UOL Notícias Internacional
 

23/12/2005

Greve de transportes acaba após 60 horas em NY

The New York Times
Steve Greenhouse e Sewell Chan*

Em Nova York
Os funcionários do transporte público de Nova York voltarão ao trabalho nesta sexta-feira (23/12), e o serviço parcial de ônibus e metrô poderia ser retomado em poucas horas, disseram no meio da tarde de quinta autoridades do Sindicato de Trabalhadores nos Transportes (TWU na sigla em inglês), Seção 100.

Vincent Laforet/The New York Times 
Tráfego da rua 42 na noite desta quinta-feira, pouco após o anúncio do fim da paralisação dos transportes em NY
A ordem para reiniciar o trabalho veio depois que o conselho executivo do sindicato decidiu por 38 votos a 5, com duas abstenções, aceitar um esquema preliminar de um plano de acordo como base para encerrar a greve.

O esquema já tinha sido aceito pela Autoridade de Transporte Metropolitano (MTA na sigla em inglês). Mediadores do Estado chegaram ao esquema geral para o acordo depois de negociações durante a noite toda com o sindicato e a MTA.

"Fico feliz em anunciar que o conselho executivo da Seção 100 acaba de votar maciçamente para orientar os trabalhadores de transportes a retomar o trabalho imediatamente e reiniciar os serviços de ônibus e metrô nos cinco distritos da cidade de Nova York, e agradecemos aos usuários por sua paciência e tolerância", disse o presidente do sindicato, Roger Toussaint, diante da sede do mesmo esta tarde. "Vamos fornecer vários detalhes sobre o resultado da greve nos próximos dias."

Alguns minutos antes, um membro do conselho executivo, George Perlstein, que disse ter votado contra o plano, declarou visivelmente irritado aos jornalistas que o sindicato não atingiu seus objetivos. "Não conseguimos nada. Absolutamente nada", ele disse.

Ainda não está claro quando todos os metrôs e ônibus voltarão a funcionar, mas poderá levar até 18 horas para que os serviços sejam totalmente restabelecidos.

Isto poria fim a uma provação de 60 horas para os nova-iorquinos, na qual os moradores --que dependem intensamente do transporte público-- tiveram de andar a pé, pedalar, pegar carona e sofrer engarrafamentos às 3:30hs da madrugada para chegar ao trabalho.

Notícias do possível fim da greve começaram a surgir no início do dia.
"Nas últimas 48 horas nos reunimos separadamente com o sindicato e a MTA", disse o mediador Richard A. Curreri em entrevista coletiva hoje de manhã. "As discussões foram frutíferas, mas por enquanto um acordo continua fora de alcance. Está claro para nós, porém, que ambas as partes têm um interesse real em resolver suas diferenças."

Curreri acrescentou: "No melhor interesse do público, ao qual ambas as partes servem, sugerimos, e elas concordaram, em retomar as negociações enquanto o sindicato toma medidas no sentido de fazer seus membros retornarem ao trabalho."

O acordo, segundo várias pessoas próximas às negociações, que insistiram em manter o anonimato devido à situação delicada, dará a cada parte um pouco do que pediu.

Ele permitiria que o governador George E. Pataki salvasse as aparências porque as negociações finais só ocorrerão depois que os grevistas retornarem ao trabalho, e que o líder sindical Toussaint salvasse as aparências porque, segundo essas fontes, as exigências de aposentadoria da autoridade de transporte --a principal causa do impasse-- foram reduzidas significativamente.

Diante do avanço das negociações, o juiz da Suprema Corte Estadual Theodore T. Jones adiou uma audiência marcada para esta manhã sobre possíveis multas e penas de prisão para líderes sindicais conforme a Lei Taylor, que proíbe greves de funcionários públicos. A audiência foi remarcada para as 4 da tarde de hoje.

Em Albany [capital do Estado de Nova York], o governador Pataki comemorou o progresso e elogiou a Lei Taylor, que exige mediação quando se declara um impasse. "Estou feliz que a Lei Taylor, que define esse processo, foi seguida por ambos os lados e fez as coisas avançarem de maneira positiva", disse Pataki em entrevista coletiva na televisão.

Os usuários de transportes públicos, que tiveram de se deslocar do trabalho para casa e vice-versa de qualquer maneira possível, também se mostraram animados com as palavras do mediador. "É uma pequena vitória da sanidade, que é uma boa coisa nestes feriados de fim de ano", disse Guy Molinari, 44, que viaja diariamente entre Manhattan e o condado de Bergen, em New Jersey.

Curreri e outros dois mediadores foram indicados pelo Conselho de Relações do Funcionalismo Público na tarde de terça-feira depois que o sindicato declarou a greve às 3 da manhã daquele dia e a autoridade disse que as negociações haviam chegado a um impasse.

Curreri, diretor do conselho de conciliação, reuniu-se com advogados do sindicato naquela tarde. Ele convidou para ajudá-lo dois mediadores veteranos --Martin F. Scheinman, um antigo árbitro que já negociou muitos acordos trabalhistas, e Alan R. Viani, ex-negociador-chefe do DC 37, o maior sindicato de trabalhadores municipais de Nova York.

Os três se reuniram com cada um dos lados durante horas na quarta-feira, até a noite. O presidente do departamento de transportes, Peter S. Kalikow, e Toussaint participaram das conversas na quarta e na manhã de quinta-feira.

