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23/12/2005

Falta de banheiro tira meninas africanas da escola

The New York Times
Sharon LaFraniere

Em Balizenda, Etiópia
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    Fatimah Bamun abandonou a Escola Primária de Balizenda na primeira série, há mais de três anos, quando seu pai se recusou a lhe comprar papel e lápis. Apenas depois que seus professores o convenceram de que sua filha demonstrava um potencial incomum ele cedeu. Hoje, Fatimah, 14 anos, alta e esguia, estuda matemática e amárico, a língua oficial da Etiópia, em uma classe da quarta série com chão de terra.

    Vanessa Vick/The New York Times 
    Mesert Mesfin, 17, disse que, em seu ciclo menstrual, teve de correr para casa porque não havia banheiro ou água em sua escola, na Etiópia
    Se ela chegará até a quinta série é outro problema. Fatimah está entrando na puberdade, e com ela as realidades da menstruação em uma escola sem latrina, sem água, sem esperança de privacidade além da sombra de uma moita, e sem amigas com quem contar. Fatimah é a única garota dos 23 alunos de sua classe. E em uma escola de 178 alunos, ela é uma das três meninas que foram além da terceira série.

    Mesmo as mulheres entre os professores da escola disseram que não têm escolha a não ser usar a moita espinhosa, à plena vista das salas de aula, como sanitário.

    "É realmente difícil demais", disse Azeb Beyene, que chegou aqui em setembro para dar aulas para a quinta série. Aqui e por toda a África sub-Saara, as estudantes só podem sentir empatia. Em uma região onde a pobreza, a tradição e a ignorância privam cerca de 24 milhões de garotas mesmo do ensino primário, a falta de banheiros e água nas escolas é um dos muitos obstáculos para a freqüência das meninas, e até recentemente era impróprio até para discussão. Em algumas comunidades rurais da África, a própria menstruação é tão tabu que as meninas são proibidas de cozinhar e até mesmo são afastadas para o interior enquanto estão menstruadas.

    Mas tal impacto é substancial. Pesquisadores por toda a África sub-Saariana documentaram que a falta de um banheiro limpo, apenas para meninas, com água corrente para lavarem as mãos tira um número significativo de meninas da escola. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), por exemplo, estima que uma em cada 10 garotas africanas em idade escolar ou falta à escola durante a menstruação ou a abandona por falta de condições sanitárias.

    A luta por privacidade por parte das estudantes é emblemática da batalha colina acima pelo o ensino público na África sub-Saara, particularmente entre as meninas. Com ligeiramente mais de seis em cada 10 crianças em idade escolar matriculadas no primário, os índices de matrícula da região estão entre os mais baixos do mundo.

    Além disso, o índice de matrícula entre meninas em idade do ensino primário é 8% mais baixo do que entre os meninos, segundo o Unicef. E entre as meninas que se matriculam, 9% a mais do que os meninos deixam a escola antes do fim da sexta série. As meninas africanas em comunidades rurais e pobres como Balizenda apresentam uma probabilidade ainda maior de abandonar a escola. O Banco Mundial estimou em 1999 que apenas uma entre quatro delas estava matriculada no ensino primário.

    A questão, disseram defensores dos direitos das crianças, não é apenas de igualdade. O Banco Mundial argumenta que, se as mulheres na África sub-Saariana tiverem acesso igual a educação, terra, crédito e outros ativos como fertilizantes, o Produto Interno Bruto da região poderia aumentar quase um ponto percentual adicional por ano. Mark Blackden, um dos principais analistas do banco, disse que o progresso da África está quase que inseparavelmente ligado ao destino das garotas.

    "Há uma conexão entre o crescimento na África e a igualdade de gênero", disse ele em uma entrevista por telefone. "É de grande importância, mas ainda ignorado por muitos."

