UOL Notícias Internacional
 

21/12/2005

Suicídio de correspondente expõe rivalidade entre jornalistas que cobrem o Globo de Ouro

The New York Times
Sharon Waxman

Em Los Angeles
Enquanto Hollywood se prepara para a cerimônia do Globo de Ouro, no próximo mês, o pequeno grupo de jornalistas por trás da premiação foi abalado pelo suicídio de um colega que foi suspenso em uma das várias medidas disciplinares tomadas pela organização nos últimos anos.

Big Buzz Magazine via The New York Times 
Nick Douglas, o correspondente irlandês que se enforcou, em foto de seu arquivo pessoal com o ator Colin Farrell
O redator, Nick Douglas, se enforcou em 8 de dezembro em um bazar de caridade em Belfast, Irlanda do Norte, onde estava trabalhando, segundo seu ex-editor na revista "Big Buzz". Ele foi suspenso no ano passado depois de ter vendido uma fotografia de Tom Selleck para um tablóide e depois mentido a respeito.

Os eventos em torno do suicídio, que ocorreu quatro dias antes do anúncio dos indicados para o Globo de Ouro deste ano em Beverly Hills, oferecem um raro vislumbre do funcionamento interno da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, que tem empregado medidas disciplinares para proteger um show lucrativo que se tornou uma parte importante do jogo de premiações de Hollywood.

Barry O'Kane, o editor-chefe da revista, disse que Douglas escrevia uma coluna de entretenimento para a "Big Buzz", uma revista de entretenimento de Belfast. Mas Douglas teve que parar de produzi-la quando sua suspensão lhe impediu o acesso aos eventos para imprensa e entrevistas com celebridades abertas exclusivamente para os membros da associação, que patrocina o Globo de Ouro.

O jornalista estava melancólico por causa de sua incapacidade de encontrar outro trabalho jornalístico, apesar de ter concordado recentemente em começar um boletim de entretenimento para uma emissora de rádio local, disse O'Kane, que disse que falou com Douglas poucas semanas antes de sua morte.

"Eles basicamente tiraram o ganha-pão de um sujeito que estava lá tentando ganhar a vida", disse O'Kane. "Isto levou totalmente, diretamente ao que acabou acontecendo com Nick."

Dizendo ter ficado chocado ao saber na semana passada da morte de Douglas, Philip Berk, o presidente da associação, contestou a idéia de que ela esteve ligada à disputa do jornalista com o grupo.

"Nós já suspendemos muitas pessoas por ações que consideramos prejudiciais à Imprensa Estrangeira de Hollywood --nós estamos tentando proteger nossa imagem", disse Berk. "Certamente nenhuma acabou em suicídio. Se Nick tirou sua vida, o que aparentemente fez, eu não acho que você possa dizer que há um relacionamento casual entre os dois fatos."

Mas pelo menos um membro da associação discordou. Tal membro, Karen Martin, escreveu em uma mensagem por e-mail à liderança da associação no último fim de semana: "Então Nick está morto e minha pergunta a vocês é: como vocês todos se sentem?"

Martin, que defendeu Douglas durante o processo disciplinar, prosseguiu: "Eu quero que vocês saibam que eu considero vocês (e todos os membros que votaram pela recomendação) responsáveis por esta tragédia inacreditável". Douglas tinha 40 anos, disse sua irmã, Inga Douglas, em uma entrevista por telefone na semana passada. Ela se recusou a comentar o motivo da morte de seu irmão.

O suicídio de Douglas reduziu a 85 o número de jornalistas, muitos deles free-lancers, que compõem a associação. Um porta-voz colocou o número em 86 quando foi questionado, pouco antes do anúncio das indicações deste ano do grupo para os prêmios para cinema e televisão.

A premiação ocorrerá em um cerimônia em 16 de janeiro, que será transmitida pela rede de TV "NBC". Ela é cobiçada na indústria do entretenimento como uma ferramenta promocional e se tornou um indicador observado atentamente das chances dos candidatos ao Oscar. As propagandas de "Brokeback Mountain" da Focus Features, por exemplo, já enaltecem suas sete indicações ao Globo de Ouro, incluindo a de melhor drama.

Mas os executivos dos estúdios, que cortejam os eleitores do Globo de Ouro com presentes e outros agrados, também têm se queixado do controle da organização da imprensa estrangeira de um ritual que se tornou um grande negócio.

Segundo sua mais recente declaração fiscal federal recentemente divulgada, o grupo sem fins lucrativos ganhou US$ 5,7 milhões em 2003 pelo show. A cerimônia geralmente é o terceiro programa de premiação mais assistido a cada ano, atrás apenas do Oscar e do Grammy, e gera milhões de dólares para a "NBC", que a transmite desde 1996. A audiência da premiação de 2005 caiu 40%, para 16,7 milhões de espectadores, em comparação ao ano anterior.

