UOL Notícias Internacional
 

18/12/2005

Caubóis gays, como os do filme "Brokeback Mountain", falam da vida no interior dos EUA

The New York Times
Guy Trebay

Em Lusk, Wyoming
Há silos de mísseis inseridos nas colinas em volta das planícies daqui, uma cidade a 225 quilômetros ao norte de Cheyenne com mais ovelhas do que pessoas, com apenas um semáforo, nenhum boliche ou cinema e uma população de pouco mais de 1.000 habitantes. Apesar dos silos, com seu conteúdo nuclear sinistro, estarem bem escondidos, a maioria dos moradores sabe onde encontrá-los. Os espaços abertos do Wyoming são assim, com espaço suficiente para esconder segredos abertos e bons motivos para fazê-lo.

David J. Swift/The New York Times 
Jade Beusque diz que o filme retrata bem sua experiência como gay e como caubói

Entre os segredos está a existência de caubóis gays, um termo que poderia soar para alguns como um paradoxismo antes do novo filme de Ang Lee, "Brokeback Mountain", que estreou no início deste mês em salas lotadas em Nova York e Los Angeles, recebeu sete indicações para o prêmio Globo de Ouro e críticas quase que universalmente elogiosas. Pelos padrões do filme rapsódico e conto desolador de Annie Proulx no qual é baseado, caubóis gays são tão anômalos que parecem personagens saídos de mito.

Mas sempre houve a suspeita de que o melindroso sujeito do leste de "The Virginian" de Owen Wister nutria sentimentos mais fortes do que o apropriado por seus companheiros rudes do Oeste, e que o pessoal do Rio Vermelho tinha mais do que um anseio à fogueira sempre que Joanne Dru não estava por perto. A luz que Ang Lee permite que entre no armário da casa rústica pode chocar aqueles que gostam de seus "homens de Marlboro" héteros.

Mas para os gays que tentam forjar suas vidas em um mundo onde a forma da masculinidade é estreita, e onde as momices "liberadas" dos menestréis homossexuais descritas com freqüência na televisão podem parecer distantes, a privação emocional e a violência brutal de "Brokeback Mountain" parecem um documentário.

"Aquela podia ser minha vida", disse Derrick Glover em uma tarde gelada na semana passada, se referindo ao filme, que ele assistiu em uma exibição especial uma semana antes em Jackson, Wyoming. Um rancheiro de 33 anos, Glover vem de uma família que trabalha a terra ao redor de Lusk há gerações. Seu pai ainda administra 300 cabeças de gado.

Sentado em uma mesa no esfumaçado Outpost Cafe, na Estrada 85, Glover contou a história de uma infância rural típica: pastando, marcando o gado, selecionando e fenando, cavalos se machucando em cercas e novilhos sendo arrancados à força dos corpos de suas mãe durante o parto. Todo verão Glover parte com seu irmão em um caminhão carregando seus dois cavalos quarto de milha para participar de competições de laço. "Eu nunca tive a intenção de deixar o estilo de vida de caubói", disse Glover. "Rancheiro é o que eu sou."

Mas no próximo mês Glover deixará Lusk e este lado dele para se mudar para as luzes brilhantes de Lander, Wyoming (6.864 habitantes). "Eu não queria mudar", disse Glover. Mas ele tem, ele explicou, caso queira viver sua vida abertamente. Como Jack Twist, o personagem fã de rodeio interpretado por Jake Gyllenhaal no filme, Derrick Glover é gay.

"Eles sempre definem isto como sair do armário, mas eu não me considero saindo do armário", explicou Glover. Há um motivo para isto, ele disse. "Onde eu vivo, você não pode realmente sair e ser você mesmo. Dois rapazes não podem sair como um casal e serem aceitos. Não era aceito no passado, ainda não é e acho que nunca será." O fato dele e alguns dos outros entrevistados para este artigo terem permitido que seus nomes fossem citados e serem fotografados envolve certo risco social e físico.

Mais chamativo em "Brokeback Mountain" não é uma história de amor anunciada como revolucionária, ou os beijos que são bem menos eróticos do que os trocados por Peter Finch e Murray Head em "Domingo Maldito", de John Schlesinger, em 1971.

