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20/12/2005

Imagem de dois homens abraçados em tumba egípcia divide estudiosos

The New York Times
John Noble Wilford

Em Nova York
Quando egiptólogos entraram na tumba pela primeira vez, há mais de quatro décadas, eles esperavam ser surpreendidos. Exploradores de tumbas recém-descobertas sempre esperam isso, e daquela vez eles não ficaram decepcionados --eles ficaram confusos. Era 1964, nos arredores do Cairo, perto da famosa Pirâmide Step, na necrópole de Saqqara e a uma curta distância de carro da Esfinge e das pirâmides de Gizé. A tumba recém-descoberta não continha nenhuma múmia real ou jóias deslumbrantes. Mas os exploradores ficaram imóveis quando a luz de suas lanternas de querosene iluminaram a arte na parede na câmara mais sagrada.

Cortesia do Dr. Violaine Chauvet via The New York Times 
Novo estudo diz que eles eram gêmeos siameses, mas, se um homem e uma mulher estivessem nesta posição, não haveria dúvidas de que eram um casal
Lá, gravada na pedra, estavam as imagens de dois homens abraçados. Seus nomes estavam inscritos acima: Niankhkhnum e Khnumhotep. Apesar de não serem da nobreza, eles eram altamente estimados no palácio como manicures chefes do rei, por volta de 2380 a 2320 a.C., em um período conhecido como quinta dinastia do Antigo Reinado. Cuidar da aparência do rei era uma ocupação honrada.

Os arqueólogos ficaram espantados. Era extremamente raro no antigo Egito uma tumba da elite ser compartilhada por dois homens de posição igual. A prática habitual era tais templos mortuários serem o local de descanso de um homem proeminente, sua esposa e filhos.

E era quase incomum um casal de mesmo sexo ser retratado em um abraço. Em outras cenas, eles também eram mostrados de mãos dadas e tocando os narizes, a forma preferida de beijo no antigo Egito.

Como os estudiosos interpretaram tal relação íntima?

Ao longo dos anos, a arte da parede da tumba tem inspirado uma especulação considerável. Uma interpretação é a de que os dois homens eram irmãos, provavelmente gêmeos idênticos, e que esta podia ser a descrição mais antiga conhecida de gêmeos.

Outra é de que os homens mantinham um relacionamento homossexual, uma visão mais recente que tem ganhado apoio entre os defensores gays.

Agora, um egiptólogo da Universidade de Nova York entrou no debate com uma terceira interpretação. Ele reuniu evidências circunstanciais de que os dois homens podiam ser gêmeos unidos, popularmente conhecidos como gêmeos siameses. O especialista, David O'Connor, um professor de arte antiga egípcia do Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova York, disse: "Minha sugestão é de que Niankhkhnum e Khnumhotep eram de fato gêmeos, mas de um tipo muito especial. Eles eram gêmeos siameses e era tal peculiaridade física que provocou tantas descrições deles de mãos dadas ou abraçados em sua tumba.

O'Connor elaborou sua hipótese em uma recente palestra e em uma entrevista em Nova York. Ele descreverá mais profundamente e defenderá sua idéia em uma conferência, "Sexo e Gênero no Antigo Egito", nesta semana na Universidade de Gales, em Swansea.

A oposição à sua hipótese promete ser vigorosa. A maioria dos egiptólogos aceita a interpretação de gêmeos normais defendida mais proeminentemente por John Baines, um arqueólogo da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

"Baines apresenta um argumento muito persuasivo", reconheceu O'Connor.

E ele notou que a hipótese do casal gay se tornou uma idéia popular na última década. Um importante defensor é Greg Reeder, um estudioso independente de San Francisco e um editor colaborador da "KMT", uma revista de arte e história egípcia. A maioria das referências à tumba no Google, disseram os arqueólogos, envolve a idéia homossexual.

O argumento gay se apóia na analogia com descrições de casais heterossexuais casados na arte egípcia, que foi sugerida pela primeira vez por Nadine Cherpion, um arqueóloga francesa.

Como os abraços de casais heterossexuais nas artes de tumba transmitem um relacionamento erótico e sexual implícito, e talvez pela crença de sua continuidade no além, Reeder e seus aliados argumentam que cenas semelhantes envolvendo os dois homens têm o mesmo significado, sendo assim presumivelmente parceiros gays.

