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10/12/2005

Caubóis de "Brokeback Mountain" acham o amor

The New York Times
Stephen Holden

Crítico do NYT
A fria solidão que permeia o western épico "Brokeback Mountain", de Ang Lee, é tão profunda quanto a pungente história do filme, sobre dois caubóis que se apaixonam quase por acaso. Ela é ambientada na paisagem acidentada onde seu idílio começa e termina. Estende-se pelos cantos mais remotos da vasta natureza em que eles convivem com coiotes, ursos e rebanhos de carneiros e ergue-se como um grito abafado pelo céu enorme que se estende atrás do horizonte.

EFE 
Heath Ledger e Jake Gyllenhaal vivem os caubóis apaixonados e oprimidos pela América profunda
Certa noite, quando a fogueira de seu acampamento morre e o frio mordente os faz aninhar-se juntos num saco de dormir, uma súbita fagulha entre Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se desenvolve numa chama sem fim.

O mesmo clima de agudo isolamento domina a prosa contida e tortuosa do conto de Annie Proulx, publicado pela primeira vez em "The New Yorker" em 1997, adaptado por Larry McMurtry e Diana Ossana. McMurtry entende de solidão. A dor embebeu seu romance e o roteiro de "A Última Sessão de Cinema", transformado em filme 34 anos atrás por Peter Bogdanovich.

Os encontros sexuais entre esses dois caubóis que nunca tinham escutado o termo "gay" (em 1963, quando a história começa, ainda era uma palavra-código em trânsito para a corrente dominante) são descritos por Proulx como "rápidos, duros, risonhos e arfantes".

É exatamente assim que Lee filma seu primeiro embate sexual (discretamente) nas sombras da pequena tenda. Na manhã seguinte, Ennis murmura: "Eu não sou bicha". E Jack responde: "Nem eu". Ainda assim, eles fazem de novo e de novo, à luz do sol e à noite. Às vezes suas paixões acumuladas explodem em jogos ferozes que não se diferenciam de uma luta.

Esse filme comovente e majestoso seria um marco somente por ser o primeiro filme de Hollywood a desmascarar a vertente homoerótica da cultura americana que Leslie Fiedler identificou em seu notório ensaio de 1948 na "Partisan Review", "Volte para a balsa, Huck, querido" [Come Back to the Raft Ag'in, Huck Honey].

Fiedler caracterizou a ligação entre Huckleberry Finn e Jim, um escravo fugido, como uma atração inconscientemente romântica compartilhada pelos dois homens de raças diferentes enquanto fogem do domínio mais repressor e civilizador das mulheres. Ele chegou a identificar essa ligação como um tema recorrente na literatura americana.

Na cultura popular, o freudianismo de Fiedler certamente poderia ser aplicado ao Cavaleiro Solitário e Tonto. Tirando-se a divisão étnica, também pode ser ampliado para incluir uma longa linha de westerns e "filmes de amigos", desde "Red River" a "Midnight Cowboy" e "Butch Cassidy and the Sundance Kid" : a pura ligação masculina que não ousa explorar seu lado obscuro.

O romance de 20 anos entre Ennis e Jack começa quando, no verão de 1963, eles são contratados por Joe Aguirre (Randy Quaid), um fazendeiro empedernido, para trabalhar como peões de ovelhas na montanha Brokeback, no interior selvagem de Wyoming (o filme foi feito em Alberta, nas Montanhas Rochosas canadenses). Sobrevivendo principalmente de feijões em lata e uísque, os dois caubóis desenvolvem uma amizade inebriada junto à fogueira.

Tão taciturno e tímido que engole as sílabas enquanto arranca as palavras da boca em rosnados relutantes, Ennis conta a Jack que foi criado por um irmão e uma irmã depois que seus pais morreram num acidente de carro; Jack, criado nos rodeios, é mais falante e lembra sua constante alienação do pai, um peão montador de touros.

Quando os sinais de uma nevasca precoce abreviam seu emprego de verão, Ennis e Jack seguem caminhos diferentes; a despedida de Ennis é um simples "Te vejo por aí". Mas os dois estão destroçados. Ennis casa-se com sua namorada, Alma (Michelle Williams), e eles têm duas filhas. Jack conhece e se casa com Lureen (Anne Hathaway), uma rainha de rodeio texana, com quem tem um filho, e entra para a empresa de equipamentos agrícolas do sogro.

