também expressavam ceticismo quanto a credibilidade de Libi. Na quinta-feira, um porta-voz de Levin disse que ele não podia comentar as circunstâncias em torno da detenção de Libi porque o assunto era confidencial. Prisioneiro vítima de maus-tratos foi uma fonte "crível" para os EUA George El Khouri Andolfato

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