Chamando a atenção para a cena mais íntima dos dois homens abraçados, Reeder disse: "Eles estão tão próximos aqui que não apenas estão face a face e nariz a nariz, mas tão próximos que os nós de seus cintos estão se tocando, ligando seus troncos inferiores. Se esta cena fosse composta de um casal de homem e mulher em vez do casal de mesmo sexo que temos aqui, haveria pouca dúvida em relação ao que estamos vendo".

Em uma entrevista na semana passada, Reeder disse que a nova interpretação de O'Connor é fascinante, mas acrescentou: "É uma teoria quase extrema e desnecessária".

Baines, em uma mensagem por e-mail de Oxford, disse que se aterá à sua própria interpretação, "porque me parece exigir a menor quantidade de excepcionalidades e se encaixa razoavelmente bem em outros padrões".

Quanto às implicações sexuais que o abraço apresenta, Baines sugeriu que podem significar "papéis de ligação social e emocional" de dois homens que provavelmente eram gêmeos.

Ou poderia simbolizar "proteção e identificação estreita e reciprocidade" entre os dois.

A arte egípcia antiga, disseram os especialistas, nem sempre visa ser interpretada literalmente.

James Allen, um egiptólogo do Museu Metropolitano de Arte que não está envolvido na pesquisa, considerou a hipótese dos gêmeos provável e a idéia de gêmeos siameses "uma variação interessante". A menos provável, ele disse, é a proposta do relacionamento homossexual.

Baines disse: "A idéia do casal gay é essencialmente derivada da imposição de preocupações modernas sobre materiais antigos e que não atendem ao contexto cultural".

Se O'Connor estiver correto, a tumba exibe um raro caso antigo de registro gêmeos siameses na história, ele disse, e consequentemente um vislumbre da postura do antigo Egito em relação às deficiências. Ele citou outros registros, e arte do anão Seneb, que em uma corte posterior foi "supervisor dos anões encarregados de vestir" o rei e tutor dos filhos reais, ambas posições com status de elite. Aparentemente os egípcios viam tais pessoas como figuras auspiciosas, não aberrações.

Esposas não são abraçadas

"Os deuses criadores fizeram tudo, anões, bezerros de duas cabeças e gêmeos siameses", disse O'Connor. "Um rei se sentia mais elevado em ter tais criaturas singulares lhe servindo como manicures."

Como a maioria das tumbas da elite, esta foi construída em pedra e tinha várias câmaras, a mais sagrada a capela ou sala de culto. Aqui, os parentes dos mortos traziam oferendas e prestavam homenagem. Sob a sala ficava a câmara mortuária. Os restos mortais dos dois homens não foram encontrados.

As tumbas egípcias geralmente representam as vidas dos falecidos em arte e texto. As imagens dos dois homens e as inscrições em hieróglifos sobre eles e suas famílias estão por toda parte, nos corredores e na capela. Os dois homens tinham esposas que são nomeadas e representadas na arte. Mas não há cenas deles abraçando suas esposas.

O relacionamento aparentemente estreito e a posição igual dos dois homens são ilustrados não apenas por imagens deles juntos, seja de mãos dadas ou abraçados. Em outros situações, disse O'Connor, um homem aparece sozinho em uma parede, e o outro na parede oposta. A estatura e pose deles são quase idênticas, e estão realizando atos semelhantes. Enquanto um pesca no brejo, por exemplo, o outro caça pássaros no mesmo lugar.

Estas cenas e as de abraços íntimos levaram à especulação, inicialmente por Mounir Basta, o arqueólogo egípcio que primeiro explorou a tumba, de que Niankhkhnum e Khnumhotep eram irmãos, provavelmente gêmeos. Baines desenvolveu a idéia em um estudo seminal no anos 80, e outros adotaram a idéia do casal gay.

Quando O'Connor investigou o assunto, ele ficou impressionado com uma comparação das imagens dos dois homens com imagens de Chang e Eng, o famosos gêmeos unidos nascidos em 1811 no Sião. Eles eram vistos juntos, de braços dados. Eles e vários gêmeos unidos documentados também tiveram esposas e filhos --como os dois egípcios-- e praticavam várias atividades, assim como a caça e pesca dos dois egípcios.

Seus nomes, Niankhkhnum e Khnumhotep, sugerem outra pista, disse O'Connor. Ambos os nomes se referem ao deus Khnum, a deidade que dá forma à criança no útero. Apesar de não ser uma parte incomum dos nomes egípcios, neste caso poderia ser um jogo de palavras para representar suas vidas ligadas.