    A pressão sobre as garotas para deixar a escola chega ao pico com o advento da puberdade e os problemas que acompanham a maturidade, como assédio sexual por professores, crescentes responsabilidades em casa e pressão dos pais para se casar. As professoras que poderiam servir como exemplo também são escassas na África sub-Saariana: elas correspondem a um quarto ou menos dos professores do ensino primário em 12 países, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

    Florence Kanyike, a coordenadora de Uganda do Fórum das Mulheres Educadoras, uma organização com sede em Nairóbi que faz lobby pelo ensino para garotas, disse que as duras inconveniências da menstruação em escolas sem saneamento é apenas mais um motivo para as garotas ficarem em casa.

    "Elas perdem três ou quatro dias de aula", disse Kanyike. "Elas acabam ficando para trás e como sua performance escolar não é boa, elas perdem o interesse. Elas começam a pensar: 'O que estou fazendo aqui?' A maioria delas abandona no quinto ou sexto ano."

    Cada vez mais organizações internacionais, ministérios da educação africanos e os nascentes movimentos de direitos das mulheres do continente estão se unindo por uma escola "amistosa para garotas", uma que seja mais segura e mais próxima de casa, com uma parcela saudável de professoras e um banheiro limpo com porta e água para lavar as mãos.

    Na Guiné, os índices de matrícula de garotas de 1997 a 2002 saltou 17% depois de melhorias nas condições sanitárias da escola, segundo um recente relatório do Unicef. O índice de evasão escolar entre as garotas caiu em um percentual ainda maior. As escolas no nordeste da Nigéria apresentaram ganhos substanciais depois que o Unicef e doadores construíram milhares de latrinas, treinaram milhares de professores e estabeleceram clubes de saúde nas escolas, argumenta o fundo.

    A Etiópia também exibiu progressos. Mais de seis entre 10 meninas em idade de ensino primário estão matriculadas na escola neste ano, em comparação a menos de quatro entre 10 em 1999. Ainda assim, os meninos estão bem à frente, com quase oito entre 10 matriculados no ensino primário.

    O Unicef está construindo latrinas e levando água limpa para 300 escolas etíopes. Só que mais da metade das 13.181 escolas primárias do país não possuem água, mais da metade não possuem latrinas e algumas carecem de ambas. Além disso, as que possuem latrinas contam com apenas uma para 300 alunos, disse Therese Dooley, a diretora de projeto sanitário do Unicef.

    Falta de banheiros

    Em teoria, ao menos, dotar as escolas etíopes de instalações básicas pode ser barato e simples, disse Dooley. Os banheiros precisam ser pouco mais do que buracos e lajes de concreto com paredes e uma porta; água da chuva pode ser captada no telhado da escola e filtrada em areia.

    Ainda assim, ela disse, banheiros para meninos e meninas devem ser separados e os estudantes que podem nunca ter visto uma latrina precisam ser instruídos sobre como usá-las. E os banheiros precisam ser mantidos limpos, uma tarefa que freqüentemente recai sobre as próprias estudantes que supostamente mais se beneficiarão.

    Na província de Benishangul Gumuz, no oeste da Etiópia, onde montanhas baixas se erguem sobre campos brilhantes de sésamo, tais amenidades são raras. Guma, uma cidade de 13 mil habitantes a cerca de uma hora de carro de Balizenda por uma estrada terrivelmente sulcada, conta com água apenas esporadicamente. A rua principal da cidade é pontilhada de lojas, mas nenhuma vende papel higiênico. Mas poucos moradores poderiam pagar por ele. As mulheres se viram com trapos dobrados.

    A escola primária de Balizenda, com 178 alunos, é um longo prédio de palha trançada em uma clareira de terra cercada por moitas. Duas cabanas de bambu com paredes inclinadas se passam por salas de aula da quinta e sexta série. Em um campo de futebol no playground, três galhos de árvore amarrados formam o gol.

    Com exceção da primeira série, onde as meninas correspondem a mais de um terço da classe, Balizenda poderia facilmente ser confundida com uma escola para meninos. Apenas 13 garotas estão matriculadas na segunda até sexta série --e mesmo isto representa uma melhoria em comparação a três meses atrás.

