UOL Notícias Internacional
 

10/12/2005

Bolívia pode inclinar América mais para esquerda

The New York Times
Juan Forero

Em Morochata, Bolívia
Entre as muitas campanhas presidenciais chegando à reta final na América Latina, talvez esta seja a mais extraordinária e colorida. Evo Morales, líder de índios Aymara que se tornou congressista, foi visitar este vilarejo de montanha recentemente. Ele saiu do carro 1 km antes de chegar e entrou na cidade como herói conquistador.

Os anciãos do vilarejo homenagearam-no ao estilo boliviano, colocando uma saca pesada de batatas, rosas e vagens em torno de seu pescoço. Multidões de camponeses reuniram-se em torno dele, enquanto uma escolta cerimonial de líderes indígenas levava-o pelas ruas de pedra para um campo onde milhares de pessoas o esperavam. Ali, Morales fez o tipo de discurso de esquerda que cada vez mais ressoa entre os eleitores desencantados da América Latina, falando contra a privatização, o comércio livre e outras receitas econômicas patrocinadas pelos EUA.

"Se vencermos, não apenas Evo será presidente, mas também os quéchua e os aymara", disse Morales, referindo-se às duas maiores comunidades de índios da Bolívia. "Somos um risco para os ricos que saqueiam nossos recursos."

Morales, 46, ex-pastor de lhamas e plantador de coca, está com uma ligeira dianteira nas pesquisas de opinião da Bolívia para as eleições de 18 de dezembro. Ele oferece o que talvez seja a visão mais radical da América Latina, para o horror do governo Bush. Mas esse sentimento se estende para além da Bolívia. Começando no dia 11 de dezembro, no Chile, os eleitores em 11 países vão participar de uma série de eleições presidenciais no próximo ano, que podem levar a América Latina mais à esquerda do que já está.

Desde que um bombástico coronel do exército, Hugo Chávez, conquistou a presidência na Venezuela, em 1998, três quartos da América do Sul se voltaram para a esquerda, apesar de a maior parte dos países ser liderada por presidentes pragmáticos, como Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, e Néstor Kirchner, na Argentina.

Essa mudança decisiva tem boa chance de se disseminar para a Bolívia, Equador e, pela primeira vez nos últimos anos, ao norte do Canal do Panamá. Na América Central, os sandinistas, liderados por Daniel Ortega, estão trabalhando para reconquistar a presidência que perderam em 1990. Mais ao norte, no México, as pesquisas mostram que Andrés Manuel Lopez Obrador, populista de esquerda combativo, pode substituir o presidente amigo dos empresários, Vicente Fox, que não pode concorrer novamente.

Políticos tradicionais que defendem o mercado ainda podem vencer em todos esses países, mas as pesquisas mostram uma mudança geral para a esquerda. Essa tendência pode gerar políticas que se desviam fortemente dos antigos remédios econômicos americanos, como o comércio livre e a privatização, mais conhecidos como o Consenso de Washington.

"A esquerda está concorrendo ao poder político de forma muito prática. Há uma linha comum entre Lula, Kirchner, Chávez, Evo e a esquerda do Chile que é o desafio popular ao fundamentalismo de mercado do Consenso de Washington" disse Jim Shultz, diretor executivo do Centro de Democracia, na Bolívia.

A mudança não foi tão dramática quanto talvez quisessem líderes como Chávez, cujo antagonismo aberto aos EUA é raro. Presidentes como Lula e Tabaré Vazquez, no Uruguai, adotam as restrições fiscais aceitas em Wall Street.

Mesmo assim, a perspectiva de maior tendência para a esquerda pode assinalar um distanciamento amplo e popular do governo Bush, cujo foco no combate às drogas e na defesa do comércio regional livre não atraiu grande apoio.

Talvez o governo Bush fique satisfeito que seu mais importante e confiável aliado, o presidente Álvaro Uribe da Colômbia, provavelmente será reeleito em maio. No entanto, o mais fervoroso adversário de Washington, Chavez, também deve vencer o pleito no final do ano que vem.

Também é possível que a esquerda apresente forte desafio no Peru, amigo do mercado. Ali, um oficial do exército afastado que se comparou a Chávez e é ferozmente nacionalista, Ollanta Humala, está em segundo lugar nas pesquisas, depois de uma congressista conservadora.

Ninguém, porém, tem a história de Morales. Ele cresceu pobre, nas altas terras geladas. Quatro de seus seis irmãos morreram jovens, disse ele. Quando a indústria de mineração quebrou, a família se mudou para o centro de cultivo de coca da Bolívia, onde Morales tornou-se líder dos produtores que cultivam a folhagem verde brilhante que é o principal componente na fabricação da cocaína.

Isso fez dele um pária para os EUA, que patrocinaram o esforço do exército para erradicar as plantações. Mas sob a liderança de Morales, os cocaleros resistiram, paralisando o país com bloqueios nas estradas e participando de levantes que derrubaram dois presidentes em 20 meses.

Agora, Morales viaja pelas estradas montanhosas da Bolívia em uma campanha incansável, tocando música andina alta que o anuncia ("Se sente, se sente: Evo presidente").

"Uma coisa que poucos entendem é sua qualidade como político. Evo tem uma estrutura política tremenda, que construiu nos últimos 20 anos", disse Eduardo Gamarra, professor da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

Morales promete desviar a Bolívia do comércio livre e privatizações que marcaram a economia do país por uma geração, agradando os eleitores descontentes com as reformas de mercado que pouco fizeram para melhorar suas vidas.

Michael Shifter, que acompanha as campanhas latino-americanas para o grupo de Washington Diálogo Inter-Americano, disse: "Evo é a expressão dessa frustração, desse ressentimento e a busca por respostas".

Em entrevistas na campanha, Morales reclamou que as fronteiras abertas tinham trazido batatas baratas da Argentina. Ele ofereceu uma série de soluções, como empréstimos a microempresas e a criação de mais cooperativas. Ele disse que seu governo vai exigir maior compensação das corporações estrangeiras que desenvolverem as reservas de gás natural da Bolívia.

Morales parece gostar de falar dos EUA, observando que as críticas feitas a ele por autoridades americanas fizeram aumentar sua popularidade em um país cada vez mais nacionalista. Morales, que é próximo a Chávez e chama Fidel Castro de modelo, diz que rejeitará os princípios econômicos impostos pelos EUA e políticas como a erradicação da coca.

"As políticas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, que concentram capital em poucas mãos e têm a direção do governo dos Estados Unidos, não são uma solução", disse ele. "O desenvolvimento Ocidental é o desenvolvimento da morte".

Esse discurso encontra ouvidos de pessoas como Hermínio Lopez, líder no vilarejo de Piusilla. "Temos certeza de que ele não vai nos enganar, como todos os outros", disse ele. "Para nós, ter alguém como ele nos orgulha, pois 80% de nós somos pobres."

Morales sabe bem o que atrai seus partidários. Além da transformação econômica, ele tem propostas simbólicas, como mudar a bandeira da Bolívia para incluir elementos da bandeira indígena dos Andes.

"Esse momento não é apenas para Evo Morales", disse Morales à multidão aqui em Morochata. "É para todos nós." Aliado de Chávez, Evo Morales lidera a corrida para a presidência Deborah Weinberg

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