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10/12/2005

Delegação dos EUA abandona a cúpula do clima

The New York Times
Andrew C. Revkin

Em Montreal, Canadá
Duas semanas de conversações em torno de um tratado sobre aquecimento global se aproximaram do fim nesta sexta-feira (09/12), com os atuais líderes e o possível futuro líder do mundo em emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa, os Estados Unidos e a China, ainda se recusando a adotar qualquer medida obrigatória para evitar uma mudança perigosa do clima.

O governo Bush foi fortemente criticado por grupos ambientalistas por ter abandonado a rodada de discussões informais logo após a meia-noite, que visavam encontrar novos meios para coibir gases além das medidas adotadas até agora.

O abandono por parte dos americanos foi amplamente visto aqui como o clímax de duas semanas de esforços americanos para impedir que qualquer nova iniciativa fosse discutida.

"Isto mostra quão disposto está o governo americano em dar as costas a um planeta saudável e às suas responsabilidades para com sua própria população", disse Jennifer Morgan, do Fundo Mundial da Vida Selvagem.

As conversações deixaram as principais fontes de emissões do mundo --os Estados Unidos, os grandes países em desenvolvimento e um bloco liderado pela Europa e pelo Japão-- divididas sobre como proceder de acordo com o tratado de 1992, sem restrições obrigatórias, e o Protocolo de Kyoto, um adendo que entrou em vigor neste ano.

O pacto de Kyoto estabelece restrições obrigatórias para as emissões de gases, mas que se aplicam apenas a cerca de três dúzias de países industrializados. Os Estados Unidos e a Austrália o rejeitaram.

Em Washington, Adam Ereli, um porta-voz do Departamento de Estado, defendeu a oposição americana a restrições obrigatórias de emissões de gases e, em vez disso, acentuou o trabalho de longo prazo para o desenvolvimento de tecnologias mais limpas.

"Se você quer falar sobre conscientização global, eu diria que há um país que está concentrado na ação, que está concentrado no diálogo, que está concentrado na cooperação, e que está concentrado em ajudar o mundo em desenvolvimento, e ele é os Estados Unidos", disse Ereli.

No início da tarde, o ex-presidente Bill Clinton fez um discurso arranjado às pressas para milhares de delegados, no qual esboçou uma rota para contornar o impasse, que incluiu repreensões sutis tanto aos que buscam metas concretas quanto ao governo Bush.

Clinton disse que os países devem dar menos atenção ao estabelecimento de metas globais para emissões e mais a iniciativas separadas para promover o avanço e disseminação de tecnologias que poderiam reduzir enormemente as emissões tanto nos países ricos quanto nos pobres.

Em um comentário claramente direcionado ao governo Bush, ele notou que os Estados Unidos adotaram uma abordagem preventiva no combate ao terrorismo. "Não há local mais importante no mundo para se aplicar o princípio da prevenção do que na área da mudança climática", disse ele, provocando fortes aplausos.

"Eu acho que é loucura brincarmos com o futuro de nossos filhos", disse Clinton. "Nós sabemos o que está acontecendo com o clima, nós temos um conjunto de conseqüências altamente previsíveis se continuarmos emitindo gases do efeito estufa na atmosfera, e sabemos que temos uma alternativa que nos levará a uma maior prosperidade."

Em uma declaração, Paula Dobriansky, a chefe da delegação americana, disse que eventos públicos como a apresentação de Clinton são "oportunidades úteis de ouvir uma ampla variedade de pontos de vista sobre a mudança climática global".

O encontro é o mais recente de uma série de sessões, em 17 anos, que visam tanto sensibilizar as potências industriais quanto os países em rápido desenvolvimento para a necessidade de redução das emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa, principalmente o dióxido de carbono, um subproduto inevitável da queima de carvão, petróleo e florestas.

Elas resultaram em dois acordos. O primeiro, a Convenção Quadro sobre Mudança Climática de 1992, foi aceito por quase todos os países do mundo, incluindo os Estados Unidos, mas não inclui metas obrigatórias e nunca define uma concentração inaceitavelmente perigosa de gases do efeito estufa.