O que é mais emocionalmente corrosivo em "Brokeback Mountain", alguns dizem, é o retrato plácido do filme da violência que sempre fez parte da experiência gay, seja um assassinato brutal de um gay lembrado em flashback na infância de Ennis del Mar, o caubói em conflito interpretado por Heath Ledger, ou a morte igualmente grotesca que ocorre no desfecho do filme. Igualmente assustador, talvez, seja o estrago emocional que sobra enchendo a paisagem majestosa, vidas rompidas pela intolerância e incompreensão que ficam enferrujando no fim de estradas de terra.

Se há um espírito não reconhecido pairando sobre "Brokeback Mountain" certamente é o de Matthew Shepard, o estudante de 21 anos da Universidade do Wyoming que foi atacado em 6 de outubro de 1998, do lado de fora de Laramie, agredido pela pistola de dois jovens agressores que conheceu em um bar, amarrado à uma cerca com o cadarço de seu próprio tênis e deixado para morrer no frio.

Os assassinos de Shepard, como se sabe, foram presos rapidamente. Eles foram julgados em um clima de teatro dos horrores, repleto com manifestantes antigay invocando fogo e enxofre no funeral de Shepard, e simpatizantes vestidos como anjos, que formavam uma barreira para bloquear a visão dos incitadores do ódio.

Os assassinos, Aaron McKinney e Russell Henderson, foram condenados por homicídio, rapto e, no caso de McKinney, roubo, o que lhes valeu duas sentenças de prisão perpétua. E a morte de Shepard logo assumiu as dimensões moral e simbólica de um martírio.

Sua história se tornou o impulso para o nascente movimento dos direitos gays em Wyoming e a base para um épico teatral, "The Laramie Project".

"A história de Shepard passa pela minha cabeça o tempo todo", disse Glover, puxando a aba de seu boné de fazendeiro. "As pessoas acham que nunca acontecerá de novo", ele acrescentou. "Pode acontecer. Vai acontecer."

Mas outros aqui insistem no contrário; eles dizem que a vida dos gays em Wyoming melhorou substancialmente em comparação à época descrita por Ang, do início dos anos 60 ao início dos anos 80. Eles apontam para a proeminência de grupos de direitos gays como Wyoming Equality, ao prefeito abertamente gay de Casper, Wyoming, e ao Link, o grupo de apoio a jovens gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.

"Melhorou em algumas formas, mas não em outras", disse Curtis Mork, o coordenador do Wyoming Equality, com sede na capital do Estado, Cheyenne. "Mas ser gay em Wyoming significa que você deve conhecer as pessoas antes de se revelar. Em San Francisco, se você levantar a mão e disser que é gay, uma centena de pessoas dirá: 'Eu também'. Aqui, a menos que as pessoas saibam que é seguro, você está basicamente sozinho. Você realmente não pode se expor."

Quando o personagem de Ledger afirma desafiadoramente, "Eu não sou bicha", após uma relação embriagada com o personagem de Gyllenhaal em sua tenda de pastor, parece claro que por mais que ele tema perder seu machismo de caubói, ele está igualmente assustado em abrir mão de sua segurança física assim que os dois voltam de Brokeback Mountain.

"Eu cresci com o mesmo tipo de medo e conflito", disse Ben Clark, um rancheiro de quarta geração de Jackson, na terça-feira. "Enquanto crescia, eu nunca sonhei que um caubói de verdade seria gay", acrescentou Clark. É uma crença compartilhada por muitos.

Na semana passada, Janice Crouse, membro do grupo conservador Mulheres Preocupadas com a América, acusou o filme de Lee de não apenas promover o "estilo de vida homossexual", mas de subverter um símbolo sagrado americano. "A grande agenda deles é tornar isto normal", disse Crouse para a agência de notícias "Reuters" após a estréia do filme, se referindo à homossexualidade. "Eles sabem que os caubóis têm esta imagem de macho, que caubóis são particularmente admirados por crianças. Caubóis são heróis."

Caubóis são de fato heróis admirados por crianças, mesmo por aquelas criadas para serem caubóis, mas com a sensação desconfortável de que o trabalho não estará aberto para elas. "Eu despertei para minha atração pelo mesmo sexo quando tinha 12 anos", disse Clark, que agora tem 42 anos. "Mas eu não sabia o que fazer a respeito. Eu fui criado em um mundo de rodeio, de pecuária -arrebanhando gado, colocando carga em burros, montando touros, trabalhando em campos de caça -mas sempre com a sensação de que tinha que esconder quem eu era porque caubóis nunca podiam ser gays."

