UOL Notícias Internacional
 

13/12/2005

Zanzibar: sultões, temperos e praias brancas

The New York Times
Edward Wong

Em Zazibar, Tanzânia
Poucas viagens de ferry-boat no mundo podem reunir a riqueza de expectativas que surgem no trajeto de duas horas da verdejante costa da Tanzânia até Zanzibar. O nome por si só já representa há séculos uma promessa de esplendor. De pé no deque do navio, com o sol caindo no oeste, vi pescadores em catamarãs a remo nos pequenos braços de mar. Ao rumarmos para o mar aberto, as velas brancas dos "dhows" começaram a aparecer no horizonte, lembrando o tempo em que navios de madeira faziam regularmente as rotas entre a África e a Arábia.

Ed Wong/The New York Times 
Pôr-do-sol em Zanzibar; turismo nas ilhas islâmicas da costa africana está renascendo

Atracamos no porto de Stone Town, capital da ilha de Zanzibar (parte da qual é habitualmente chamada de ilhas das Especiarias). É uma cidade de becos labirínticos e palácios decadentes que lembram as antigas glórias dos impérios islâmicos, dando uma sensação mais árabe que africana.

Mulheres de capas longas pretas percorriam o cais. Uma chuva de monção havia caído, alagando o porto e fazendo todos correrem em busca de táxis. O turismo em Zanzibar e outras ilhas muçulmanas da costa da África oriental está tendo um renascimento, apesar da guerra no Iraque e dos bombardeios no Oriente Médio que afastam muitos viajantes ocidentais dos países islâmicos.

Stone Town, a primeira parada para a maioria dos viajantes aqui, mantém a atmosfera urbana das cidades muçulmanas, mas com uma interpretação do islã muito mais branda que em muitos lugares do Oriente Médio. Assim, enquanto os chamados das orações ecoam regularmente pelas ruas, os bares e restaurantes servem bebidas alcoólicas quase sem restrições.

Outras indulgências são abundantes: hotéis de luxo em antigas mansões de mercadores ricos, uma cozinha nativa que mergulha frutos do mar em ervas aromáticas e praias de areias brancas a algumas horas de carro da cidade. A melhor maneira de ver Stone Town ainda é caminhar, e de preferência perder-se.

Minha amiga Tini e eu fomos para a rua na manhã seguinte a nossa chegada ao hotel Tembo House, uma antiga casa de mercador de frente para o mar, e imediatamente fomos tomados pela opulência decadente da cidade. Das vielas estreitas, espiamos os pátios de antigas mansões, com a pintura em cores pastel descascada.

O que faz o encanto de Stone Town são os vestígios do império, todos amontoados e influenciados pela cultura suaíli nativa. Os persas foram dos primeiros estrangeiros a se estabelecer aqui, junto da população indígena. A ilha foi colonizada pelos portugueses a partir de 1503, e passou ao controle de Omã em 1698.

O sultão de Omã chegou a mudar a sede de seu reino para Zanzibar, o que resultou num renascimento artístico em Stone Town, com a influência árabe tornando-se muito mais clara nos projetos das mansões e palácios. No final do século 19, o Império Britânico anexou a ilha, mas esta recuperou a independência décadas depois, antes de passar ao governo da Tanzânia.

A sombra da península Arábica, do outro lado do oceano Índico, se projeta em toda parte em Stone Town. Percorremos as ruas tortuosas nos maravilhando com as grossas portas duplas de madeira, com batentes esculpidos com arabescos e grandes fechaduras de bronze. Um beco leva a outro, com ramificações partindo em todas as direções e muitas delas sem saída.

Havia grupos de homens de túnicas brancas e gorros na cabeça jogando sinuca nos cafés, e lojas lotadas que vendem de tudo, de temperos a televisores e longos rolos de tecidos muticolores. A sensação era a mesma de estar do Cairo, em Damasco ou Lahore --o projeto urbano de Zanzibar é o mesmo que marca todo o mundo islâmico.

Alguns dos edifícios mais barrocos ficam de frente para o mar, incluindo o antigo palácio dos sultões de Omã, que dão frente para o porto, e uma antiga mansão chamada Casa das Maravilhas, que tem um museu de cultura suaíli no piso térreo. Fizemos descobertas surpreendentes em toda parte, como o exterior art-nouveau cor-de-rosa do Cine Afrique, um cinema fechado no norte da cidade velha, numa rua que corre do porto para leste.

Uma caminhada nos levou a uma igreja anglicana que fica no local onde se vendiam os escravos trazidos do continente. Perto dela há um pequeno museu dedicado à memória do comércio escravo --duas celas emboloradas em uma torre lembram os espaços abarrotados onde os africanos acorrentados eram mantidos depois de terem marchado do interior do país até a costa, para ser jogados em navios.