Internamente, a associação de imprensa funciona como um clube exclusivo, admitindo um máximo de cinco novos membros por ano, apesar de mais freqüentemente --como neste ano-- aceitar apenas um. Qualquer membro pode bloquear um novo membro, o que torna extremamente difícil a entrada. A associação não representa publicações internacionalmente renomadas como o "Le Monde" ou "The Times" de Londres --ela já rejeitou repetidos pedidos de um correspondente do "Le Monde", aceitando ao mesmo tempo pedidos de jornalistas free-lance de Bangladesh e da Coréia do Sul.

A suspensão de Douglas, que ocorreu em agosto de 2004, expõe os procedimentos disciplinares freqüentemente contenciosos do grupo. As ações visam melhorar a imagem da associação, mas também provocam tensões entre os membros, com alguns dizendo que são ocasionalmente usadas para resolver rixas --como Douglas acreditava que tinha acontecido com ele, disse O'Kane.

Segundo membros da associação, Douglas, que também era um ator aspirante, foi disciplinado por várias violações, mas principalmente por ter vendido uma foto de si mesmo com Tom Selleck ao tablóide "The Globe", por US$ 50, uma ação que é contra as regras do grupo, e por ter levado cervejas não abertas de uma recepção promovida pela MGM.

Douglas negou inicialmente ter vendido a foto, disse Berk, e criou uma mentira elaborada para se defender. Astros de cinema têm suas fotos tiradas com cada membro individual da associação em suas coletivas de imprensa. Os membros não podem vender as fotos para tablóides, em grande parte por objeção dos astros.

Na segunda questão, um membro da associação, Scott Orlin, se queixou de que Douglas tinha levado as cervejas, disse Berk. Segundo os documentos de queixa, levar a cerveja não aberta foi considerado como um ato que ia contra "o melhor interesse" do grupo. Orlin, que escreve para publicações alemãs, disse em uma mensagem deixada em correio de voz que não agiu movido por nenhuma animosidade contra Douglas.

A suspensão de um ano de Douglas terminou em setembro, mas ele foi impedido por mais cinco meses de viajar para eventos de imprensa e festivais de cinema pagos pela associação. O'Kane e outros amigos de Douglas descreveram a proibição como um golpe ao jornalista, que trabalhou por 12 anos para a "Big Buzz" e escrevia uma coluna chamada "Fofoca de Hollywood do Nick".

Notas das reuniões da diretoria e dos procedimentos disciplinares, fornecidas por pessoas familiarizadas com ambos e que temem que o grupo esteja abusando de sua autoridade, mostram que os procedimentos disciplinares tomam uma quantidade significativa da atenção do grupo.

Em 2003, a membro Frances Schoenberger foi suspensa por virar uma taça de vinho no rosto de outro membro, na festa para "Gangues de Nova York", enquanto o diretor do filme, Martin Scorsese, estava próximo, um incidente que se tornou público.

Naquele mesmo ano, Berk escreveu uma carta de desculpas ao ator Brendan Fraser por ter agarrado o traseiro do ator durante uma cerimônia para anunciar uma contribuição de caridade, apesar de Berk ter dito em uma entrevista que não fez isto e que escreveu a carta apenas para apaziguar o ator.

Após sua suspensão, Douglas voltou para Belfast, sua cidade natal, em março deste ano, disse sua irmã na semana passada.

O retorno, disse O'Kane, "foi um certo choque cultural para Nick".

"Nick era 'o Homem de Los Angeles'", ele acrescentou. "Nós temos 800 fotos em nossos arquivos dele com celebridades." Ele disse que em Belfast, Douglas "estava completamente deprimido --ele sentia falta de Los Angeles; ele passou grande parte de sua vida adulta trabalhando lá".

Berk disse que recebeu mensagens de e-mail de Douglas em setembro e novembro, dizendo que ele estava "seriamente mal e sob cuidados médicos, mas que estaria melhor a tempo de estar presente no Globo de Ouro". Berk disse que Douglas recebeu transcrições das coletivas de imprensa da associação e poderia ter prosseguido com seu trabalho desta forma. Mas outros no grupo disseram que Douglas era basicamente um fotógrafo e não podia trabalhar por meio de transcrições.

Duas semanas antes de sua morte, Douglas foi à revista "Big Buzz" para pedir conselho a O'Kane sobre se devia voltar a Los Angeles.

"Ele entrou na redação, sua alma estava morrendo; ele estava esquisito, não dava para falar com ele", disse O'Kane. "Eu lhe disse: 'Volte para Los Angeles, Nick; é o que você sabe fazer'." Mas Douglas tinha dúvidas, lembrou O'Kane. Apesar do fim da suspensão, Douglas acreditava que outros membros da imprensa estrangeira o perseguiriam e ele acabaria encrencado de novo.

O corpo de Douglas foi encontrado pendurado no bazar de caridade pelo dono, disse O'Kane. Ele disse que 500 pessoas estiveram presentes no funeral do jornalista. Associação de Imprensa Estrangeira usa medidas disciplinares George El Khouri Andolfato

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