UOL Notícias Internacional
 

16/12/2005

Iraquianos comparecem às urnas em grande número para eleger governo permanente

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá
Em um dia notável pela calma, milhões de iraquianos depositaram na quinta-feira (15/12) os seus votos em urnas espalhadas por todo este país devastado pela guerra, a fim de elegerem um parlamento para um mandato de quatro anos. Os sunitas parecem ter comparecido em grande número, e os guerrilheiros que resistem à ocupação do país realizaram poucos ataques.

Joao Silva/The New York Times 
Autoridades eleitorais esvaziam caixa com cédulas em Karada, na periferia de Bagdá; votação foi tranqüila
Autoridades iraquianas informaram que dados iniciais indicam que até 11 milhões de pessoas podem ter votado. Isso significaria um índice de comparecimento de 70% do eleitorado.

Como os iraquianos ainda faziam filas para votar nos centros eleitorais ao final da tarde, as autoridades ordenaram que as urnas permanecessem abertas por uma hora a mais do que o previsto. Nos bairros árabes sunitas do país, centenas de milhares de iraquianos que em janeiro boicotaram a eleição desta vez compareceram.

"Da vez passada, quem votava morria", explicou Abdul Jabbar Mahdi, um sunita que veio com a mulher e três filhos a um centro de votação no geralmente tenso bairro de Adhamiya, em Bagdá. "Se Deus quiser, esta eleição levará à paz".

O dia foi notavelmente pacífico, mesmo em áreas normalmente afligidas pela violência. Contando com mais de 375 mil soldados e policiais dos Estados Unidos e do Iraque espalhados pelo país, a comando norte-americano daqui anunciou que houve 52 ataques, o que é menos que o normal, sendo que 18 foram contra centros de votação. Em janeiro, quando os iraquianos elegeram um governo de transição, os insurgentes atacaram quase 300 vezes, e um terço dos ataques foi dirigido contra os locais de votação.

Em vilas e cidades, no sul xiita e no triângulo sunita, os iraquianos votaram em massa, alguns trazendo os filhos, outros empurrando cadeiras de rodas, e vários vestidos com as suas melhores roupas. Como as ruas do Iraque ficaram fechadas ao tráfego de veículos, vários iraquianos caminhavam após terem votado, observando a movimentação enquanto os filhos jogavam futebol. Em Kirkuk, um casamento foi celebrado em um centro de votações.

Os acontecimentos do dia pareceram ser um triunfo significante para as autoridades iraquianas e o governo Bush, que há muito afirma que o processo democrático começaria a afastar os sunitas comuns da insurgência, encorajando-os a apoiar o sucesso da democracia.

As autoridades iraquianas anunciaram que os resultados da eleição provavelmente só serão conhecidos daqui a vários dias, possivelmente não antes de janeiro.

Joao Silva/The New York Times 
Iraquiana deposita voto na urna, logo atrás das rosas, em Sadr City, perto da capital
Em Washington, o presidente Bush comemorou o sucesso da eleição. "Este é um grande passo à frente para atingirmos o nosso objetivo, que é termos um Iraque democrático, um país capaz de se sustentar e se defender, um país que será um aliado na guerra contra o terrorismo, e um país que será um exemplo poderoso para outras pessoas da região, quer morem no Irã ou na Síria", disse Bush.

Se a redução da violência durar além do dia da eleição, isso poderá fortalecer os planos do governo Bush de promover uma redução significativa do número de soldados norte-americanos no país no ano que vem. Mais de 2.100 soldados norte-americanos foram mortos e mais de 15 mil feridos desde a invasão realizada pelos Estados Unidos em março de 2003, o que motivou um declínio do apoio popular ao projeto norte-americano para o Iraque.

Embora ainda não se conheçam os resultados por província, as autoridades iraquianas atribuem o aumento do comparecimento dos eleitores desde janeiro ao ingresso dos sunitas no processo.

Até mesmo na província de Anbar, onde o comparecimento dos eleitores às urnas em janeiro foi de apenas 1,6%, os iraquianos fizeram fila para votar em cidades abaladas pela violência, como Ramadi, Fallujah, Hit e Husayba.

Durante pelo menos um dia, vários sunitas iraquianos pareceram ter sido conquistados pela idéia de que poderiam materializar os seus interesses por meio do voto, e não das armas. O comparecimento dos árabes sunitas foi incentivado pelas declarações feitas por vários grupos insurgentes, como o Exército Islâmico, que anunciaram que não atacariam os centros de votação. Nem mesmo uma declaração feita por vários grupos terroristas extremistas, como a Al Qaeda, denunciando a eleição, incluíram ameaças de ataques aos locais de votação.

A impressão que se teve foi de que os insurgentes não tentaram impedir a votação. A violência durante o dia, para um país onde os assassinatos em massa são uma ocorrência diária, foi relativamente reduzida. Um morteiro explodiu dentro da Zona Verde, a área protegida onde se situa o governo iraquiano e a Embaixada dos Estados Unidos, exatamente às 7h, quando as urnas eram abertas à votação.

Dois foguetes de 127 milímetros foram lançados contra o centro de Bagdá a aproximadamente 9h. Um deles explodiu, ferindo três civis. Um grupo de homens armados atacou um centro de votação na cidade de Kirkuk, no norte do país. Os insurgentes abriram fogo, matando dois policiais, e ferindo três funcionários da sessão eleitoral.

Comentários feitos por eleitores sunitas, embora em tom de brincadeira, sugeriam que um bom número deles se manteve afastado das urnas em janeiro não porque estivessem desencantados com o processo democrático, mas porque tinham medo de serem mortos.

