UOL Notícias Internacional
 

11/12/2005

Seca recorde incapacita a vida na Amazônia

The New York Times
Larry Rohter

em Manaquiri, Brasil
A bacia do Rio Amazonas, a maior floresta tropical do mundo, está enfrentando uma seca devastadora que, em algumas áreas, é a pior desde que registros começaram a ser realizados há um século. Ela evaporou lagoas inteiras e provocou incêndios florestais, matou peixes e plantações, encalhou barcos e isolou aldeões que viajavam neles, trouxe doenças e provocou um caos econômico.

Em meados de outubro, o governador do Estado do Amazonas, Eduardo Braga, decretou "estado de calamidade pública", que continua em vigor à medida que o cresce o impacto da seca sobre a economia, saúde pública e estoques de alimentos e combustível. Mas outros Estados brasileiros também foram seriamente afetados, assim como regiões amazônicas em países vizinhos como Peru, Bolívia e Colômbia.

Com centenas de assentamentos nas margens do rio isolados do mundo exterior, as Forças Armadas do Brasil montaram há três meses o que oficiais descreveram como a maior operação de ajuda humanitária que elas e os órgãos de defesa civil já executaram juntos. Quase 2 mil toneladas de alimentos e 30 toneladas de medicamentos já foram enviados por avião e helicóptero para as comunidades afetadas apenas no Estado do Amazonas, o maior da região.

"Já ocorreram anos em que tivemos um déficit de chuvas, mas nunca experimentamos quedas nos níveis das águas dos rios como a que estamos vendo em 2005", disse Everaldo Souza, um meteorologista do Sistema de Proteção da Amazônia, um órgão do governo brasileiro em Manaus, a principal cidade da região com nove Estados. "Ela é realmente sem precedente, e parece que apenas em dezembro ou janeiro é que as coisas voltarão ao normal, se voltarem."

Os cientistas disseram que a seca é provavelmente resultado da mesma elevação das temperaturas das águas na área tropical do Oceano Atlântico que provocou o furacão Katrina. Eles também temem que se o aquecimento global estiver envolvido, como alguns deles suspeitam, isto poderá ser o início de uma nova era de secas mais severas e mais freqüentes na região, que é responsável por quase um quarto da água doce do mundo.

"A Amazônia é uma espécie de situação canário em mina de carvão", disse Daniel C. Nepstad, um cientista sênior do Centro de Pesquisa Woods Hole, em Massachusetts, e do Instituto de Pesquisa Ecológica, em Belém.

"Nós não temos idéia do que fizemos ao realizarmos esta experiência mundial de bombear tantos gases responsáveis pelo efeito estufa na atmosfera", disse Nepstad. Ainda mais do que em outras partes do mundo, as pessoas que vivem na maior floresta tropical do mundo dependem de água para transporte, alimentação, remoção de esgoto -resumindo, quase tudo, de forma que a seca tem tocado quase todos os aspectos de suas vidas.

"Eu estou muito assustado", disse Jair Souto, o prefeito de uma pequena cidade, Manaquiri, que começou a ver sinais da seca em setembro. "Uma coisa sai errado e todo o sistema acompanha."

No Estado do Acre, na região Norte do Brasil, árvores secas viraram mechas e o número de incêndios florestais registrados triplicou para quase 1.500 em seu pico em setembro, em comparação ao ano anterior. A fumaça resultante, que pode ter intensificado a seca ao impedir a formação de nuvens de chuva, tem sido tão espessa em alguns dias que os moradores são obrigados a vestir máscaras para sair de casa.

No Rio Madeira, a principal artéria de comércio para produtos incluindo soja e óleo diesel, a navegação foi suspensa quando o nível das águas caiu para cerca de um décimo do nível da estação das chuvas. Agricultores assistiram suas plantações apodrecerem por não poderem enviá-las para o mercado, e as escolas foram fechadas porque os alunos não conseguem chegar até elas mesmo em barcos pequenos.

"O nível da água só chega a dois dedos de altura e o canal ficou bloqueado pelo mato que brotou, de forma que nem dá para remar a canoa", disse Rivaldo Castro Serrão, um agricultor de São Lázaro, uma aldeia no Rio Purus, no final de novembro, quando um helicóptero do Exército estava entregando suprimentos para as 41 famílias que vivem lá. "Com todos os peixes mortos e com a perda de nossas plantações de banana e melancia, nós estaríamos passando fome se não fosse pelos pacotes de comida que o governo manda."

Com a queda no nível das águas, áreas onde o rio normalmente fluía livremente acabaram se tornando poças estagnadas, um condição ideal para a proliferação de mosquitos. Como resultado, cresceram os casos de malária, sempre um problema na região, que tem estressado os recursos já limitados de saúde.

A grande maioria das comunidades depende do rio para transporte de dejetos humanos. Com o esgoto agora se acumulando perto dos assentamentos, o risco de cólera e outras doenças deverá aumentar juntamente com as águas, quando a estação das chuvas, que está começando em algumas partes da bacia, finalmente chegar com força.

Ao redor de cidades maiores como Manaquiri, os camponeses que fugiram da seca à procura de ajuda e que ainda não podem voltar para casa formaram favelas flutuantes. Horácio de Almeida Ramos, por exemplo, está encalhado em Manaquiri desde setembro, quando o nível do rio começou a cair até 50 centímetros por dia. Em outubro, os cardumes de peixes na lagoa começaram repentinamente a morrer, e em novembro, toda a lagoa tinha secado, deixando barcos encalhados e as comunidades ao seu redor isoladas.

