UOL Notícias Internacional
 

10/12/2005

Negros ricos criticam plano para Nova Orleans

The New York Times
Gary Rivlin

Em Baton Rouge, Louisiana
A Igreja Batista da Luz Verdadeira fica localizada em uma área carente desta cidade, mas nas noites de segunda-feira seu estacionamento fica cheio de BMWs, Mercedes e outros sedãs do ano que exibem o brilho de carros novos.

Desde setembro, centenas de moradores deslocados de New Orleans East, o bairro que era lar da maior concentração da elite negra da cidade, se reúnem lá para uma pequena amostra da camaradagem e comunidade de que tanto sentem falta. Mas os moradores --que incluem advogados, juizes e algumas poucas autoridades eleitas-- também estão ansiosamente se mobilizando para salvar seu canto baixo da cidade, que alguns planejadores argumentam que deve voltar a ser pântano.

Até agora, o grupo empregou sua força para obter a promessa de que a eletricidade será restabelecida no bairro em janeiro, em vez de aguardar até junho. Ele também acelerou a volta do fornecimento de água. Sem ambos, disseram muitos moradores, eles teriam que esperar ainda mais aqui mesmo se o bairro fosse liberado.

O prefeito de Nova Orleans, C. Ray Nagin, passou recentemente uma noite em uma reunião do grupo, ouvindo o desejo dos moradores de voltar para casa. Mas apesar dos recursos consideráveis do grupo, o plano que está ganhando forma para reconstruir a cidade coloca New Orleans East e seus 90 mil moradores, assim como o 9º Distrito e outros bairros inundados, como a última prioridade da cidade, enquanto esta luta para ser reconstruída. O Urban Land Institute, um grupo de planejamento que está orientando a cidade, recomendou que a cidade comece a reconstrução pelos bairros menos atingidos, o que provocou o ultraje dos moradores das zonas inundadas.

"Matará a psique negra se New Orleans East não for reconstruída", disse Talmadge Wall, uma designer de interiores que por 15 anos morou com seu marido e filhos em New Orleans East. "Pense no que significaria se a cidade conseguisse espantar tantos afro-americanos endinheirados, seus médicos, advogados e empresários bem-sucedidos e semelhantes. As pessoas que aspiram obter tal sucesso sentiriam que não teriam mais chance."

Na reunião da última segunda-feira, os organizadores distribuíram placas brancas, verdes e pretas de jardim que diziam: "Eu vou voltar para casa! Eu vou reconstruir!"

As reuniões, que começaram em meados de setembro, já atraíram até 1.000 pessoas. Os organizadores disseram que elas ajudaram a inspirar a formação de grupos de apoio semelhantes para moradores deslocados de Nova Orleans em cidades por todo o Sul.

"Há uma verdadeira solidão, um anseio real de se conectar com o que é familiar, que acho que todos sentem", disse Tangeyon Wall, que juntamente com sua irmã Talmadge, suas duas outras irmãs e uma prima formaram esta organização de bairro no exílio.

Outros bairros mais pobres receberam mais atenção desde a tempestade. Os 7º, 8º e 9º distritos, por exemplo, há décadas são lar da maioria dos trabalhadores afro-americanos da cidade: garçons, operários de construção e zeladores. New Orleans East, que mal existia nos anos 70, se tornou local da maioria dos empreendimentos imobiliários da cidade nos últimos 30 anos. Ela se tornou a próxima parada dos filhos dos operários que ascenderam socialmente após garantirem empregos profissionais mais bem remunerados.

"Era como se nossa comunidade não existisse"

Esta foi a trajetória de Alden J. McDonald Jr. McDonald, executivo-chefe do Liberty Bank and Trust, o maior banco de propriedade de negros em Nova Orleans, é filho de um garçom e cresceu no 7º Distrito. Em 1974, o jovem McDonald foi um pioneiro quando ele mudou sua família para New Orleans East. Doze anos depois, ele comprou uma casa maior lá, completa com piscina e sala de ginástica.

"New Orleans East representa a primeira vez na história de Nova Orleans que a comunidade afro-americana viu uma criação significativa de riqueza capaz de ser transferida para a próxima geração", disse McDonald, que já participou de várias reuniões na Luz Verdadeira.