À noite, a população se reúne nos Jardins Forodhani, uma faixa de parque à beira-mar em frente à Casa das Maravilhas. Antes do pôr-do-sol, cozinheiros começam a montar as grelhas e mesas ao longo da água e a colocar espetos de frutos do mar. Você pode passear pelas bancadas e escolher várias delícias que são grelhadas na sua frente, e ingeri-las com caldo de cana fresco.

Uma atração popular é uma "turnê de especiarias", oferecida por quase todas as agências de turismo de Stone Town. Nosso guia, Fuad, nos levou para ver a antiga casa do explorador e missionário britânico dr. David Livingstone e pelos morros suaves junto à cidade, onde se espalham grandes plantações de cardamomo, noz-moscada, canela, pimenta-preta e outras especiarias. Parando em uma plantação cheia de plantas tropicais luxuriantes, esfregamos um pouco de cravo entre os dedos e cheiramos.

"Essa é a plantação mais rentável de Zanzibar", disse Fuad. "Mas o governo paga tão pouco aos agricultores que muitas vezes eles tentam contrabandeá-lo para o Quênia." E nos levou a outra plantação, onde acabamos o passeio devorando cavalas cozidas num rico molho de coco e curry.

Mas é no litoral que Zanzibar ganha mais vida. Um dia pegamos uma minivan até uma praia em Kendwa, uma aldeia de pescadores no litoral noroeste da ilha, livre das multidões de mochileiros que freqüentam o resort de Nungwi. Não havia absolutamente nada a fazer além de preguiçar, comer peixe, ler e nadar nas águas turquesa.

A praia tinha três ou quatro pousadas com cabanas simples uma ao lado da outra, e ficamos numa --Kendwa Rocks-- famosa por ter festas malucas nas noites de lua cheia.

Em nossa última noite ali, vimos o sol em brasa mergulhar no oceano. O vento cresceu e acelerou os dhows pelas águas, com suas velas brancas salpicando a calma do entardecer.

PARA CHEGAR LÁ

Os cidadãos americanos que vão a Tanzânia e Zanzibar precisam de visto, que pode ser obtido por US$ 50 na Embaixada da República Unida da Tanzânia em Washington.

Vários ferry-boats partem diariamente de Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, para o porto de Stone Town. Todas as companhias têm escritórios em Dar-es-Salaam, e você deve procurar a melhor opção (há representantes no porto). A Azam Marine é uma das maiores e cobra cerca de US$ 35; a viagem leva duas horas ou menos.

A Air Tanzania (www.airtanzania.com) e a Precision Air(www.precisionairtz.com) têm vôos freqüentes entre Zanzibar e Dar-es-Salaam. A ZanAir (www.zanair.com) e a Coastal Aviation (www.coastal.cc/zanzibar.htm) são operadoras de charters que oferecem vôos regulares; às vezes os horários dependem do volume de passageiros. Os vôos duram cerca de 20 minutos e custam de US$ 60.

ONDE FICAR

Estes hotéis e restaurantes ficam em Stone Town, capital de Zanzibar.

Tembo House Hotel, Forodhani Street, (255) 24 2233005; www.tembohotel.com. Hospedagem bem indicada junto ao mar, numa antiga casa de mercador. Os quartos são espaçosos e decorados com móveis, ornamentos e antigüidades locais e orientais, com balcões de madeira dando para uma piscina no pátio. Quartos duplos a partir de 94.500 xelins tanzanianos, ou US$ 105, a cerca de 1.220 xelins por dólar, o ano inteiro.

O Africa House, Shangani, (255) 777 432340 (www.theafricahouse-zanzibar.com) tem 15 quartos. Um antigo clube inglês fundado durante o domínio britânico, este hotel é cheio de atmosfera. O terraço é um ponto de encontro para drinques antes do jantar, com vista para o pôr-do-sol no oceano Índico.

Quartos duplos a partir de US$ 65 na baixa temporada (abril a junho), US$ 125 na alta. The Zanzibar Serena Inn, (255) 242 233587 (www.serenahotels.com/zanzibar/inn/home.htm). Faz parte da elegante rede Serena, encontrada em toda a África oriental e sul da Ásia. O hotel fica próximo ao Africa House e é conhecido pelo luxo. Quartos duplos a partir de US$ 195 na baixa temporada; US$ 365 na alta.

ONDE COMER

The Tower Top Restaurant, na cobertura do Emerson and Green Hotel, 236 Hurumzi St. (www.emerson-green.com) (255) 747 423266, tem uma vista maravilhosa de Stone Town e do oceano. O ambiente é em estilo árabe, com mesas baixas e almofadas. O jantar custa US$ 25, fora bebidas.

Nos Jardins Forodhani, o mercado noturno ao ar livre junto ao mar, perto da Casa das Maravilhas, você escolhe os espetos de frutos do mar, que custam cerca de US$ 1 cada, e o cozinheiro prepara na sua frente. O Tembo Hotel e o Africa House oferecem restaurantes caros e respeitáveis. O Africa House tem um terraço panorâmico perfeito para drinques ao pôr-do-sol. Ilha faz uma ponte entre as culturas árabe, africana e européia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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