Assim, Ramos vive, com sua esposa e seus sete filhos, com idades variando de 2 a 15 anos, na canoa que os trouxe aqui e agora está encalhada ao lado do cais. "Nós estamos presos aqui até que a lagoa fique novamente cheia, vivendo de caridade e qualquer trabalho que posso encontrar", disse ele com resignação. "Nós tivemos que abandonar todas nossas plantações, então não sei o que encontraremos quando conseguirmos voltar."

Enquanto a seca começa a ceder, os cientistas ainda estão debatendo o que a causou. A explicação mais aceita atribui a responsabilidade principal às temperaturas mais altas das águas nas regiões tropicais do Oceano Atlântico, o mesmo fenômeno que é responsabilizado pelo aumento do número de furacões em formação no Hemisfério Norte neste ano.

"Um Atlântico mais quente não só ajuda a dar mais energia aos furacões, como também ajuda na evaporação", disse Luiz Gylvan Meira, um especialista em clima do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. "Mas quando o ar se eleva sobre os oceanos em uma região, ele no final desce em algum lugar, a milhares de quilômetros de distância. Neste caso, ele desceu no oeste da Amazônia, bloqueando a formação de nuvens que trariam chuvas às cabeceiras dos rios que alimentam o Amazonas."

Se o aumento do desmatamento registrado na Amazônia nos últimos anos também contribuiu é menos claro. O governo brasileiro, freqüentemente criticado por não fazer o bastante para impedir a depredação causada por madeireiros e fazendeiros, argumenta que não há ligação direta, atribuindo a seca a forças externas maiores fora do controle do país.

"Há muitas coisas peculiares acontecendo em uma escala maior, como o tsunami, os furacões e agora esta seca sem precedente", disse Ciro Gomes, o ministro da Integração Nacional, em outubro, durante uma visita à região afetada. "Nós todos deveríamos estar preocupados e lançar um alerta ao mundo de que o gerenciamento irresponsável dos recursos naturais precisa acabar, quanto mais cedo melhor."

De fato, algumas das áreas atingidas mais duramente pela seca foram aquelas que mais fizeram para limitar ou controlar o desmatamento. Aqui no Amazonas, que é maior que a França, Alemanha, Grã-Bretanha e Itália combinadas, as autoridades disseram que 98% de sua floresta permanece intacta, mas que estão sofrendo mais que os Estados vizinhos onde o desmatamento tem sido grande.

Mas moradores mais velhos do rio, que lembram da época antes que o desmatamento teve início em grande escala, disseram que o corte de árvores ao longo dos rios e lagos ajudou no acumulo de sedimentos. Como resultado, eles disseram, canais de navegação que permaneciam abertos mesmo nas mais severas estações secas anteriores agora estão bloqueados.

Pesquisa também sugere que a própria floresta, e consequentemente todo o ecossistema, ficou mais vulnerável com a seca. Quando privada de uma ração adequada de chuva, as árvores extraem água do solo e refreiam o crescimento de seus troncos, que têm um papel vital na função de extrair quantidades imensas de dióxido de carbono do ar.

"Como as secas continuam registradas no solo por até quatro anos, a situação ainda é muito crítica e precária, e continuará assim", disse Nepstad. Onde há "florestas já no limite", ele acrescentou, a perspectiva de "uma alta mortalidade de árvores e maior suscetibilidade ao fogo" deve ser considerada.

Apesar dos cientistas concordarem que as temperaturas mais altas no Atlântico são responsáveis pela gravidade da seca deste ano, eles ainda estão buscando uma explicação para o fenômeno. Pode ser apenas uma perturbação isolada, ou pode ser mais permanente, talvez provocada pelas emissões de gases do efeito estufa.

"Sim, o efeito do aquecimento global explicaria o aumento das temperaturas no oceano, mas ninguém está dizendo isto ainda, porque ainda é muito cedo e não dispomos de dados suficientes", disse Carlos Nobre, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial brasileiro, que monitora os padrões climáticos na Amazônia. "Secas como esta são muito raras, mas uma conseqüência de um planeta mais quente seria sua ocorrência com maior freqüência, que é algo que temos que ficar atentos."

Os governos locais na Amazônia não dispõem do luxo de esperar pelos resultados de tal pesquisa, e temem que a seca deste ano possa não ser uma aberração. Então já começaram a adotar várias medidas, dentro do que seus orçamentos limitados permitem, para se prepararem para a recorrência.

Em uma região onde água sempre foi considerada abundante e garantida, programas estão em andamento para construção de poços e cisternas. Depósitos para estocar alimentos, medicamentos e combustível estão sendo construídos, antecipando a possibilidade das comunidades poderem novamente ficar isoladas no futuro próximo.

"Nós nos tornamos vítimas de um fenômeno que não provocamos", disse Braga, o governador do Amazonas. "O que está acontecendo não é culpa nossa. Nós não aquecemos a atmosfera ou derrubamos nossas árvores. Mas estamos pagando o preço com o sofrimento de nossa população." Região vive pior estiagem desde início dos registros pluviométricos George El Khouri Andolfato

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