Passam-se quatro anos antes que Jack, que está morando no Texas, mande um cartão-postal para Ennis, que ficou em Wyoming, dizendo que estará na região e gostaria de encontrá-lo. No instante em que eles se vêem, sua paixão suspensa irrompe em um abraço espontâneo. Alma vê tudo, e a partir daí seu rosto fica congelado de dor. Os amantes reunidos correm para um motel.

Assim começa um caso esporádico e atormentado em que os dois se encontram uma ou duas vezes por ano para excursões de pesca em que nenhum peixe é fisgado. Jack quer que eles abandonem seus casamentos e montem uma fazenda juntos. Mas Ennis, atormentado por uma memória da infância, quando seu pai o levou para ver o corpo mutilado de um fazendeiro, torturado e espancado até a morte por viver com outro homem, fica imobilizado de medo e vergonha.

Ledger e Gyllenhaal tornam fisicamente palpável essa história de amor angustiado. Ledger desaparece de maneira mágica e misteriosa sob a pele de seu personagem flexível e sinuoso. É um grande desempenho cinematográfico, tão bom quanto o melhor de Marlon Brando e Sean Penn. A dor e a decepção sentidas por Jack, que é mais delicado e mais assumido, registra-se constantemente nos olhos tristes e expectantes de Gyllenhaal, que parecem dólares de prata.

A segunda metade do filme abre a história de Proulx para acompanhar os casamentos dos dois, que desmoronam lentamente. Durante anos Alma sufoca sua dor até que um dia, depois de se divorciar de Ennis, ela sobe como se a estivesse afogando na própria bile. Enquanto Jack, desesperadamente frustrado, tem encontros clandestinos com outros homens, a jovem e vivaz Lureen de Hathaway lentamente se calcifica em uma concha robótica.

"Brokeback Mountain" não é exatamente a peça de época que alguns gostariam de imaginar. As portas rangentes do armário da América podem ter-se aberto o suficiente para que exista um circuito de rodeios gays. Mas não vamos nos iludir. Em grandes segmentos da sociedade americana, especialmente nos meios esportivos e militares, essas portas continuam seladas. O assassinato de Matthew Shepard [jovem homossexual assassinado em um crime de ódio, no Estado de Wyoming], afinal, aconteceu no território de "Brokeback".

Outro filme recente, "Jarhead" (em que Gyllenhaal faz um fuzileiro naval), sugere que qualquer comportamento masculino percebido como suave e feminino, em certos ambientes masculinos fechados, provoca abuso e violência, e que essa repressão da energia sexual é diretamente canalizada para a guerra.

Mas em última instância "Brokeback Mountain" não é sobre sexo (há muito pouco dele no filme), e sim sobre amor: o amor em que se tropeça, o amor abortado, o amor guardado com tristeza no coração.

Ou, como escreve Proulx, "O que Jack lembrava e desejava de uma maneira que não podia evitar nem compreender era o tempo daquele verão distante em Brokeback, quando Ennis chegou por trás dele e o agarrou, num abraço silencioso que satisfez uma fome compartilhada e sem sexo".

Um terno momento de alívio da solidão pode iluminar uma vida.

"BROKEBACK MOUNTAIN"

Direção de Ang Lee; roteiro de Larry McMurtry e Diana Ossana, baseado no conto de Annie Proulx; diretor de fotografia, Rodrigo Prieto; edição de Geraldine Peroni e Dylan Tichenor; música de Gustavo Santaolalla; designer de produção, Judy Becker; produzido por Ossana e James Schamus; distribuído pela Focus Features. Duração: 134 minutos.

Com Heath Ledger (Ennis Del Mar), Jake Gyllenhaal (Jack Twist), Linda Cardellini (Cassie), Anna Faris (Lashawn Malone), Anne Hathaway (Lureen Newsome), Michelle Williams (Alma), Randy Quaid (Joe Aguirre) e Kate Mara (Alma Jr.). Comovente, filme mostra que um momento de alívio da solidão ilumina vidas mergulhadas no armário da América dos rodeios Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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