O Protocolo de Kyoto, um adendo ao primeiro tratado negociado em 1997, entrou em vigor em fevereiro.

Ele foi assinado pelos Estados Unidos durante o governo Clinton. Mas, diante da forte oposição ao tratado no Senado, por não exigir ação de grandes países em desenvolvimento e poder ser oneroso, ele nunca foi ratificado.

O pacto de Kyoto foi rejeitado em 2001 pelo presidente Bush, apesar de ele não ter retirado a assinatura dos Estados Unidos.

Em um encontro em Montreal na sexta-feira, os países signatários do pacto de Kyoto chegaram perto de concordar em um plano para negociar um novo conjunto de metas e prazos para redução das emissões após a expiração de seus termos, em 2012.

Mas sob pressão de alguns países que já estão tendo dificuldades para cumprir as metas de Kyoto, os termos não incluíram datas específicas para a conclusão das negociações dos próximos passos, indicando em seu lugar que as partes "buscarão completar" o trabalho "o mais breve possível".

Em uma coletiva de imprensa, grupos ambientais tentaram encarar tal decisão como sinal positivo para os mercados emergentes de créditos obtidos com a redução dos gases do efeito estufa.

Alguns grupos e vários membros do Senado também disseram que há novos sinais significativos nas conversações de que os países em desenvolvimento estão começando a considerar a possibilidade de assumirem a responsabilidade para encontrar formas de obter um crescimento da economia sem um aumento das emissões.

Papua Nova Guiné, Costa Rica e Brasil propuseram formas de adicionar incentivos para a redução da destruição de florestas tropicais aos acordos climáticos.

A China concordou em maiores discussões dentro do tratado de 92 e do de Kyoto para encontrar formas de envolver os grandes países em desenvolvimento em projetos que possam combater a poluição que retém calor --desde que não envolvam limites obrigatórios.

Mas mesmo se eventuais novas conversações dentro do tratado de Kyoto levarem a novas metas, alguns cientistas disseram na sexta-feira que elas serão insuficientes para deter o aquecimento prejudicial sem ações mais amplas pelos maiores poluidores e aqueles que mais crescem.

Em uma declaração em Londres, lorde Martin Rees, o novo presidente da Sociedade Real da Grã-Bretanha, uma academia científica nacional independente, disse que as disputas em andamento entre os países ricos em torno de como reduzir as emissões de gases os estão impedindo de tomarem medidas concretas para realizar as reduções.

Ambientalistas insistiram que o processo de Kyoto eventualmente forçará outros países, particularmente os Estados Unidos, a agirem, devido à formação de um mercado de créditos obtidos com os cortes profundos na emissão de dióxido de carbono e outros gases.

"À medida que Kyoto se aprofundar e se ampliar, as empresas e indústrias americanas exercerão uma enorme pressão sobre a liderança dos Estados Unidos para entrar novamente no processo, em vez de ficarem excluídos de mercados do futuro", disse Alden Meyer, da União dos Cientistas Preocupados, um grupo privado que apoia a redução obrigatória da emissão de gases do efeito estufa.

Mas lobistas e grupos associados às empresas que são contra tais restrições zombaram da perspectiva de um mercado de carbono significativo.

O Centro Nacional para Pesquisa de Política Pública, um destes grupos, trabalhou nos corredores, distribuindo créditos de emissão de mentira.

Estas são as notas criadas de acordo com o sistema "reduza e comercialize" para controle de poluição, que permite que as empresas que reduzirem além do exigido possam vender a margem adicional a outros.

Neste caso, os créditos de mentira foram impressos em cinco línguas em rolos de papel higiênico. Mas os grupos ambientalistas não ficaram sentados olhando.

O Fundo Ambiental Nacional distribuiu almofadas de borracha que fazem barulho, estampadas com uma caricatura do presidente Bush e as palavras "Emissão Cumprida". Governo Bush rejeita o pacto de Kyoto; mas para o ex-presidente Clinton, país deveria agir preventivamente como faz contra o terror George El Khouri Andolfato

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