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22/12/2005
Madrid seduz os turistas com sua vida boêmia

Sarah Wildman
Enviada a Madri, Espanha


Às 5:30 da manhã, na calle (rua) Maria de Molina, uma ampla avenida no bairro de Salamanca em Madrid, é praticamente impossível encontrar um táxi. E não é porque os táxis param de funcionar tão tarde da noite --ou tão cedo, conforme o ponto de vista--, mas porque todos na cidade também querem ir a algum canto. E essa busca não se limita à juventude de Madrid; os ônibus que trafegam nas altas horas quase atropelam as pessoas que tremem de frio disputando os táxis, todos os veículos estão lotados de gente animada de todas as idades.

A cultura boêmia que cultiva as altas horas em Madrid é a verdadeira língua em comum que une a cidade: a hora de ir dormir, assim como a hora de comer, acontece num horário onde as luzes em outras cidades já estariam apagadas há muito tempo. Quando os madrilenos vão para "la marcha", ou seja, para sua jornada noturna, começa uma peregrinação entre bares e clubs que segue até o raiar do dia.

Matias Costa/The New York Times 
A movimentada Calle Cava, em Madrid; rua fica congestionada durante a madrugada

Sendo assim, umas semanas atrás, com uma verba de apenas U$ 500 para passar o final de semana nessa cidade tão noturna, me arrisquei a não reservar um hotel para a sexta à noite, imaginando que economizaria algum dinheiro se ficasse na vigília por toda a noite.

A tal noite começou --muito tarde, é claro-- na Taberna Almendro, uma pequena taberna com paredes em amarelo-mingau e grandes barris servindo de mesas. O ambiente estava quente pelos tantos corpos encostados uns nos outros, com a maioria das pessoas fumando (o que é o outro hábito nacional espanhol), debruçados sobre o balcão onde compram as cervejas ou canecas em miniatura de vinho suave galego, ou ao redor do janelão que dá para a cozinha.

As primeiras despesas da noite até que sairam em conta. Por 9,50 euros --equivalente a uns R$ 26,50 aproximadamente, considerando o euro a R$ 2,80-- eu e meu parceiro, Ian, dividimos um prato enorme de el pisto roto, ovos sobre batatas fritas servidos com um delicioso molho de legumes que transformou esse item de café da manhã num jantar, bebendo vários copos de canas, pequenos chopps que convidam a várias rodadas.

A Taberna Almendro anunciou que estava fechando a cozinha por volta das 12:45, e aí seguimos em frente, respirando o ar gelado da noite.

Felizmente escolhemos uma região onde não precisávamos caminhar por muito tempo. Ali por onde a calle del Almendro se encontra com a calle Cava Baja, numa esquina lotada de bares com tapas, restaurantes e pubs, descemos a rua depois da meia-noite.

As pessoas aproveitavam a noite fria dando risadas, num canto comendo tortillas a espanola (os onipresentes omeletes com batata) ou patatas brava (batatas fritas com molho rosé picante), noutro canto saboreando o famoso jamon serrano. A região estava tão lotada à uma da manhã que sequer conseguimos entrar direito na primeira cerveceria que encontramos, e pedir uns drinks nem pensar.

Ramon, um legítimo madrilenho que nos acompanhou nesse périplo pela madrugada de bar em bar, sugeriu que tentássemos o bar VaOva, um local bem exclusivo decorado num estilo que mistura a Europa pós-colonial (algo como numa loja no estilo Ralph Lauren) com Marrocos. Nós batemos à porta --trancada numa demonstração de esnobismo-- e um porteiro arrogante nos deixou entrar. De repente saímos do ruído das ruas para um silêncio total.

Foi como se fossemos transportados da Espanha diretamente para as filmagens de "Out of Africa" (Entre Dois Amores) ou de alguma produção de Merchant-Ivory. No andar de baixo, grupos de espanhóis bem vestidos dividiam cachimbos narguilés, bebiam em enormes copos de conhaque, em rituais que sugeriam uma espécie de Pan-Oriente com toque exótico.