A experiência foi "extremamente, extremamente solitária", disse Clark, um sentimento tão intenso que mais de uma vez contemplou o suicídio. "Eu não conseguia aceitar ser gay por causa dos estereótipos que me foram incutidos", ele explicou. "Gays eram emocionalmente fracos. Não eram homens de verdade. Eles eram como mulheres."

Como Ennis Del Mar e Jack Twist no filme, Clark saiu com mulheres por algum tempo, cedendo à pressão de ser "normal" apesar de, diferente deles, nunca ter se casado e nunca ter levado uma vida dupla. Há uma piada por aqui sobre como descobrir um gay na fronteira. A resposta cara-de-pau: "Procure a esposa e os filhos".

Felizmente, disse Clark, "eu nunca me casei, porque nunca quis ferir uma mulher desta forma". Mas há muito no filme com que podia se relacionar, disse Clark, parte do punhado de pessoas em Wyoming que assistiu ao filme, que ainda precisa encontrar um exibidor no Estado.

"Quando eu estava na faixa dos 20 anos, eu trabalhei em um campo de caça por três anos como arrebanhador", disse Clark. "Eu ouvia as piadas, mas guardava meus sentimentos. Um dos caçadores me perguntou: 'Você já foi casado?' Eu lhe disse que não. Ele me deu um olhar e disse: 'A maioria dos caras que não se casaram a esta altura está pensando em virar cabeleireiro'."

Clark não foi a única pessoa no Wyoming a apontar a predominância nas salas de bate-papo gay na Internet de homens que não são "bichas", mas que constituem uma população de "homens que têm relações sexuais com homens mas não se identificam como gay", uma designação a qual chegaram epidemiologistas lutando para encontrar formas de rastrear vetores de doenças sexualmente transmissíveis.

"Há provavelmente uma grande quantidade disto acontecendo", disse Joe Corrigan, um cabeleireiro de fala mansa de Chayenne que 15 anos atrás ajudou a fundar um acampamento de verão anual para gays na Floresta Nacional Medicine Bow. O "Rendezvous" -batizado segundo os encontros do século 19 de montanheses, caçadores de peles e outros excêntricos da fronteira- acabou se tornando uma instituição da vida gay do Wyoming.

"É divertido para as pessoas terem a oportunidade de ser elas mesmas e esquecer seus medos", disse Corrigan, acrescentando rapidamente que provavelmente há menos motivo do que antes para os gays daqui terem medo. "Matthew Shepard foi uma anomalia", disse ele. "Eu acho que assim que este filme estrear aqui, se estrear, ele abrirá os olhos de muita gente." Mas mesmo ativistas como Corrigan e seu parceiro, um funcionário público, reconhecem que a tolerância pode ser temporária e que gays podem ser bem-vindos no Wyoming, desde que não sejam gays ao estilo "Will & Grace".

"Eu sei que há muitos gays em Cheyenne, e isto é bastante aceito, de certa forma", disse Julie Tottingham, uma gerente da Corral West Ranchwear em Cheyenne, a maior fornecedora da cidade de produtos Wranglers, Tony Lamas e Stetsons. "Mas ao mesmo tempo, muitos de nossos clientes ficariam ofendidos se um sujeito gay estivesse aqui comprando", disse Tottingham. "Eles sentiriam que é um insulto ao modo de vida caubói."

Entre os moradores que tiveram a oportunidade de assistir o filme na exibição em Jackson estava Jade Beus, um ex-caubói assumidamente gay criado em um rancho de ovelhas em Soda Springs, Idaho. "Eu tive mais ou menos a mesma experiência", disse Beus, se referindo às dificuldades dos personagens. "A tentativa de encontrar auto-aceitação me levou a um lugar onde eu me considerava uma pessoa tão ruim que cheguei a apontar um revólver para o céu da minha boca."

Beus, que agora é dono de uma empresa de serviços de encanamento e aquecimento, não sabe ao certo o que o impediu de tirar a própria vida. "Mas algo clicou", disse ele. "Eu acredito fortemente em um poder superior e percebi que Ele me deu esta mão", disse Beus. "Eu sou homem. Não sou nada feminino. Outras pessoas podem me difamar pelo que sou, mas eu tomei uma decisão muito tempo atrás de que não vou passar pela vida me odiando por amar homens." George El Khouri Andolfato

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