UOL Notícias Internacional
 

14/12/2005

Centros de detenção no Iraque serão vistoriados

The New York Times
John F. Burns

Em Bagdá, Iraque
Oficiais militares americanos inspecionarão centenas de centros de detenção e serão designados para comandos da polícia iraquiana e outras forças do Ministério do Interior, em uma tentativa para conter os abusos disseminados revelados por batidas a dois centros de detenção dirigidos por iraquianos em Bagdá, no mês passado, prometeu o embaixador americano nesta terça-feira (13/12).

O embaixador, Zalmay Khalilzad, disse em uma coletiva de imprensa que "mais de 100" dos 169 detidos encontrados pelos soldados americanos em 15 de novembro, em um bunker do Ministério do Interior no bairro de Jadriya, sofreram abusos, um número bem mais alto do que os americanos tinham revelado anteriormente.

Em uma segunda batida na semana passada, em outro centro de detenção improvisado dirigido por uma notória unidade da polícia, a Brigada Lobo, 26 dos 625 detidos espremidos no centro superlotado sofreram abusos, disse Khalilzad.

Ele não forneceu detalhes sobre os abusos.

Um funcionário iraquiano disse na terça-feira que alguns dos detidos mantidos pela Brigada Lobo foram "severamente" torturados. O funcionário insistiu no anonimato, citando uma repressão à informação sobre a mais recente batida, que ele e outros funcionários iraquianos disseram ter sido ordenada por autoridades iraquianas que estavam preocupadas com os efeitos que as recentes revelações de tortura poderiam ter nas eleições de quinta-feira, para a formação de um governo com mandato pleno de quatro anos.

A maioria das vítimas nos dois centros de detenção era sunita, já seriamente alienados no governo liderado pelos xiitas.

Um partido religioso xiita da aliança, apoiado pelo Irã e que é favorito a conquistar o maior bloco de cadeiras na eleição, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, ou Sciri, controla o Ministério do Interior no governo transitório que assumiu em maio. O ministro, Bayan Jabr, é um alto dirigente do Sciri. Ele já foi amplamente acusado pelos sunitas de infiltrar centenas de membros da ala paramilitar do Sciri, a Organização Badr, na força policial, e permitir que formassem esquadrões da morte e dirigissem centros de tortura. Jabr tem negado vigorosamente as acusações.

Apesar de Khalilzad ter dito na terça-feira que "os Estados Unidos não endossam" qualquer grupo na eleição, a política americana tem buscado atrair um grande número de eleitores sunitas para dar a eles uma grande voz e um incentivo para darem as costas à insurreição.

Os americanos, vistos por muito tempo como defensores dos xiitas e curdos, estão ansiosos para passar a mensagem de que estão determinados a também proteger os interesses dos sunitas.

A batida por soldados americanos e iraquianos na última quinta-feira, em um estábulo adaptado antes usado para manter os cavalos de corrida de propriedade de Odai Hussein, o filho mais velho do ditador derrubado, foi a primeira conduzida por uma unidade conjunta de investigação americana e iraquiana, que foi criada depois da batida inicial no bunker de Jadriya.

Ainda restando centenas de outros centros de detenção dirigidos por iraquianos a serem inspecionados, os oficiais americanos daqui parecem estar preocupados que a tortura de detidos, que foi uma característica enraizada dos anos de Saddam, tenha ressurgido em seus sucessores.

"Eu quero que o povo iraquiano saiba que estamos muito comprometidos na investigação de todas as outras instalações" dirigidas pelo Ministério do Interior, disse Khalilzad em uma coletiva de imprensa realizada em uma instalação fortificada conhecida como Zona Verde, o principal centro do poder americano no Iraque.

Ele disse ser "inaceitável a ocorrência deste tipo de abuso" e acrescentou que quer que os iraquianos saibam que oficias americanos estão sendo destacados para unidades da polícia e outras forças do Ministério do Interior, assim como "instituições de segurança" sob controle do ministério, "para que possam observar como as batidas são realizadas, como as pessoas são levadas sob custódia".

A Brigada Lobo já foi acusada por grupos de direitos humano iraquianos e sunitas de tortura e assassinato, a maioria contra sunitas caçados pelos comandos por ligações com a insurreição, que toma conta dos territórios sunitas, ou em vingança pelas torturas e assassinatos ocorridos durante os anos de Saddam no poder.

A brigada foi estabelecida neste ano sob comando de um oficial sunita que esteve preso durante o governo de Saddam, o general Adnan Thabit, e foi armada e financiada por um programa americano de US$ 11 bilhões para desenvolvimento das novas forças de segurança iraquianas.

Um funcionário do Ministério do Interior, que concordou em falar sobre a batida de quinta-feira, disse que o antigo estábulo ficava a pouco menos de um quilômetro da antiga sede do Ministério do Petróleo, no leste de Bagdá, que o Ministério do Interior está usando. O funcionário insistiu no anonimato, citando uma repressão à discussão dos detalhes dos abusos.