Nosso garçom usava um típico chapéu "fez". A música era trance e lounge eletronico --uma trilha a la Buddha Bar-- os drinks eram caros, a 10 euros cada, e a energia, como as conversas ao nosso redor, era meio para baixo. Muito baixo astral.

Depois de uma rodada de drinks, saímos para o Corazon Loco, um acolhedor tapas bar com paredes de tijolo aparente onde as bebidas eram bem servidas e mais baratas (6 euros por uma dose de Rum y Limon). Mas não sabíamos do macete crucial a respeito dos aperitivos tapas. Na Espanha as altas horas da madrugada parecem infinitas, mas as regras são severas. Você não pode comer às duas da manhã; as cozinhas a essa hora já estão fechadas. Quando o relógio já marcava quase três da manhã, nos adiantamos para um club, o Phase 4.

Já que hesitamos em pagar um couvert no famoso dance hall Pacha, que era minha primeira escolha, Ramon sugeriu que fossemos de táxi até Salamanca, à disco Dejate Besar (Deixe-se Beijar, uma sugestão que a maior parte do povo que lá dançava levou a sério). O preço do ingresso era razoável --gratuito. Uma fila de gente agitava os pés ao frio relento esperando o aceno favorável do porteiro.

Quando entramos e nos dirigimos ao bar, percebemos que a clientela espanhola era o que os madrilenhos chamam de "un poco pijo", um tanto esnobe. Mas na pista de dança, iluminada apenas por feixes de neon, dançamos um mix estranho mas bem pop de música dos oitenta e noventa, até às 5:30 da manhã, gastando mais 25 euros em bebidas.

Quando encaramos a rua mais-que-gelada depois das 5:30, o Dejate Besar continuava recebendo gente. Mas nós estávamos cansados, famintos e muito necessitados de uma boa cama. E ficarmos acordados até o nosso check-in, ao meio-dia, no hotel que havíamos reservado para o sábado, já não parecia mais uma boa idéia. Ramon já havia nos avisado: em algum momento vocês precisarão dormir.

Quando ele disse isso nós rimos, mas agora eu já podia ver a sabedoria de suas palavras. Felizmente, tinhamos uma opção segura no apartamento que Ian havia alugado, onde pudemos dormir por umas duas horas até nos dirigirmos novamente para Salamanca, finalmente nos registrando no hotel High Tech President Castellana. O quarto que eu reservara estava cotado a 220 euros, mas eu paguei 110 euros por conta de uma promoção num site de descontos pela Internet.

O High Tech nos fez sentir como se não tivéssemos saído do club: o elevador abre para um corredor bem escuro e sóbrio, iluminado apenas por luzes de emergência em neon púrpura. No quarto, um vidro transparente no banheiro dá à pessoa que está na cama vendo televisão a opção de conferir alguém que esteja no chuveiro.

Duas telas garantem um pouco de privacidade: uma tem árvores, que podem encobrir parcialmente a banheira, e a segunda tem uma imensa imagem de mulher nua que se espalha pelo vidro que encobre o banheiro. Espelhos reclinados acima de uma tevê de tela plana refletem a cama (surpreendentemente confortável) e a cabeceira em imitação de couro. Uma das luzes sobre a cama também era em neon púrpura.

Eu ainda estava com fome da noite anterior, então decidimos partir para um almoço italiano no meio da tarde, no Toto e Pepino, já pelos lados de Chueca. As massas, as pizzas em forno a lenha e a salada de rúcula fresca estavam caras, a 36 euros, mas valeram a pena.

Em seguida, por mais ou menos uma hora olhamos as vitrines em Chueca, conferindo as lojas de sapatos exóticos e de designers independentes. Quando nos afastamos das boutiques, paramos para ver o show grátis de um grupo na Galeria Oliva Arauna, em homenagem aos 21 anos da galeria. Quando eu admirava as fotos queimadas pela técnica do plexiglass, a própria Oliva parou para conversar um pouco.