A maioria dos 6.300 vagões do metrô de Nova York foi colocada em túneis ou em pátios, lado a lado, desde o início da greve. Supervisores fizeram trens vazios percorrer as linhas para manter os trilhos polidos e evitar a ferrugem. Os 4.600 ônibus foram estacionados em 18 pátios.

Antes que os trens e os ônibus voltem a funcionar, os empregados terão de retomar seus turnos e inspecionar trilhos e sinais, vagões e ônibus.
Se todos os funcionários retornarem imediatamente no início de seu próximo turno, algumas linhas de metrô poderão voltar a funcionar oito horas depois que os gerentes e supervisores forem informados da suspensão da greve, disseram as autoridades.

A notícia é uma mudança abrupta em relação a quarta-feira, quando uma guerra de retórica em torno da greve entrou numa fase mais veemente e beligerante, em que Toussaint exigiu que questões difíceis da aposentadoria fossem retiradas da discussão para que os grevistas voltassem ao trabalho.

Mas o governador Pataki se uniu ao prefeito Michael R. Bloomberg, dizendo que os trabalhadores deviam encerrar a greve para que as negociações fossem retomadas, contrariando a posição anterior do departamento de transportes de que negociaria a qualquer momento.

Além dos desacordos sobre a aposentadoria, o sindicato e a MTA também tiveram divergências sobre benefícios de seguro-saúde. A autoridade havia exigido originalmente que os futuros trabalhadores dos transportes contribuíssem com 2% de seus salários para prêmios de saúde. Ela reduziu essa exigência para 1% vários dias antes do ultimato de greve, depois abandonou totalmente essa exigência, poucas horas antes da greve. Os atuais trabalhadores não pagam prêmios pelo plano de saúde básico do sindicato.

O sindicato de Toussaint disse repetidamente que não aceitaria um contrato que tratasse os futuros funcionários pior do que trata os atuais em relação a aposentadorias e seguro-saúde.

Várias pessoas próximas às negociações disseram esperar que os dois lados discutissem propostas para que o sindicato concorde que todos os trabalhadores do setor, atuais e futuros, paguem pelo seguro-saúde.
Dizendo várias vezes que quer reagir à onda de concessões exigidas pelas administrações de todo o país, Toussaint também insistiu que não aceitaria um contrato que exigisse o pagamento do seguro-saúde por todos os funcionários.

Na quarta-feira, a autoridade tomou a decisão altamente incomum de transmitir comerciais de televisão pedindo que os trabalhadores voltassem a suas funções.

Mesmo assim, havia evidências de uma disposição a um compromisso, pelo menos nos bastidores, enquanto ambos os lados se reuniam separadamente com os mediadores. Toussaint criticou o prefeito e o governador na quarta-feira pelo que chamou de uso de "linguagem insultante e ofensiva", aparentemente referindo-se à caracterização pelo prefeito da greve de 33.700 trabalhadores de metrô e ônibus como "egoísta" e "selvagem".

Em um discurso que revelou a posição frágil do sindicato --que já está sendo multado em US$ 1 milhão por dia-- Toussaint pareceu colocar o conflito em um contexto de justiça social. Ao descrever a luta de seu sindicato, formado principalmente por minorias, ele invocou o reverendo Martin Luther King e Rosa Parks, dizendo: "Existe um chamado maior que a lei. É a justiça e a igualdade".

O prefeito Bloomberg citou na quarta-feira as dificuldades provocadas pela greve: os negócios caíram 40% em alguns restaurantes e 60% em certas lojas; enfermeiros particulares não puderam atender seus clientes; pessoas que perderam quimioterapia e radiação; o centro de sangue de Nova York declarou estado de emergência; a freqüência a teatros e museus caiu; as multidões do Natal na Quinta Avenida estavam ralas.

Depois do primeiro dia de caos, havia sinais de que os sistemas estavam sendo sintonizados e as pessoas se adaptavam. Alguns trens de subúrbio passaram a saltar paradas para chegar mais rápido a Manhattan. Mas na quinta-feira o trânsito estava caótico, com longas filas em toda parte.

A greve de transportes, a primeira em 25 anos, começou às 3 da manhã de terça-feira quando as negociações entre o sindicato e a autoridade de transporte desandaram diante da exigência de última hora da autoridade de que todos os novos funcionários de transportes contribuíssem com 6% de seus salários para aposentadoria -- contra 2% que os atuais trabalhadores pagam.

Toussaint afirmou que pela lei estadual é ilegal a autoridade insistir em incluir uma exigência de pensão como parte de um acordo.
Na quarta-feira, o juiz Jones ordenou que os líderes sindicais comparecessem ao tribunal para enfrentar acusações de desobediência à autoridade e possivelmente a cadeia. Ele também aceitou considerar um pedido da cidade de uma ordem de restrição temporária, que poderia levar os grevistas e receber multas adicionais. O juiz Jones levantou a possibilidade de cadeia para a diretoria do sindicato.

"Estávamos preparados para retomar as negociações imediatamente", disse Toussaint. "Se a questão da aposentadoria fosse retirada da discussão, seria a base para pedirmos a nossos membros que voltassem ao trabalho."

*Colaboraram Matthew Sweeney, Michael Cooper, Janon Fisher, Thomas J. Lueck, Jesse McKinley, Colin Moynihan, Fernanda Santos, Shadi Rahimi e Timothy Williams. Moradores da maior cidade dos EUA tiveram de andar a pé, pedalar, pegar carona e sofrer engarrafamentos às 3h30 da madrugada para chegar ao trabalho desde a última terça Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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