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20/12/2005

Resultados preliminares da apuração mostram que religiosos lideram eleição no Iraque

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá
Os resultados preliminares das votações, anunciados nesta segunda-feira (19/12) pelas autoridades eleitorais iraquianas, após a contagem de dois terços dos votos, indicam que os grupos religiosos, particularmente a principal coalizão xiita, lideram com folga a eleição.

A coalizão secular liderada por Ayad Allawi, o ex-primeiro-ministro, obteve apenas um fraco apoio em províncias cruciais, incluindo a região de Bagdá, nas quais os seus integrantes esperavam ter um bom desempenho.

Quem obteve mais votos entre os eleitores árabes sunitas foi uma coalizão religiosa cujos líderes defendem a resistência às forças armadas norte-americanas, e exigem que o presidente Bush estabeleça um prazo para retirar as suas tropas do Iraque.

Os resultados preliminares correspondem a mais de 90% dos votos de 11 das 18 províncias iraquianas. Cerca de sete milhões de urnas já foram apuradas. Acredita-se que cerca de 11 milhões de eleitores participaram da eleição da última quinta-feira, para eleger um governo cujo mandato é de quatro anos.

As autoridades advertiram que tais resultados ainda podem mudar. A comissão eleitoral iraquiana recebeu 692 reclamações de irregularidades de campanhas ou de fraudes eleitorais, sendo que pelo menos 20 foram consideradas suficientemente sérias para "afetar resultados eleitorais específicos", afirmou Adel al-Lami, chefe da comissão. Vários candidatos, incluindo Allawi, acusaram furiosamente a principal coalizão xiita de ter utilizado táticas condenáveis, tais como rasgar os pôsteres dos adversários e ordenar a policiais que fizessem campanha em favor dos xiitas.

Os resultados iniciais dão fortes indicações de que os iraquianos depositaram os seus votos nas urnas com base em lealdades religiosas ou étnicas, como ocorreu nas eleições de janeiro passado para a escolha de um governo transitório. Os resultados também indicaram que grande parte do eleitorado é formada por indivíduos altamente religiosos, apesar de vários analistas terem acreditado que o Iraque possui uma grande classe média secular.

Os resultados preliminares da província de Bagdá, a mais heterogênea do país, forneceram uma indicação da natureza religiosa da votação. Com 89% dos votos da província já apurados, a principal coalizão xiita, a Aliança Iraquiana Unida, obteve 1,4 milhão de votos, ou 59%. Em segundo lugar está a Frente de Consenso Iraquiana, a principal coalizão religiosa árabe sunita, com 19%. A coalizão secular de Allawi, a Lista Iraquiana, está em terceiro lugar, com 14% dos votos.

Um outro candidato secular proeminente, Ahmad Chalabi, um ex-favorito do Pentágono, obteve menos de meio por cento dos votos em Bagdá, o que possivelmente impedirá que ele obtenha uma cadeira no Conselho dos Deputados.

Das 275 cadeiras do conselho, 59 serão destinadas a políticos de Bagdá, um número maior do que o de qualquer outra província.

Os resultados representaram um golpe para Allawi, um favorito da Casa Branca, e para os seus companheiros de coalizão, que esperavam obter um amplo apoio em Bagdá. Allawi acreditava que a crescente insatisfação com o governo transitório, que é liderado por partidos xiitas religiosos, e a grande participação do eleitorado árabe sunita, lhe proporcionariam maior apoio que em janeiro deste ano, quando o seu grupo obteve apenas 40 das 275 cadeiras da assembléia provisória.

Allawi já entrou com queixas formais contra a coalizão xiita, acusando-a de práticas condenáveis durante a campanha e de fraude eleitoral. "Estamos esperando pela resposta às nossas queixas contra as violações e falsificações", afirmou Saad al-Janabi, um dos candidatos da coalizão de Allawi, referindo-se à comissão eleitoral. "Estamos pedindo às Nações Unidas, aos Estados Unidos e a grupos internacionais que intervenham com firmeza".