Percepção egípcia das deficiências

David Silverman, um egiptólogo da Universidade da Pensilvânia, e seu estudante Joshua Robinson apontaram a O'Connor que o nome Khnum também era semelhante à antiga palavra egípcia "khenem", que significa "unir" ou "ser unido".

Mas um problema é que nada na arte da tumba mostra a ligação física entre os dois, como em algumas imagens de Chang e Eng.

A arte mortuária egípcia, disse O'Connor, "opera em termos de tipos idealizados, não figuras de fato".

"Não é arte fotográfica", ele acrescentou.

Allen, do Museu Metropolitano, concordou dizendo: "A arte egípcia era simbólica e é duvidoso que os egípcios tentariam representar realisticamente a união entre os gêmeos".

Se os dois homens eram gêmeos normais, gêmeos unidos ou um casal gay, a especulação acentua um problema e uma oportunidade para os estudiosos.

"Nós não temos muita informação sobre como gêmeos eram vistos no antigo Egito e como a vida gay era percebida", disse Allen.

Poucos relatos se referem a gêmeos de qualquer espécie na civilização, e um papel de honra para gêmeos unidos, se é que o eram, seria uma evidência mais forte da postura egípcia diante de pessoas com deficiências físicas.

"Tais atributos eram freqüentemente vistos como fabulosos em vez de monstruosos, e positivos em vez de negativos", disse O'Connor. "Eles atestavam a habilidade do deus criador, caso desejasse, de provocar mudanças assombrosas nas normas por ele mesmo estabelecidas."

Além disso, apontou O'Connor, "o fato de poderem trabalhar simultaneamente nos cuidados de ambas as mãos do rei podia ser visto como particularmente apropriado e desejável".

As referências à homossexualidade são apenas ocasionais nos documentos egípcios, às vezes em mitos de certos deuses, implicando que não era considerado um relacionamento normal. A atitude predominante, disseram estudiosos, não era antigay, apesar de provavelmente negativa, e certamente não de aceitação da atividade homossexual como na Grécia clássica.

Se a tumba dos dois homens for de fato uma declaração pública de sua ligação emocional e sexual, disseram os estudiosos, ela poderia inspirar uma reavaliação do papel dos homossexuais na cultura egípcia.

Aceitação da homossexualidade

Defendendo sua interpretação, Reeder disse que a semelhança das cenas de abraço com as de maridos e esposas não deve ser descartada. Ele apontou em sua palestra em Gales para novas evidências que ele disse sugerirem que um dos homens morreu antes do outro. Khnumhotep foi descrito em um lugar como sendo honrado por um grande deus, possivelmente significando que ele tinha entrado no além, enquanto em uma cena correspondente Niankhkhnum tinha apenas títulos oficiais de sua carreira em vida.

Se foi Niankhkhnum aquele que terminou de decorar a tumba, disse Reeder, é improvável que eles fossem gêmeos unidos.

"Eles teriam que ter sido separados cirurgicamente", disse ele em uma entrevista. "Os egípcios tinham conhecimento cirúrgico. Mas separar tais gêmeos seria esperar demais."

O fato dos dois terem famílias não é visto como uma contradição à hipótese gay, disseram egiptólogos. Como outros da época, os dois homens presumivelmente geraram filhos para dar continuidade ao seu legado e manter o culto dedicado ao seu bem-estar por toda a eternidade.

Reeder disse que a hipótese "repercute na comunidade gay porque mostra dois homens históricos sendo íntimos um do outro, e isto é algo que pode ser mostrado na cultura antiga".

O'Connor reconheceu o apelo da interpretação. "Gays e lésbicas ainda enfrentam uma boa dose de preconceito e discriminação, e estes dois egípcios antigos são prova ainda maior de que a homossexualidade remonta há muito tempo na história", disse ele.

"A natureza semipública da capela de sua tumba", ele acrescentou, "sugere que o relacionamento gay era aceito como normal pela elite de uma civilização particularmente famosa e ilustre".

Finalmente, O'Connor reconheceu que a hipótese dos gêmeos unidos, como as outras duas, "não é plenamente apoiada por evidências conclusivas". Gays ou irmãos: um mistério envolto em um abraço eterno George El Khouri Andolfato

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