Segundo vários relatórios de direitos humanos, Odai Hussein dirigia seu próprio centro de tortura perto dali, no que costumava ser a sede o Comitê Olímpico Nacional, e usava o estábulo para os puro-sangue árabes que eram os vencedores freqüentes na principal pista de corrida daqui.

Em 9 de abril de 2003, enquanto os marines americanos entravam no leste de Bagdá, saqueadores levaram os cavalos dos estábulos. Os cavalos escaparam durante o pandemônio e nunca mais foram vistos.

O funcionário do Ministério do Interior disse que o estábulo foi transformado em centro de detenção no ano passado, depois que o Iraque reconquistou a soberania da autoridade de ocupação americana. Ele disse que era de amplo conhecimento no ministério que as salas antes usadas como dormitórios dos funcionários do estábulo foram usadas para tortura no ano passado.

"Tortura tem sido uma prática comum entre os comandos policiais", disse ele.

Os comentários de Khalilzad em uma coletiva de imprensa sugerem que importantes autoridades americanas aqui estão perdendo a paciência com o governo transitório do primeiro-ministro Ibrahim Al Jaafari devido às acusações de tortura.

Poucas horas depois dos soldados americanos terem tomado o controle do bunker de Jadriya no mês passado, Khalilzade o general George W. Casey do Exército, o comandante das forças americanas, visitaram Al Jaafari em seu quartel-general na Zona Verde e insistiram que uma investigação conjunta americana e iraquiana examinasse o que ocorreu no bunker.

Os americanos exigiram que uma segunda investigação se voltasse a todos os centros de detenção no Iraque e eliminasse os maus-tratos aos detidos.

Os resultados da investigação de Jadriya, cujo relatório deve ser entregue em duas semanas, não foram revelados. Mas o tom de impaciência de Khalilzad na terça-feira sugeriu que a tortura lá era pior do que os americanos imaginavam.

"Foi pior do que distribuir alguns tapas", disse o embaixador, se referindo aos relatórios que viu sobre 100 detidos que sofreram abusos.

Alguns funcionários iraquianos sugeriram que as técnicas em Jadriya e em outros centros de detenção dirigidos pelo Ministério do Interior incluíam a extração de unhas, a suspensão das vítimas de cabeça para baixo a partir de ganchos no teto por longos períodos, a aplicação de choques elétricos nos genitais e outras partes sensíveis do corpo e a pressão de cigarros acessos contra os corpos.

Khalilzad disse que a batida no segundo centro de detenção, na semana passada, envolvendo soldados americanos e autoridades da embaixada, assim como forças iraquianas, convenceu os americanos de que a inspeção de outros centros de detenção "deve ser acelerada".

Como os dois primeiros centros inspecionados por soldados americanos revelaram tortura, há probabilidade de que maiores abusos possam ser encontrados nas várias centenas de centros de detenção que acreditam existir em todo o Iraque.

A declaração do embaixador de que o comando americano decidiu designar oficiais para as unidades do Ministério do Interior sugere que a prática de ter oficiais americanos designados às unidades como a Brigada Lobo, comum quando foram estabelecidas no ano passado, foi abandonada à medida que acelerava a formação das forças iraquianas.

Apesar da política americana ser a de designar "equipes militares de transição" de até 10 homens para cada unidade do exército iraquiano do nível de brigada, os comandos policiais pareciam ter pouca supervisão americana nos últimos meses.

Khalilzad reconheceu isto quando disse que o plano de designar americanos para as unidades do Ministério do Interior "é um fenômeno novo".

Por que deixaram os comandos operarem sem supervisão tem sido uma grande pergunta entre os grupos de direitos iraquianos, que dizem que a Brigada Lobo, entre outras unidades especiais do Ministério do Interior, estabeleceu desde cedo uma reputação de brutalidade.

Quando a questão foi apresentada aos comandantes americanos, eles disseram que o uso eficaz de um número limitado de soldados americanos fez com que "escolhas difíceis" fossem feitas sobre onde a presença de unidades americanas era mais necessária.

Diferente de muitas unidades da polícia e do exército iraquianos, a Brigada Lobo estabeleceu desde cedo de que era capaz de funcionar eficazmente por conta própria, disseram os comandantes.

Mas muitos iraquianos, incluindo muitos sunitas, têm relutado em acreditar na insistência dos americanos de que não tinham evidência de tortura pelas unidades do Ministério do Interior antes da inspeção em Jadriya. Os críticos notaram que oficiais americanos uniformizados e outros americanos em trajes civis são uma presença intrometida no Palácio Adnan, o edifício de domo elevado na Zona Verde que já foi um retiro de Saddam, e onde a maioria das autoridades mais importantes do Ministério do Interior, incluindo Jabr, o ministro, atualmente trabalha.

Thabit, o fundador da Brigada Lobo, tem um escritório no mesmo corredor que o de Jabr, e oficiais e funcionários americanos circulam constantemente pelo andar. Objetivo é conter eventuais abusos de militares contra prisioneiros George El Khouri Andolfato

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