De fato, a aparente confusão no seio da insurgência fez com que os diplomatas norte-americanos dissessem que tiveram sucesso em fomentar uma divisão entre os grupos mais violentos, como a Al Qaeda, e aqueles mais nacionalistas, que os norte-americanos e iraquianos acreditam que podem ser incorporados ao processo político.

Uma mudança notável foi a invisibilidade relativa da presença militar norte-americana, o que é uma outra indicação para o futuro. Até mesmo nos bairros iraquianos mais calmos, os soldados norte-americanos, com o seu armamento pesado e os veículos blindados, são motivo de preocupação e incômodo. Na quinta-feira, em Bagdá e outras cidades, as tropas norte-americanas mantiveram-se em geral por trás dos bastidores, enquanto os soldados iraquianos lideravam as operações.

A eleição, implementada pelos iraquianos com o auxílio dos norte-americanos e das Nações Unidas, foi, em um país em guerra, uma maravilha em termos de logística. Os iraquianos abriram 6.048 centros de votação, aos quais compareceram 300 mil observadores. Os funcionários eleitorais distribuíram cerca de cinco milhões de pôsteres informativos.

Os eleitores votaram para escolher os ocupantes dos 275 lugares no parlamento iraquiano, chamado de Conselho de Deputados, sendo que pelo menos um quarto das vagas foi reservada para mulheres. O parlamento escolherá um presidente, e aprovará o nome de um primeiro-ministro e do seu gabinete.

Os funcionários da justiça eleitoral começaram a contar os votos pouco depois do fechamento das urnas, às 18 h. Assim que terminarem esse trabalho, eles enviarão os votos apurados a Bagdá, onde outros funcionários somarão os resultados parciais.

O sistema eleitoral atualmente em vigor permitirá que o número de deputados sunitas seja proporcional à parcela sunita da população, que representa entre 15% e 20% do número total de habitantes do país. No atual governo, que foi escolhido segundo um sistema eleitoral diferente, os sunitas possuem um pequeno número de cadeiras.

As pesquisas eleitorais indicaram que a maioria dos eleitores iraquianos votou segundo linhas comunitárias: sunitas em sunitas, curdos em curdos, e xiitas em xiitas. Na eleição de janeiro, os candidatos xiitas obtiveram uma pequena maioria das cadeiras parlamentares, mas desta vez não deverão ter o mesmo desempenho.

De fato, nenhum partido deverá obter uma maioria absoluta. Os lideres de vários partidos políticos iraquianos disseram que os principais partidos daqui logo darão início a um longo período de negociações para a formação de um governo de coalizão.

Desta vez, a aliança xiita deverá obter a maior fatia dos votos, mas não a maioria absoluta. Vários eleitores entrevistados, incluindo muitos sunitas, disseram ter votado em Ayad Allawi, o xiita secular e ex-baathista que atraiu vários eleitores sunitas. Allawi espera amalgamar uma coalizão de partidos seculares - incluindo alguns curdos e sunitas - para desafiar a coalizão xiita dominante.

Em todo o Iraque, de Mosul e Ramadi a Barsa e Kirkuk, as filas de eleitores estavam repletas de empolgação, e da esperança de que um governo iraquiano permanente - qualquer que seja a sua composição - possa resultar em mudança para melhor.

Na cidade sulista de Basra, a votação foi pacífica, embora observadores tenham relatado que houve tentativas de intimação dos eleitores, para que estes votassem na Aliança Iraquiana Unida Xiita, conhecida pelo seu número de cédula eleitoral, 555.

No decorrer do dia, era possível ver policiais iraquianos pedindo aos eleitores que votassem na lista xiita 555. Eles utilizaram autofalantes instalados em suas viaturas, em uma flagrante violação das regras eleitorais. Grupos de jovens marcharam pelas ruas entoando músicas de apoio aos candidatos da aliança e aos aiatolás xiitas.

De fato, muitos eleitores pareciam entusiasmados com a aliança xiita, cujo símbolo eleitoral é uma vela. Alguns diziam ter votado no 555 porque a chapa conta com o apoio dos principais aiatolás xiitas. Isso não é bem verdade: o grande-aiatolá Ali Al-Sistani, o mais poderoso líder xiita do país, não apoiou nenhum candidato. Mas a falsa impressão se disseminou intensamente nas últimas semanas, por meio de pôsteres e de mensagens divulgadas nas mesquitas.

"Votarei nos candidatos da 555", disse Fátima Habib al Diyab, 81, enquanto caminhava rumo à escola primária Ouro Negro, a fim de depositar o seu voto na urna, às 7h30. "A vela está acesa e, se Deus quiser, estaremos com eles no paraíso".

Em Ramadi, a violenta capital da província de Anbar, a votação excedeu tanto as expectativas que vários centros de votação anunciaram que não contavam mais com urnas vazias antes do meio-dia.

Em determinado momento, à tarde, um centro de votação no norte da cidade foi obrigado a impedir a entrada de um grupo de eleitores, devido à falta de urnas. O grupo amarrou uma bandeira branca em um pedaço de pau e a carregou pela ponte que atravessa o Rio Eufrates, rumo ao centro de Ramadi, onde todos conseguiram votar.

*Colaboraram com reportagem John F. Burns, em Bagdá; Kirk Semple, em Ramadi; Robert Worth, em Basra; e Edward Wong, em Kirkuk Dia foi marcado por poucos ataques rebeldes; sunitas votam Danilo Fonseca

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