Andando de volta ao hotel, observei ao longo do Paseo de Recoletos cartazes anunciando exposições na Biblioteca Nacional. No andar de baixo estava a atraente "Maremagnum", uma coleção de trabalhos de Jordi Socias, um repórter fotográfico de Barcelona, que iam de uma vista aérea sobre uma passeata em Barcelona no ano de 1976 a um retrato de Penelope Cruz.

Foi então que eu percebi que havia perdido uma oportunidade preciosa para uma soneca. Em vez disso, só tive tempo de trocar de roupa no hotel e sair correndo para fazer nossas reservas no Isla del Tesoro, um restaurante vegetariano perto da estação de metrô de Bilbao.

A comida era pretensiosa e não tão bem preparada: a entrada com feijões garbanzo, cebola e alho estava excelente; o mesmo não se pode dizer da paella com massa de trigo integral. Eis que, transcorridos três quartos de nossa refeição, fomos subitamente comunicados que éramos a mesa ocupada há mais tempo e que nosso tempo estava esgotado. Fomos conduzidos até a porta, ainda com os copos cheios de vinho, e o que é pior, a conta saiu em 60 euros para nós dois, e era apenas meia-noite.

Aí nos mandamos para Areia, um bar descolado na região de Chueca com um certo jeito harém de ser: cortinões drapeados pelo teto; almofadões em cores diferentes como assentos. As bebidas estavam por preços administráveis, de 5 a 7 euros cada drink.

Mas após ficarmos uma hora em pé, equilibrando casacos, bebidas e nos desviando de cigarros acesos e de casais embalados, nos mandamos atravessando a rua para La Sueca (A Sueca), ambiente igualmente descolado --o bar tinha um luz de fundo com luz azul clara e etérea-- mas, enfim pela primeira vez, estava menos cheio. Facilmente encontramos dois bancos para sentar e apreciar o excelente DJ e a turma na pista, formada tanto por gays quanto por héteros. E quando nos demos conta era 3 da manhã de novo. Seguimos para o nosso hotel de neon púrpura, onde gastamos 5,30 euros consumindo petiscos no frigobar.

Passar duas noites além das quatro da manhã significou acordar na manhã seguinte depois de meio-dia. No hotel President Castellana, o saguão futurista estava lotado por uma multidão de russos discutindo sobre o que fazer naquele dia. Nós fechamos a conta, deixando nossas malas num quarto reservado do hotel, e nos mandamos para El Rastro, o grande "mercado das pulgas" dominical frequentado por todo mundo, desde madrilenhos históricos a turistas de final de semana a Hare Krishnas que empurram seus bolinhos de maneira agressiva às mãos dos céticos.

Como qualquer morador de Madrid poderá lhe dizer, é melhor caminhar por El Rastro no começo da manhã, antes que toda cidade acorde. Ao meio-dia o mercadão era praticamente uma massa sólida de gente avançando quase que centímetro por centímetro, barraca por barraca. Em destaque no mercado, vendedores de camisetas com nomes de marcas americanas mal-escritos, lembrando concertos que aconteceram há muito tempo e rendendo homenagens à maconha.

Seguindo pela feira, há de tudo um pouco --aquelas toalhas de mesa artesanais, chaves, meias, talhas em madeira, sapatos, bolsas e tudo o o mais que possa ser exposto numa mesinha ou dependurado num gancho. Nós compramos dois cachecóis de uma mesa cheia de artigos coloridos importados da Índia, e depois mergulhamos num corredor cheio de lojas de antiguidade, onde admiramos mobílias em Art Deco e anúncios impressos da Europa nos anos trinta.

Avançando pela multidão eu segurava minha sacola de compras com firmeza --El Rastro é conhecido por seus trombadinhas-- e segui pela calle de Toledo, passando pela Plaza Mayor e rapidamente por uma rápida refeição (de 8 euros) na Cerveceria 100 Montaditos, onde os clientes buscam opções em cardápios de estilo japonês, embora as opções sejam sempre na base do jamon, jamon, jamon (sempre o tradicional presunto cru) com um pouco de queijo e de anchovas. Devorando meu sanduíche, decidi partir por conta própria para o Museu da Rainha Sofia, que é gratuito aos domingos (assim como o Prado). Mas quando cheguei ao Rainha Sofia já estava fechado.