    "Quando eu cheguei aqui em setembro, não havia nenhuma aluna" em toda a escola, disse Tisge Tsegaw, 22 anos, a professora da primeira série, uma sala em que quatro alunos compartilham uma mesa de madeira. "Nós fomos até as casas, motivamos os pais e então elas vieram."

    Mas em muitos casos, não por muito tempo. "Os pais priorizam. Eles calculam que, se as garotas ficarem em casa, elas podem cuidar da moagem, ajudar na colheita, buscar água e pegar lenha", disse Tsegaw. "Eles concordam em matriculá-las. Então, depois de dois meses, eles as tiram."

    A latrina da escola, uma cabana de bambu e palha, caiu no ano passado. Yehwala Mesfin, o diretor da escola, disse que nem os aldeões e nem o Ministério da Educação ajudariam a construir uma nova.

    Os pais consideraram sua reconstrução anual das salas de paredes de bambu da quinta e sexta série como contribuição suficiente, disse ele.

    Beyene, a professora da quinta série que chegou aqui em setembro, disse que ela concordou em permanecer em Balizenda apenas depois que Mesfin prometeu que ela poderia usar o banheiro de um centro de saúde próximo. Mas de lá para cá o centro de saúde foi fechado por falta de funcionários.

    "Na maior parte do tempo eu uso o campo aberto", disse ela. "Não há privacidade. Todo mundo vem, mesmo os alunos. Então tentamos nos restringir a urinarmos antes da escola e à noite. Eu já contraí uma infecção renal por causa disto. Minha situação está piorando."

    As únicas meninas na sexta série na escola, Mesert Mesfin, 17 anos, e Worknesh Anteneh, 15 anos, disseram que quando não conseguem resistir ao chamado da natureza, elas montam guarda uma para a outra no campo. Quando sua menstruação teve início em uma recente manhã de quinta-feira, disse Mesert, ela não teve escolha a não ser correr para casa. Worknesh disse que às vezes falta à escola durante a menstruação dela. "É uma vergonha", disse ela. "Eu fico realmente incomodada com isto."

    Fatimah Bamun, que iniciou tão tarde a escola que aos 14 anos está apenas na quarta série, disse que não gosta de perder nenhuma aula porque quer ser professora. Mas, ela acrescentou, ela não tem muito apoio de suas amigas.

    "Eu não tenho nenhuma amiga na classe", disse ela. "A maioria das minhas amigas abandonou a escola para se casar. Assim, durante o recreio, eu apenas fico sentada na sala de aula, lendo."

    Mas o pai dela agora diz que está lhe dando todo o apoio. "As pessoas do governo estão o tempo todo nos dizendo para mandarmos nossas filhas à escola, e eu estou escutando estas pessoas", disse ele.

    Nem a irmã mais velha de Fatimah e nem a mãe dela foram à escola. E Fatimah está bem familiarizada com as alternativas para meninas analfabetas. Quando ela volta diariamente para casa após a escola, ela é recebida por outra menina, chamada Eko, que vive em sua cabana. Magra e mal vestida, com 12 anos no máximo, Eko é literalmente um presente de casamento, dada aos Bamuns quando a irmã de Fatimah se casou com o irmão de Eko.

    Antes do casamento, Eko era uma ávida aluna da segunda série. "Eu gostava muito da escola; teria sido melhor permanecer na escola", disse ela serenamente, segurando as mãos cheias de calos. Agora ela é a criada da família Bamun, acordando ao nascer do sol para moer sorgo com uma pedra para o mingau do café da manhã. Agora, sua educação depende de Fatimah.

    "Ela sempre me pergunta: 'Quando você vai para a escola?'" disse Fatimah. "'O que você faz lá? O que você está estudando?'" Péssimas condições sanitárias são obstáculo para alunas no início da adolescência, imersas numa sociedade ignorante e miserável George El Khouri Andolfato
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