UOL Notícias Internacional
 

21/12/2005

Sindicatos de transporte de NY são punidos com multa alta; cidade luta para funcionar

The New York Times
Jennifer Steinhauer

Em Nova York
Intrépidos, gelados e ocasionalmente surpresos, nova-iorquinos enfrentaram, nesta terça-feira (20/12), a primeira grande greve de transportes da cidade em um quarto de século. A pé, de bicicleta ou compartilhando automóveis, eles andaram pela cidade, enquanto funcionários dos transportes públicos e o departamento que os emprega continuavam intransigentes.

Nas esquinas da cidade, milhões de passageiros de metrô e ônibus, segurando seus copos de café, esperavam ônibus privados, táxis ou motoristas dispostos a oferecer carona e tirá-los das temperaturas negativas.

Vincent Laforet/The New York Times 
Metrô parado, à direita, provoca trânsito intenso nas avenidas da maior cidade dos EUA

Horas antes, o sindicato anunciara greve geral, depois de dias de negociações.

À tardinha, os passageiros encheram as estações de trem e as ruas, tentando sair da cidade.

Enquanto pessoas de todas as origens competiam pela forma mais rápida ou criativa de chegar ao trabalho, o comércio tentava manter as portas abertas em uma das semanas de maior movimento do ano.

O conflito entre o Departamento de Transportes Metropolitano e seu maior sindicato foi parar na justiça. As decisões iniciais foram contra o sindicato.

Primeiro, um juiz da Suprema Corte do Brooklyn golpeou-o com multas de US$ 1 milhão (em torno de R$ 2,3 milhões) para cada dia de greve e disse que ia considerar multas de US$ 1.000 (cerca de R$ 2.300) contra os líderes sindicalistas. Tanto o juiz quanto a organização maior que engloba o sindicato foram contra a greve. O sindicato disse que não tinha como pagar as multas. Depois, o Conselho de Relações Públicas de Emprego do Estado negou a queixa do sindicato que alegava que o departamento de Transportes violara a lei ao negociar pensões.

"Este é um dia muito triste na história do movimento trabalhista na cidade de Nova York", disse o juiz Theodore T. Jones, enquanto emitiu sua ordem.

Vincent Laforet/The New York Times 
Público atravessa a pé a ponte do Brooklyn rumo a Manhattan, coração econômico de NY

Roger Toussaint, presidente do sindicato, pareceu inicialmente destemido, chamando a multa de "excessiva" e dizendo: "No final, acho que será abatida". Entretanto, ele assumiu um tom mais conciliatório, dizendo que gostaria de resumir as negociações.

A greve começou depois que as conversas entre o sindicato e o departamento --que deixaram toda a cidade ansiosa durante semanas-- atingiram um impasse na noite de segunda-feira, quando o sindicato rejeitou a última oferta do departamento. Este tinha concordado em desistir de sua exigência anterior de aumentar a idade para dar aposentadoria plena de 55 para 62 anos para novos funcionários. Por outro lado, todos os futuros funcionários passariam a recolher 6% de seus salários para suas pensões, subindo dos atuais 2%.

A oferta foi rejeitada e, às 3h da manhã, o conselho do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes (TWU) votou pela greve.

O prefeito Michael R. Bloomberg, cujo tom havia sido discreto nos últimos dias, chamou a greve de "bruta" e "egoísta" e declarou que as negociações --das quais a prefeitura não participa- não deveriam recomeçar até que os 33.700 funcionários do metrô e ônibus voltassem ao trabalho.

Ele fez seus comentários várias horas antes de Toussaint sugerir que o sindicato estava pronto a voltar para a mesa de negociação.

"O TWU violou as leis de nossa terra, desafiando uma ordem judicial", disse Bloomberg. Citando vários outros sindicatos com quem negociara, ele disse: "Eles nunca deixaram o trabalho e saíram de Nova York, prejudicando as pessoas para quem trabalham."

Gary Dellaverson, diretor de relações trabalhistas do departamento, disse que este tinha pedido uma arbitração pois acreditava que a disputa tinha atingido um impasse. Toussaint várias vezes rejeitou a arbitração, dizendo que era o mesmo que negar aos membros do sindicato o direito a votar o contrato.

Na terça-feira à noite, a volta à mesa não tinha sido marcadas.

Durante o dia, a confusão reinou em muitas artérias que levam à cidade, nas quais a polícia parou todos os veículos com menos de quatro passageiros. Ao Norte, na 96th Street, carros ficaram presos por quilômetros enquanto motoristas imploravam para que estranhos entrassem em seus carros de forma a cumprir o requerimento.

As empresas continuaram fechadas ou sem clientes, e milhares de trabalhadores pela região ficaram em casa, inclusive quase 20% dos trabalhadores das maiores empresas da cidade. Na loja de departamentos Lord & Taylor, os executivos foram para os andares de vendas, tentando vencer a falta de funcionários, espelhando o desespero de muitos revendedores.

