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18/12/2005

Um improvável lançador de tendência que fez dos fones de ouvido um modo de vida

The New York Times
Larry Rohter

em São Paulo
No final dos anos 60, Andreas Pavel e seus amigos se reuniam regularmente em sua casa aqui para escutar discos, de Bach a Janis Joplin, e falar de política e filosofia. Em seus vôos de imaginação, eles se perguntavam por que não era possível levar sua música com eles onde quer que fossem.

Inspirado por estas conversas, Pavel inventou o aparelho conhecido atualmente como Walkman. Mas foram necessários mais de 25 anos enfrentando a Sony Corporation e outros nos tribunais e escritórios de patente em todo o mundo para que finalmente conquistasse o direito de dizer: Andreas Pavel inventou o aparelho de som pessoal portátil.

"Eu fiz meu primeiro pedido de patente de forma completamente inocente, achando que seria uma coisa fácil, cerca de 12 meses, para estabelecer minha propriedade e iniciar a produção", disse ele na casa onde primeiro concebeu o aparelho. "Eu nunca imaginei que terminaria consumindo tanto tempo e me afastando dos meus verdadeiros interesses na vida."

Em pessoa, Pavel parece um protagonista improvável em tal luta épica. Ele é um intelectual com um comportamento gentil, entusiástico, sério, mais interessado em idéias e artes do que em comércio, cosmopolita por natureza e criação.

Nascido na Alemanha, Pavel veio para o Brasil com 6 anos, quando seu pai foi recrutado para trabalhar no grupo industrial Matarazzo, na época o mais importante daqui. Sua mãe, Ninca Bordano, uma artista, tinha uma casa construída para a família com um estúdio para ela e um salão ao ar livre com equipamento de áudio de ponta, visando encontros literários e musicais.

Exceto por um período em meados dos anos 60 em que estudou filosofia em uma universidade alemã, Pavel, atualmente com 59 anos, passou sua infância e o início da idade adulta aqui na maior cidade da América do Sul, "para minha grande sorte", disse ele. Era uma época de agitação criativa e intelectual, culminando no movimento tropicalista, e ele adorou ter feito parte dele.

Quando a TV Cultura foi autorizada a entrar no ar, Pavel foi contratado para ser seu diretor de programação educativa. Depois que ele foi forçado a sair devido ao que disse ter sido pressão política, ele editou uma série de fascículos chamada "Os Pensadores" para a maior editora do Brasil em outro esforço para "contrabalançar a censura e a falta de informação" que predominava na época.

No final, o que levou Pavel de volta à Europa foi seu descontentamento com a ditadura militar que então estava no poder no Brasil. Mas naquela época ele já tinha inventado o dispositivo que inicialmente chamou de "stereobelt" (cinto aparelho de som), que ele via mais como uma forma de "adicionar uma trilha sonora à vida real" do que um item para ser vendido em massa.

"Oh, era puramente estética", disse ele quando perguntado sobre sua motivação para criar um aparelho de som pessoal portátil. "Levou anos para descobrir que eu tinha feito uma descoberta e que podia requisitar uma patente."

Pavel ainda lembra quando e onde estava na primeira vez em que testou sua invenção e que peça musical escolheu para seu equipamento.

Foi em fevereiro de 1972, ele estava na Suíça com sua namorada e a fita cassete que escutaram em seus fones de ouvido foi "Push Push", uma colaboração entre o flautista de jazz Herbie Mann e o guitarrista de blues-rock Duane Allman.

"Eu estava na mata em Saint Moritz, nas montanhas", ele lembrou. "Caia neve. Eu apertei o botão e de repente nós estávamos flutuando. Foi uma sensação incrível, perceber que eu agora dispunha dos meios para multiplicar o potencial estético de qualquer situação."

Ao longo dos anos seguintes, ele levou sua invenção para uma empresa de áudio atrás da outra -Grundig, Philips, Yamaha e ITT entre elas- para ver se havia interesse na fabricação de seu dispositivo. Mas em toda parte que ia, ele disse, ele encontrou rejeição ou ridículo.

"Eles todos disseram que não achavam que as pessoas seriam tão loucas para andar por aí com fones de ouvido, que isto era apenas uma bugiganga, uma bugiganga inútil de um maluco", disse ele.

Em Nova York, para onde se mudou em 1974, e depois em Milão, Itália, para onde se mudou em 1976, "as pessoas às vezes me olhavam no ônibus, e você podia ver que perguntavam a si mesmas, por que este maluco está andando por aí com fones de ouvido?"

Ignorando as portas batidas em sua cara, Pavel fez o pedido de patente em março de 1977 em Milão. Ao longo do ano e meio seguinte, ele fez o mesmo nos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão.

A Sony começou a vender o Walkman em 1979, e em 1980 começou a negociar com Pavel, que pedia uma taxa de royalties. A empresa concordou em 1986 em pagar uma taxa limitada cobrindo as vendas apenas na Alemanha e somente de uns poucos modelos.

Então, em 1989, ele deu início a novos procedimentos, desta vez em tribunais britânicos, que se arrastaram, devorando seus recursos financeiros limitados.

A certa altura, disse Pavel, ele devia a seu advogado centenas de milhares de dólares e estava sendo seguido por detetives particulares e processado pela Sony. "Eles conseguiram congelar todos meus ativos, eu não podia usar cheques ou cartões de crédito" e as perspectivas para ele eram sombrias.

Em 1996, o caso foi encerrado, deixando Pavel com mais de US$ 3 milhões em custas processuais para pagar.

Mas ele persistiu, alertando a Sony de que impetraria novos processos em todo país em que patenteou sua invenção, e em 2003, após outra rodada de negociações, a empresa concordou em um acordo fora do tribunal.

Pavel se recusou a dizer quanto a Sony foi obrigada a pagá-lo, citando uma cláusula de confidencialidade. Mas relatos na imprensa européia dizem que Pavel recebeu um acordo por danos na casa de oito dígitos baixos e que agora está recebendo royalties sobre as vendas de alguns modelos de Walkman.

Atualmente Pavel divide seu tempo entre a Itália e o Brasil, e novamente se considera basicamente um filósofo. Mas ele também está usando parte de seu dinheiro para desenvolver uma invenção que chama de "dreamkit" (kit de sonho), que ele descreve como um "dispositivo handheld, pessoal, multimídia, ampliador dos sentidos" e para satisfazer seu interesse insaciável por música.

Recentemente, ele estava promovendo a carreira de Altamiro Carrilho, um flautista que ele considera como o maior músico brasileiro vivo. Ele também está financiando um projeto que descreve como a discografia completa de todas as gravações já lançadas no Brasil.

Alguns de seus amigos sugeriram que ele pode ter um caso contra os fabricantes de players de mp3, argumentando que estes aparelhos são descendentes diretos do Walkman. Pavel disse que apesar de ter visto a afinidade, ele não está disposto a travar outra longa batalha legal.

"Eu conheci outros inventores em situações semelhantes e a maioria deles se tornou aquela história, que é a coisa mais trágica, triste e melancólica que pode acontecer", ele disse. "A pessoa se torna o processo, perde todo o interesse em outras coisas e lida apenas com o processo. Ninguém nunca disse que eu era obcecado. Eu mantive meus outros interesses vivos, na filosofia, música e literatura."

"Eu não tive tempo de ir atrás deles, mas agora eu reconquistei meu tempo", ele prosseguiu. "Então, não, não estou mais interessado em patentes e disputas legais ou qualquer coisa do gênero. Eu não quero ser reduzido ao rótulo de ser o inventor do Walkman." George El Khouri Andolfato

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