UOL Notícias Internacional
 

15/12/2005

Bush esclarece seus objetivos no Iraque, mas preocupações de longo prazo persistem

The New York Times
David E. Sanger

Em Washington
O presidente precisou de mil dias após determinar a invasão do Iraque para descrever em detalhe considerável sua estratégia para transformar o país e a região. Na quarta-feira (14/12), ele estabeleceu as metas que iam levar à "vitória completa". No entanto, o presidente explicou sua posição justo quando sua capacidade de controlar os eventos no Iraque pode estar prestes a se erodir, admitem alguns de seus assessores.

Joao Silva/The New York Times 
Soldados norte-americanos aumentam a vigilância em rodovia de Bagdá na véspera da eleição legislativa
Autoridades americanas acreditam que durante alguns meses após as eleições no Iraque, na quinta-feira, o embaixador americano no país, Zalmay Khalilzad, continuará sendo o poder crítico por trás das cenas no processo de criação de uma coalizão para dirigir o país.

Mas é o longo prazo --o ano seguinte-- que preocupa muitos assessores de Bush e militares americanos. Em meio a ataques insurgentes e sinais de guerra civil, o governo pode levar meses para se formar. As autoridades se perguntam se essa demora não vai distrair os iraquianos da tarefa de superar os obstáculos que Bush quer ver ultrapassados antes de começar a retirar as forças americanas, no próximo ano.

Bush descreveu sua posição em quatro discursos recentes e um documento de estratégia. Juntos, eles estabelecem exatamente a altura desses obstáculos: construir um novo governo forte o suficiente para que "terroristas e saddamistas não possam mais ameaçar a democracia iraquiana"; forte o suficiente para assegurar que os terroristas não possam usar o Iraque como local para planejar ataques contra os EUA; e contar com uma força de segurança iraquiana forte o suficiente para proteger seu povo.

Nos discursos, Bush foi cuidadosamente otimista. Ele admitiu, entretanto, que quase nada no Iraque saiu de acordo com os planos, nesses últimos 33 meses.

Quem participou das reuniões para informação do presidente na Sala de Crise nas últimas semanas diz que essa admissão de contratempos estava relacionada com o tom muito mais sombrio das reuniões. Os comandantes militares descreveram cenários que variaram da melhor hipóteses -diminuir a presença americana para cerca de 100.000 homens antes das eleições nos EUA em novembro- até mantê-los em números bem mais elevados se o novo parlamento se tornar um caos, se houver ameaça de guerra civil ou os líderes políticos forem assassinados.

"Ou construímos para nós mesmos uma rampa de decolagem ou uma caixa", disse uma autoridade envolvida nas discussões desta semana.

A preocupação dos EUA é que o caos acabe com o que resta do apoio do Congresso e do público à guerra, que Bush tentou reforçar com seus discursos e a repetição da palavra "vitória". (Empregou-a 10 vezes na quarta-feira, em um discurso de 31 minutos. No entanto, depois de seu primeiro discurso, na Academia Naval dos EUA, há duas semanas, a Casa Branca decidiu não pendurar o enorme cartaz que dizia "Plano de Vitória").

Os discursos foram um esforço para estancar o problema mais imediato de Bush quando voltou de uma viagem de oito dias à Ásia, no mês passado: uma rápida erosão do apoio à guerra nos EUA.

Quando viajou ao exterior, o presidente foi surpreendido repetidamente pelo debate. Quando o deputado John Murtha declarou que era "hora de trazer as tropas de volta", a Casa Branca reagiu: emitiu declaração alegando que Murtha, veterano e democrata, estava "endossando posições políticas de Michael Moore e das alas radicais liberais do partido."

Rapidamente ficou aparente, porém, que era preciso outra estratégia. "Todo dia, parecia que alguém entrava no quarto do presidente no hotel e dizia que ele tinha que responder seus críticos a 10.000 km", disse um assessor na viagem. "E não estava funcionando."

Então, em seus discursos, que estavam sendo preparados desde o verão, Bush finalmente procurou oferecer ao país uma análise mais realista das tarefas que enfrenta. Ele admitiu que os militares americanos não conseguiram armar as forças de segurança iraquianas, permitindo que a insurgência se disseminasse. Ele admitiu que o primeiro plano dos EUA de montar um governo iraquiano era lento demais. Ele admitiu que o esforço de reconstrução americano foi mal orientado, e que quase 30.000 iraquianos morreram como resultado da ação militar americana e da insurgência -um número que nunca tinha sido discutido.

"Ele reconheceu que houve problemas, que houve dificuldades, e isso é difícil de fazer", disse Robert Blackwill, um dos principais assessores de Bush no Iraque após a invasão. Essa foi uma grande mudança.

Mas as preocupações continuam. Uma alta autoridade da Casa Branca, insistindo no anonimato por não ser autorizada a falar sobre o Iraque, disse na semana passada que nas reuniões falou-se "sobre a possibilidade de que o novo governo iraquiano não veja vantagem em colocar suas forças de segurança na rua prontamente", caso acredite que o resultado será a partida do poder de fogo americano.

Algumas autoridades têm o temor oposto, que um novo governo iraquiano peça aos americanos para saírem rápido demais. Todos concordam, porém, que no próximo ano a capacidade dos EUA de formularem o campo de batalha iraquiano vai cair gradualmente. Se declinar por causa da formação do novo governo iraquiano -mesmo dividido e conturbado- o presidente poderá declarar, antes das eleições nos EUA, que a grande aposta de sua presidência deu resultado e que as tropas podem começar a voltar para casa.

Se declinar pela perda total de controle, porque grupos terroristas e insurgentes continuam agindo livremente ou porque foi mais difícil assumir compromissos do que organizar as eleições, então Bush talvez tenha que repetir no ano que vem o que fez nas duas últimas semanas: explicar o que deu errado e porque invadir o país acabou sendo muito mais fácil do que reconstruí-lo.
Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,32
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,56
    63.760,62
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host