UOL Notícias Internacional
 

17/12/2005

Ganho eleitoral do Hamas desfere golpe no Fatah

The New York Times
Steven Erlanger

Em Jerusalém
O grupo militante islâmico Hamas conquistou grandes vitórias nas eleições locais palestinas, realizadas na última quinta-feira em algumas das maiores cidades da Cisjordânia, segundo resultados preliminares divulgados na sexta-feira (16/12).

A votação, seis semanas antes de eleições parlamentares cruciais, representou um golpe considerável à facção Fatah que tem dominado a Autoridade Palestina, mas que está fraturada desde a morte de Iasser Arafat.

A Cisjordânia há muito era considerada a base do Fatah, e os resultados de sexta-feira estão sendo vistos como uma ameaça real ao seu domínio. O Hamas conquistou a grande cidade do norte de Nablus, uma antiga fortaleza do Fatah, conquistando 13 das 15 cadeiras, assumiu o controle da cidade de Jenin por uma cadeira e venceu decisivamente na menor El Bireh, vizinha a Ramallah.

O Fatah parece ter mantido o controle de Ramallah, a capital administrativa da Cisjordânia, onde está baseada a maioria dos ministros da Autoridade Palestina, incluindo o quartel-general do sucessor de Arafat na presidência, Mahmoud Abbas. Mas mesmo em Ramallah, o Hamas conquistou cerca de 30% dos votos.

O voto dos indivíduos em questões locais freqüentemente diverge dos votos em questões mais amplas, mas as autoridades israelenses estão tratando o grau de apoio ao Hamas seriamente. Yuval Diskin, o chefe da agência de contra-inteligência Shin Bet, disse que a vitória do Hamas nas eleições em janeiro para o legislativo palestino -há muito considerada extremamente improvável- não pode ser descartada, segundo o jornal "Maariv".

Em Nablus, milhares de membros e simpatizantes do Hamas se reuniram no centro da cidade cantando "Deus é grande". A multidão carregava o novo prefeito da cidade, Adli Yaish, em seus ombros. Em Jenin, os manifestantes que marchavam seguravam no alto cópias do Alcorão e cantavam: "Para Jerusalém nós marchamos, mártires aos milhões!"

O Fatah se saiu melhor nas aldeias, e conquistou 35% de todas as 414 cadeiras em disputa na quinta-feira, em comparação aos 26% conquistados pelo Hamas. Mas Yasser Mansour, um porta-voz do Hamas na Cisjordânia, disse aos jornalistas que a votação "mostra que os palestinos apóiam reformas, resistência e lealdade ao sangue dos mártires" e será "uma grande motivação para o Hamas prosseguir no caminho".

Raed Nuyrat, chefe do corpo docente de ciência política da Universidade de Al Najah, em Nablus, atribuiu o que chamou de colapso do Fatah nestas eleições às suas recentes disputas e divisões, que ele disse que também afetarão as eleições em janeiro.

"Os números do Hamas em Nablus são surpreendentes", disse ele em uma entrevista. "Eles mostram um avanço significativo do Hamas em uma cidade que foi o quartel-general do Fatah. As divisões do Fatah nas eleições legislativas podem levar o Hamas ao poder."

Issam Abu Baker, o líder do Fatah em Nablus, disse à agência de notícias "The Associated Press": "Nós não pensamos em nenhum momento que o Hamas conquistaria tantos votos. A terra sacudiu sob nossos pés, e isto terá um efeito no Parlamento".

O Hamas tem feito progresso na Cisjordânia, tomando as cidades de Qalqilya e Belém em uma eleição anterior e indicando candidatos com formação superior e reputação de probidade e caridade.

Outras eleições na quinta-feira foram para chapas locais dominadas por clãs regionais, candidatos independentes e outras facções, incluindo a Frente Popular para a Libertação da Palestina.

A votação local, que ocorreu em cerca de 42 comunidades da Cisjordânia e Faixa de Gaza, era considerada um teste importante do sentimento antes das eleições parlamentares de 25 de janeiro, nas quais o Hamas está participando pela primeira vez contra um aparentemente dividido Fatah, cuja geração mais jovem apresentou uma chapa rival à de Abbas.

Mais eleições locais serão realizadas na Faixa de Gaza e em Hebron, a maior cidade da Cisjordânia.

Os jovens rebeldes do Fatah são liderados por Marwan Barghouti, que está cumprindo quatro penas de prisão perpétua mais 40 anos em uma prisão israelense pelo planejamento da morte de quatro israelenses e um monge grego.

Abbas colocou Barghouti, 46 anos, à frente da chapa oficial do Fatah em um esforço em vão para evitar a divisão, mas o líder preso decidiu formar sua própria chapa assim mesmo. Sua chapa, conhecida como O Futuro, contém outros políticos proeminentes do Fatah na faixa dos 40 anos, incluindo Muhammad Dahlan e Jibril Rajoub, poderosos em Gaza e na Cisjordânia, respectivamente.

A chapa de Barghouti é um desafio para homens na faixa dos 60 e 70 anos que foram exilados juntamente com Arafat e receberam posições proeminentes na nova Autoridade Palestina em meados dos anos 90. A geração mais jovem cresceu sob a ocupação israelenses, fala hebreu e já cumpriu pena em prisões israelenses, e sente que seus anciões não estão abrindo espaço para ela.

O Hamas dirige várias organizações educativas e de caridade financiadas por dinheiro do exterior, e também mantém um braço militar ativo, ao qual se recusa a desarmar. O Hamas, que está comprometido com a destruição de Israel e sua substituição por um Estado palestino, é considerado um grupo terrorista por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Européia.

O Hamas conta com 32% dos votos nas pesquisas de opinião para as eleições de janeiro, contra 50% do Fatah. Mas um forte resultado para o Hamas, sem contar uma improvável maioria de cadeiras, representaria um grande problema para Israel e para os Estados Unidos e provavelmente suspenderia qualquer tipo de negociação de paz, dando a Israel mais motivo para prosseguir com políticas unilaterais.

Menachem Klein, um cientista político da Universidade de Bar-Ilan, perto de Tel Aviv, disse na sexta-feira que Israel não pode ignorar uma vitória do Hamas. "Mas o Hamas também terá um problema", ele disse à rádio Israel. "Se o Hamas conquistar a maioria, ele terá que conduzir uma política com a qual não concorda e manter relações estrangeiras em uma base ideológica que rejeita formalmente. Ele terá que mudar. Isto não será de forma alguma simples."

Também na sexta-feira, um pai israelense de cinco, Yossi Shok, 35 anos, foi baleado e morto quando militantes palestinos dispararam contra seu carro perto de Hebron. Dois outros passageiros ficaram feridos. Raanan Gissin, um assessor do primeiro-ministro Ariel Sharon, condenou a morte e disse que Abbas e a Autoridade Palestina precisam reprimir "e deixar de fornecer santuário para estes terroristas".

Gissin disse que "os palestinos precisam realizar suas campanhas políticas com cédulas, não com balas, e não devem competir às custas de vidas israelenses". Israel está sendo pressionada a abrir as estradas ao tráfego palestino, ele disse, "e então nós sofremos ataques de terroristas contra israelenses que estão usando as estradas e somos forçados a tomar medidas para impedir os palestinos de usá-las".

O assessor disse que "não surpreende o Hamas ter vencido estas eleições", dado o fracasso de Abbas e da Autoridade Palestina em fornecer "manutenção básica da lei e controle do dia a dia dos palestinos". Grupo vem perdendo terreno desde a morte de Iasser Arafat George El Khouri Andolfato

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