A família Wall seguiu um caminhou parecido com o dos McDonalds. O pai das irmãs era um empreiteiro e a mãe delas uma professora escolar. As primeiras duas irmãs Wall se mudaram para New Orleans East em meados dos anos 80, a última no início dos anos 90.

Nos dias que se seguiram ao furacão Katrina, as irmãs Wall se abrigaram em uma série de quartos de seu novo lar temporário, o Microtel Inn and Suites na Interestadual 12, nos arredores de Baton Rouge, assistindo aos noticiários da televisão em vão em busca de informação sobre New Orleans East.

Uma comunidade predominantemente negra que era próspera, ao que parece, não se enquadrava na história como era contada na televisão. "Nunca falaram sobre nosso bairro", disse Tangeyon Wall. "Nunca, nenhuma vez. Nós tínhamos notícias do 9º Distrito, de Algiers, do Bairro Francês e do Centro, mas era como se nossa comunidade não existisse."

No Wal-Mart, Walgreens e outras lojas em Baton Rouge, as irmãs encontraram vizinhos que expressavam a mesma frustração. Isto levou as irmãs e uma prima delas, Robyn Braggs, a pregarem avisos nos motéis locais propondo uma reunião em 20 de setembro, um evento que atraiu 700 pessoas, elas disseram. A maioria, mas não todos, era de New Orleans East.

"A primeira reunião foi como um encontro", disse Tangeyon Wall.

A segunda reunião foi mais como um comício. Àquela altura, New Orleans East ainda estava fora dos limites até para os moradores. Mas um grupo de moradores do bairro decidiu desafiar as restrições e, logo depois, no final de setembro, seguiu em uma caravana de 75 carros para seu bairro. As autoridades municipais permitiram a passagem deles pelos bloqueios policiais.

Luta contra o plano de recuperação

"Tudo tinha aquele espírito de direitos civis e anos 60", disse Braggs, provocando risadas entre suas quatro primas. As cinco, juntamente com Wayne Johnson e Mack Slan, dois outros antigos moradores de New Orleans East acampados em Baton Rouge, formaram um comitê de sete pessoas que se reúne toda quarta-feira para estabelecer a agenda da semana seguinte.

"Nós não sabíamos no que estávamos nos metendo quando começamos", disse Slan, um empreiteiro com voz de pregador que despontou como mestre de cerimônia do grupo. "Mas estamos amadurecendo."

O foco a cada segunda-feira muda à medida que novas frustrações e preocupações ganham proeminência na vida dos refugiados. Na última segunda-feira, elas incluíam queixas sobre os ajustes dos seguros e os avisos de execução de hipoteca que alguns estão recebendo três meses depois da tempestade.

"Me permitam encorajá-los a não entrarem em pânico", disse Patricia G. Woods, que dirige uma empresa de imóveis e hipoteca em New Orleans East. Ela orientou as pessoas na reunião a responder com uma carta descrevendo os motivos para não terem feito seus pagamentos. "Façam com que chorem", disse Woods ao grupo.

Grande parte da reunião de segunda-feira se concentrou no relatório do Urban Land Institute, divulgado na segunda-feira após o Dia de Ação de Graças. "Ela dá menos valor ao nosso bairro do que a outras áreas", disse Terrel J. Broussard, um advogado que tomou a palavra para criticar o relatório. "Se não nos levantarmos para combater isto, eu não sei por que mais nos levantaríamos."

Os organizadores distribuíram cartões postais pré-impressos que esperam que os proprietários de New Orleans East enviem ao prefeito, pedindo respeitosamente que ele rejeite a recomendação do instituto. Eles também pediram aos presentes que divulgassem uma marcha até a Prefeitura de Nova Orleans, marcada para a manhã de sábado.

"Nós não podemos permitir que sejamos os últimos a voltar à cidade", disse uma moradora, Margaret Richard. O New Orleans East, área nobre da cidade, pode ser a última a ser reconstruída, de acordo com o plano apresentado pela prefeitura George El Khouri Andolfato

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