Uma questão importante é se os partidos árabes sunitas serão convidados para integrar o novo governo. Eles discordam dos religiosos xiitas em questão fundamentais como a existência de regiões autônomas e a distribuição das rendas advindas do petróleo. Se os sunitas tiverem a sua voz negada, isso poderia inflamar ainda mais a insurgência, e possivelmente prejudicar os planos para reduzir o número de soldados norte-americanos no Iraque, que atualmente é de 160 mil.

Até que todos os votos sejam apurados, será impossível determinar exatamente quantas cadeiras cada grupo político conquistará. O número de cadeiras determinará as alianças feitas pelos partidos, à medida que estes negociarem para formar um governo, algo que exige dois terços dos votos no parlamento. Em janeiro último, após três meses de negociações, a coalizão religiosa xiita e a principal coalizão curda se uniram para escolher um presidente, o primeiro-ministro e o gabinete.

Os primeiros resultados demonstram que a coalizão xiita mais uma vez estará no centro das negociações --já que é quase certo que obtenha mais de um terço das cadeiras--, devido ao seu poder de vetar qualquer governo proposto.

Allawi ainda conta com uma pequena chance de formar um governo, caso seja capaz de se unir a árabes sunitas e curdos, e afastar alguns dos xiitas religiosos. Porém, essa tarefa sem dúvida se tornará mais difícil devido ao seu mau desempenho eleitoral e à influência do grande aiatolá Ali al-Sistani, o mais reverenciado clérigo xiita no Iraque, que se esforçou bastante para colocar os partidos religiosos xiitas no poder.

Após um período de tranqüilidade durante as eleições, a violência ressurgiu novamente na segunda-feira em várias regiões do Iraque. Um carro-bomba explodiu ao lado de uma patrulha policial iraquiana em Bagdá, matando pelo menos dois civis e ferindo outros oito, incluindo quatro policiais, disse um funcionário do Ministério do Interior. Homens armados abriram fogo contra um comboio que levava o vice-governador de Bagdá, Tarik al-Zawbai, matando três guarda-costas e ferindo Zawbai, um outro guarda e um pedestre.

As forças armadas anunciaram que no domingo um fuzileiro naval foi morto a tiros de fuzil em Ramadi, a insurgente capital da província de Anbar. Os militares disseram ainda que cinco soldados do 75º Regimento de Rangers do Exército admitiram ter praticado abusos contra detentos iraquianos. Eles foram submetidos a julgamentos, em uma corte marcial, nos dias 8, 12 e 13 de dezembro. As forças armadas não forneceram maiores detalhes a respeito dos abusos cometidos.

O Exército Islâmico no Iraque, um grupo militante baathista, divulgou um vídeo de seis segundos de duração mostrando a execução de um homem que, segundo eles, seria Ronald Alan Schulz, funcionário de uma empresa de segurança seqüestrado no início deste mês, segundo o instituto SITE, que monitora os anúncios feitos pelos insurgentes. O Exército Islâmico disse em 8 de dezembro que havia matado Schulz, 40, do Estado de Dakota do Norte, sem entretanto fornecer nenhuma prova que confirmasse a execução. Devido ao fato de a vítima estar de costas para a câmera, foi impossível identificá-la.

No seu anúncio da segunda-feira, a comissão eleitoral não divulgou os números preliminares relativos a várias províncias que possuem populações árabes sunitas significativas, com a exceção de Salahuddin.

A principal coalizão curda dominou por esmagadora maioria as três províncias curdas do norte do país, da mesma forma que a mais importante coalizão xiita dominou o sul.

"Sinto muito por algumas chapas", disse Hadi al-Amiri, membro da coalizão xiita. "Espero que elas consigam pelo menos uma cadeira. Esta eleição demonstra quem conta com apoio e base entre o eleitorado".

Mas protestos conta o governo liderado pelos xiitas irromperam na segunda-feira em cidades sulistas, depois que Chalabi, um vice-primeiro-ministro, anunciou no domingo que o governo reduzirá os subsídios aos combustíveis. Economistas que defendem o livre mercado dizem que os subsídios drenaram o orçamento do governo, e que contrabandistas têm vendido a gasolina barata subsidiada em países vizinhos, obtendo lucros enormes.

*Colaboraram Sahar al-Najib e Abdul-Razzaq al-Saiedi. Xiitas têm o melhor desempenho nas eleições legislativas do país Danilo Fonseca

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