Decepcionado, corri para o Paseo del Prado para o Circulo de Bellas Artes. Também de graça, também fechado. Após um café de consolação no restaurante Beaux-Arts do museu, eu paguei para entrar no museu Thyssen-Bornemisza, onde vaguei, exausto e com olhos cansados, por uma exposição de Realismo Moderno. Devidamente recarregado, quando encontrei com Ian no começo da noite

Decidimos esquecer os tapas e fomos atrás de sushis no bairro de Prosperidad, num modesto porém excelente Nagoya, decorado num estilo de restaurante japonês pré-fabricado. Nesse Nagoya nós gastamos 46 euros, terminando nossa jornada de dois dias bem alimentados, embora sem o descanso necessário.

Custo total da viagem: 421,.63 euros (cerca de R$ 1.180), ou quase exatamente U$ 500.

Refeições, museus e, se quiser, um lugar para dormir

As estações de metrô e os quiosques de jornais vendem passes de 10 viagens, bons tanto para ônibus como para o sistema Metro, por 5,40 euros. O metrô para às 1:30 da manhã, mas depois dessa hora há muitos táxis.

  • Onde ficar

    Hotel High Tech President Castellana, calle Marques de Villamagna, 4. Quartos a partir de 90 euros por noite, em descontos. Em sites como www.bookings.org., há também Abalu HS, calle del Pez, 19. Quartos duplos variam de 65 a 90 euros.

    Hotel Avenida de America, calle Cartagena, 83-85. Preço dos quartos a partir de 75 euros, em www.ac-hotels.com.

  • Onde comer

    Taberna Almendro, calle Almendro, 13, (34-91) 365 4252 Metro: La Latina.
    Corazon Loco, calle Almendro, 22, (34-91) 366 5783. Metro: La Latina.
    Toto e Pepino, calle Ferdinand VI, 29, (34-91) 308 7370. Metro: Colon, Alonso, Alonso Martinez ou Chueca.

    Isla del Tesoro, calle Manuela Malasana, 3 (34-91) 593 1440. Metro: Bilbao.

    Cerveceria 100 Montaditos, Calle Mayor, 22, Metro: Sol.
    Nagoya, Calle Clara del Rey, 44, (34-91) 416 9827. Metro: Alfonso XIII.

  • O que ver

    Biblioteca Nacional, Paseo de Recoletos, 20-22, www.bne.es. Ingresso livre. Metro: Serrano ou Colon.

    Galeria Oliva Arauna, calle Barquillo 29, www.olivarauna.com. Metro: Chueca.

    El Rastro, "mercado de pulgas" dominical antes da Plaza Cascorro, entre calle de Embajadores e calle Ribera de Curtidores Metro: La Latina.

    Museu Thyssen-Bornemisza, Paseo del Prado, 8, www.museothyssen.org, aberto das 10 da manhã às 7 da noite Das terças aos domingos. Metro: Banco de Espana/Sevilla.

    Circulo de Bellas Artes, calle Alcala 42, www.circulobellasartes.com. Metro: Sevilla.

    Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Santa Isabel, 52, ao Oeste em www.museoreinasofia.es, aberto segundas e quartas até sábados, de 10 da manhã às 9 da noite; aos domingos de 10 da manhã até 14:30. Metro: Atocha.

  • Onde beber:

    VaOva, Plaza del Humilladero, (34-91) 364 1017. Metro: La Latina.
    Areia, calle Hortaleza, 92. Metro Alonso Martinez.
    La Sueca, calle Hortaleza, 67. Metro: Alonso Martinez.

  • Onde dançar

    Pacha, calle de Barcelo, 11. Metro: Tribunal.

    Dejate Besar, Hermanos Bacquer, 10. Metro: Ruben Dario.

    Tradução: Marcelo Godoy

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