Todos os bairros foram afetados. As escolas públicas começaram o dia com duas horas de atraso e muitas salas de aula sem metade das crianças. Pessoas que de outra forma não fariam contato -carteiros, banqueiros, advogados, enfermeiros- sentaram-se juntas em carros compartilhados.

Heidi Mortensen 39, advogada de um conglomerado financeiro australiano, saiu de Brooklyn em sua BMW na terça-feira e procurou três estranhos para levar para Manhattan. Ela os encontrou: um repórter, um consultor de tecnologia e uma assistente administrativa, todos na Flatbush Avenue, aonde desceu a janela e ofereceu caronas.

Lisa White, 38, que mora no Brooklyn, ficou feliz em ter uma carona para os escritórios em Manhattan da fabricante de brinquedos Fisher Price.

Outros passageiros tiveram viagens menos agradáveis. Rashi Kesarwani, 23, também partiu de Brooklyn, mas caminhou ao longo da faixa desolada com poucos motoristas para a estação de trem de Long Island, na Atlantic Avenue, quase 3 km de caminhada, para pegar um trem. Quando chegou em Queens, esperou uma hora e meia em uma fila que estendia-se por 10 quadras.

"Eu não conseguia sentir os dedos do pé ou da mão, quando entrei na estação de trem", disse Kesarawni, cuja viagem terminou 3,5h depois de começar, finalizada com uma caminhada de 12 quadras para seu trabalho no Rockefeller Center.

Jae Kim, 29, de Paterson, Nova Jersey, estava atrás do volante de seu Honda Accord com dois amigos, tentando desesperadamente chegar a seus empregos de entregadores em Manhattan, via Túnel Holland. Para evitar os policiais, eles empilharam seus casacos de inverno em uma das poltronas traseiras, esperando -em vão- que os agentes pensassem que era uma quarta pessoa.

As estações de trem de Queens e Brooklyn, servindo passageiros de fora da cidade, estavam lotadas, e os trens cheios demais passavam pelas estações sem parar, enfurecendo os que esperavam na fria manhã.

Levas de passageiros caminharam até seus destinos finais, atravessando pontes e avenidas, com bochechas vermelhas e fungando, o rosto determinado mas aflito de um povo que não deixa o comércio parar.

Muitas pessoas claramente simplesmente ficaram em casa. Em grandes partes de Manhattan, parecia que o Natal tinha chegado, com as ruas geladas e silenciosas, banhadas na luz do inverno, e os táxis, vazios.

O prefeito Bloomberg, parecendo cansado e de mau humor, atravessou a pé a ponte de Brooklyn. Fez lembrar, com muito menos drama, a marcha triunfante do prefeito Edward I Koch quando uniu-se aos nova-iorquinos que iam para Manhattan durante a última greve de transportes da cidade.

Naquele ano, a suspensão dos serviços por 11 dias resultou em um golpe devastador para o sindicato de transportes, que ficou praticamente falido, com multas de US$ 1,5 milhão (em torno de R$ 3,45 milhões) e perderam o apoio dos moradores que estavam vivendo em uma cidade que enfrentava crimes e outros problemas sociais. A prefeitura demorou oito dias para conseguir uma injunção da justiça; desta vez, o Estado procurou sua injunção muito antes de os funcionários deixarem seus postos, assegurando um julgamento rápido e multas logo cedo.

Jones decidiu contra o sindicato depois de um dia de audiências na Suprema Corte do Brooklyn, chamando o impasse de "rompimento final em uma barganha coletiva" que tinha levado o TWU a "violar a lei".

A justiça penalizou os membros do sindicato, cobrando dois dias de pagamento para cada dia parados, como estipulado sob a Lei Taylor.

Durante as audiências, o sindicato disse que o departamento tinha feito uma "provocação extrema" exigindo mudanças nas regras de benefícios de pensão dos trabalhadores dos transportes.

Segundo Arthur Schwartz, advogado do sindicato, a Lei de Taylor estipula que as regras de pensão de membros locais não são sujeitas à negociação coletiva. "Estão colocando o sindicato contra a parede, exigindo algo que a lei diz que não podem nos pedir", disse Schwartz.

Ele argumentou também que o TWU não poderia pagar US$ 1 milhão diariamente em multas impostas pela corte. Ele apresentou as declarações de renda de 2004 mostrando que os bens do sindicato eram de US$ 3,6 milhões (aproximadamente R$ 8,3 milhões). "Isso inicia o processo de destruição do sindicato", disse Schwartz.

As multas impostas sob a Lei Taylor são distintas das que podem ser exigidas pela prefeitura em outra ação legal, movida no tribunal de Jones na semana passada, que pede multas de até US$ 25.000 (em torno de R$ 57.500) por dia contra os funcionários em greve. A cidade não pediu à corte para emitir injunção preliminar neste caso, necessária antes das multas poderem ser avaliadas. Com ônibus e metrô em greve, Nova York tem grande prejuízo Deborah Weinberg

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