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21/12/2005

Sunitas rejeitam resultados das eleições no Iraque e exigem investigação de fraudes

The New York Times
Edward Wong

Em Bagdá
Os líderes árabes sunitas rejeitaram furiosamente os resultados eleitorais preliminares nesta terça-feira (20/12), alegando que as eleições foram fraudadas de forma a favorecer os religiosos xiitas apoiados pelo Irã. Eles estão exigindo uma investigação para identificar possíveis fraudes. Os políticos de orientação secular também denunciaram os resultados eleitorais, e exigiram a instauração de um inquérito.

Ashley Gilbertson/The New York Times 
Eleitores votam em Kirkuk; realizada no último dia 15, eleição legislativa teve alto comparecimento
A fúria crescente ameaça se transformar em um prolongado confronto que poderia atrasar a formação do novo governo, que terá um mandato de quatro anos.

Já se esperava que esse processo levasse semanas, ou até mesmo meses. Diplomatas norte-americanos que trabalham aqui estão pressionando os políticos iraquianos para que estes acelerem as negociações de forma a não perderem o impulso conferido pelas eleições da última quinta-feira.

A rejeição dos resultados preliminares, que foram anunciados pela primeira vez na segunda-feira, também faz com que aumente a possibilidade de que os políticos árabes sunitas boicotem o novo governo. A não participação desses políticos no processo representaria um grande retrocesso para a Casa Branca.

"Para que o Iraque tenha sucesso, é necessário que haja cooperação entre os diversos setores étnicos e religiosos", afirmou na terça-feira o embaixador Zalmay Khalilzad, o principal enviado norte-americano no Iraque.

Os árabes sunitas fizeram as denúncias apesar de as comissões eleitorais terem divulgado novos resultados, na terça-feira, mostrando que a principal coalizão religiosa sunita lidera nas províncias dominadas pelos sunitas.

Ao todo, os resultados preliminares correspondem a 90% dos cerca de 10,5 milhões de votos depositados nas urnas, segundo funcionários da justiça eleitoral iraquiana. Mas os resultados oficiais não serão anunciados antes do início de janeiro, já que a comissão precisa investigar cerca de 700 queixas, das quais pelo menos 20 são graves, afirmou Adel al-Lami, diretor-geral da comissão.

Em uma entrevista por telefone, Lami disse que esses inquéritos poderiam modificar o resultado final das eleições. Ele acrescentou que os resultados preliminares para os 10% das urnas restantes não seriam anunciados imediatamente devido às investigações de possíveis irregularidades eleitorais. Equipes de funcionários da justiça eleitoral iraquiana e de observadores da Organização das Nações Unidas (ONU) foram enviadas para oito províncias com a missão de fiscalizar a contagem dos votos, disse Lami.

As reclamações feitas pelos partidos árabes sunitas e pela principal coalizão secular, liderada por Ayad Allawi, o ex-primeiro-ministro e o favorito da Casa Branca, giram em torno dos resultados nas províncias que possuem grupos étnicos e religiosos diversos, especialmente Bagdá.

Os árabes sunitas e Allawi devem ter um bom desempenho na capital, onde 59 das 275 cadeiras no Conselho dos Deputados estão sendo disputadas, um número bem maior do que o de qualquer outra província. Os resultados preliminares, que correspondem a 89% dos votos, revelam que a coalizão religiosa xiita, a Aliança Iraquiana Unida, obteve uma ampla dianteira, com 58% dos votos.

A principal coalizão sunita, a Frente de Consenso Iraquiano, ficou com 19% dos votos, e o grupo de Allawi surpreendeu, ao obter apenas 14%. Os dois grupos entraram com queixas formais contra a coalizão xiita, acusando-a de cometer diversas irregularidades, como arrancar pôsteres dos adversários e falsificar votos nas urnas.

"Nós rejeitamos os resultados que foram anunciados pela comissão eleitoral", disse em uma entrevista coletiva à imprensa Adnan al-Dulaimi, um dos líderes da coalizão sunita.

"Se a comissão eleitoral não adotar medidas bastante rígidas contra essas violações, pediremos a realização de novas eleições", advertiu al-Dulaimi.

Saleh al-Mutlak, um proeminente ex-baathista que lidera o seu próprio partido sunita, insistiu em pedir que grupos internacionais liderem a tarefa de investigar as eleições.

"Não nos calaremos quanto ao que aconteceu. Portanto, pedimos que a comunidade internacional intervenha", disse ele em uma outra coletiva à imprensa. "Solicitamos ao presidente dos Estados Unidos que não agregue mais um erro aos vários que ele já cometeu no Iraque".

Acredita-se que os árabes sunitas representem um quinto da população iraquiana. No entanto, muitos deles alegam que são a maioria no país. Esta linha de raciocínio poderia ajudar a explicar a fúria deles com os resultados. Em entrevistas no decorrer do ano passado, vários líderes árabes sunitas afirmaram que a participação sunita nas eleições comprovaria, finalmente, que os árabes sunitas, e não os xiitas, constituem a maioria populacional no país.

Especialistas em insurgências dizem que os árabes sunitas, que comandavam o país, podem ter decidido participar da eleição de quinta-feira, em vez de boicotá-la, como forma de retomar algum poder e trabalhar a partir do interior para subverter o processo político. Se isso for verdade, a rejeição dos resultados iniciais poderia ser o primeiro passo de uma tentativa de desacelerar, e até mesmo sabotar, o processo de formação de um governo. A indignação com os resultados preliminares irrompeu quando os últimos números demonstraram que os partidos árabes sunitas devem conquistar de 40 a 50 cadeiras do total de 275 que compõem o parlamento, o que representa o triplo do número de assentos que eles tiveram na assembléia provisória.

Devido aos bons resultados obtidos em Bagdá e no sul do país, a principal coalizão xiita deverá ganhar pelo menos 120 cadeiras parlamentares. A principal coalizão curda e um grupo fragmentado, a União Islâmica do Curdistão, dominaram as três províncias do Curdistão iraquiano, e obterão um número de cadeiras parlamentares semelhante ao dos árabes sunitas. Allawi deverá obter um número consideravelmente menor de cadeiras.

Na terça-feira, a comissão eleitoral divulgou os resultados preliminares de sete das 18 províncias iraquianas, após ter anunciado os resultados das 11 primeiras na segunda-feira. Entre essas sete estão Anbar, Neneveh e Diyala, que possuem grandes populações árabes sunitas.

A Frente de Consenso Iraquiano, liderada pelos sunitas, ficou em primeiro lugar em todas as três províncias, tendo obtido um resultado especialmente notável na virulentamente antiamericana região de Anbar, com 74% dos votos. O partido de Mutlak ficou em segundo, com 18%, e Allawi ficou em um distante terceiro lugar, com apenas 3% dos votos.

Para a criação do braço executivo do governo, são necessários dois terços dos votos parlamentares. Sendo assim, os diversos partidos precisarão formar alianças. Os resultados preliminares demonstram que a coalizão xiita detém de longe o maior número de votos, e que será difícil, se não impossível, para candidatos como Allawi, a criação de uma alternativa viável para o cargo de primeiro-ministro. No segundo semestre deste ano, após três meses de discussões, os xiitas se uniram aos curdos a fim de formarem uma maioria de dois terços e criarem um governo.

Desta vez, os dois blocos podem não obter uma maioria de dois terços, ou 184 cadeiras, caso se unam, e, portanto, deverão buscar parceiros. Resta saber se eles convidarão um número significativo de árabes sunitas para formarem uma coalizão, ainda que os sunitas discordem dos xiitas e dos curdos em relação à questão mais fundamental com que o Iraque se depara - determinar se o país deverá contar com regiões autônomas ou com um governo central forte.

Uma coalizão de xiitas e curdos poderia atrair partidos menores, em vez de cortejar os sunitas conservadores. A comissão eleitoral pretende fornecer 45 cadeiras a políticos que representam minorias étnicas ou religiosas, como, por exemplo, a população Yezidi. Essas cadeiras poderiam ainda ser destinadas a políticos bem conhecidos, como Ahamad Chalabi, o ex-favorito do Pentágono, que não conseguiu obter em Bagdá votos suficientes para conquistar uma cadeira no parlamento.

Se os árabes sunitas forem alijados do poder, a insurgência poderá ser alimentada. No último ataque com o objetivo de assustar os diplomatas estrangeiros, os guerrilheiros seqüestraram um motorista da Embaixada da Jordânia. Homens armados mataram três civis em incidentes separados, além de assassinarem um policial, segundo anunciou um funcionário do Ministério do Interior. Três corpos de trabalhadores iraquianos foram encontrados na área de Abu Ghraib, a oeste de Bagdá. Políticos secularistas também contestam a vitória dos xiitas Danilo Fonseca

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