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24/12/2005

Cientista sul-coreano demite-se após acusação de fraude em estudo sobre a clonagem

The New York Times
Choe Sang-Hun

Em Seul, Coréia do Sul
Um artigo científico importante sobre clonagem, que levou o cientista sul-coreano Hwang Woo Suk ao estrelato internacional, foi uma "fabricação intencional" orquestrada pelo Dr. Hwang, segundo anunciou um conselho universitário nesta sexta-feira (23/12).

Dr. Hwang renunciou ao cargo na universidade e pediu desculpas por suas ações.

A Universidade Nacional de Seul não só prometeu impor uma punição pesada ao Dr. Hwang --até recentemente tratado como herói nacional na Coréia do Sul-- mas também anunciou que investigará a veracidade de suas últimas conquistas. Esta foi a primeira evidência do que é considerada uma das mais sensacionais suspeitas de fraude na ciência nos últimos anos.

Entre seus avanços recentes, o mais proeminente foi a primeira clonagem de um cão no mundo, Snuppy, anunciada em agosto. A revista "Time" chamou o feito de invenção do ano de 2005.

O anúncio da universidade, que foi transmitido pela televisão, marcou a primeira confirmação de uma série de alegações que lançaram dúvidas em todos os supostos avanços científicos do Dr. Hwang. A universidade examinou os dados de seu laboratório e interrogou membros de sua equipe.

"Peço desculpas às pessoas pelo choque e desapontamento inenarráveis", disse o Dr. Hwang, cercado de estudantes em lágrimas. "Deixo o cargo de professor da Universidade Nacional de Seul."

No entanto, Hwang sustentou que tinha inventado a tecnologia necessária para clonar embriões humanos e produzir células-tronco geneticamente compatíveis aos pacientes. O feito, que nenhum outro cientista duplicou, poderia abrir caminho para o tratamento de doenças difíceis, como diabetes e Parkinson.

"A tecnologia de geração de células-tronco embriônicas específicas aos pacientes pertence à Coréia do Sul", disse o Dr. Hwang antes de deixar seu laboratório. "E vocês verão que isso é verdade."

O governo sul-coreano, que tinha patrocinado o Dr. Hwang como símbolo de seu movimento para conquistar terreno em biotecnologia, admitiu "dor esmagadora" hoje e disse que planejava suspender as bolsas de pesquisa para o cientista de 53 anos.

No entanto, o governo prometeu apoiar outros cientistas de células-tronco, "para não frustrar as esperanças das pessoas".

Com a fama do primeiro "Supremo Cientista" da Coréia Sul já desgastada, o anúncio roubou ainda mais a confiança entre sul-coreanos, que investiram muito orgulho nacional no Dr. Hwang e em sua pesquisa com células-tronco. O governo queria estabelecer essa tecnologia para uso industrial lucrativo.

Defensores de Hwang, inclusive alguns pacientes, insistiram que ele deveria receber uma segunda chance. Eles estão programando vigílias com velas em seu nome em Seul e em cidades da província no sábado.

Apesar de o Dr. Hwang ter retirado seu artigo da revista científica Science, citando "erros humanos", o diretor de pesquisa da Universidade Nacional de Seul, Roe Jung Hye disse na conferência com a imprensa que os dados errados "não foram acidentais, mas intencionalmente fabricados".

Roe alegou que. Hwang havia criado apenas duas linhagens de células-tronco até dia 15 de março, quando submeteu seu artigo à Science. No entanto, criou dados de marcadores de DNA e outros para fazer parecer como se tivesse produzido 11 linhagens que se encaixavam geneticamente aos pacientes. O artigo foi publicado em junho.

"Isso é um erro de conduta grave que prejudica a fundação da ciência", disse Dr. Roe.

Os avanços divulgados pelo Dr. Hwang vieram com uma velocidade que impressionou o mundo. Em um artigo de fevereiro de 2004, na Science, ele alegou ser o primeiro a clonar um embrião humano transferindo um núcleo de célula adulta a um óvulo e extraindo daí uma linhagem celular. Ele usou 242 óvulos para criar uma única linhagem.

No artigo de junho, Dr. Hwang disse que não só tinha produzido 11 linhagens de células-tronco, cada uma clonada de um paciente diferente, mas também aprimorado muito sua técnica, utilizando apenas 185 óvulos. Em um artigo de agosto da revista "Nature", de Londres, Dr. Hwang revelou Snuppy, um afghan hound clonado.

"Acreditamos que o número de óvulos utilizado foi muito maior", disse o Dr. Roe.

Roh Sung Il, ex-colaborador do Dr. Hwang, disse que este pode ter usado até 1.100 óvulos só para seu artigo de junho.

"Não seria possível uma fabricação (de dados) sem a intervenção do Dr. Hwang", disse Dr. Roe. "Ele admitiu isso parcialmente, e nossa conclusão é baseada em testemunhos de outros pesquisadores. Dr. Hwang não pode deixar de assumir grande responsabilidade", acrescentou.

O conselho de nove membros investigou se alguma célula-tronco no laboratório do Dr. Hwang de fato foi gerada por clonagem ou se não eram células ordinárias extraídas de embriões de uma clínica de fertilidade. Esse trabalho incluiu a verificação de autenticidade do artigo de 2004 e de Snuppy, disse Dr. Roe.

As revistas "Science", "Nature" e outras estão revendo as publicações anteriores do Dr. Hwang e seus colegas. Especialistas e defensores da clonagem disseram temer que a queda do Dr. Hwang danifique a imagem de um campo que já é controverso.

"Lembro claramente do dia em que o Dr. Hwang conheceu meu filho, em abril de 2004", disse o reverendo Kim Je Eun, pastor metodista cujo filho de 10 anos usa uma cadeira de rodas depois de um acidente de carro. "Meu filho perguntou: 'Doutor, o senhor pode me fazer levantar e andar novamente?' E ele respondeu: 'Você andará novamente, prometo'", disse o pastor Kim, cujo filho foi um dos 11 pacientes divulgados no artigo de junho. "Para mim, o Dr. Hwang parecia uma daquelas chances que aparecem uma vez a cada mil anos."

"Agora estou extremamente desnorteado", disse o pastor Kim, depois de uma pausa. "Mas ainda acredito que o Dr. Hwang tem a tecnologia fundamental ou que está muito próximo de dominar essa tecnologia. Não devemos abandonar o pesquisador ou seu talento."

Um grupo de jovens cientistas que ajudou a revelar falhas nos artigos do Dr. Hwang por um site da Web freqüentado por estudantes emitiu uma declaração dizendo que qualquer perdão neste caso levaria a maior dano à credibilidade dos cientistas sul-coreanos.

"A expulsão de Hwang não interrompe a pesquisa de células-tronco na Coréia do Sul", disse a declaração. "A Coréia do Sul tem muitos pesquisadores na área."

A ascensão do Dr. Hwang a partir de uma origem camponesa para a fama internacional muitas vezes foi atribuída à abertura dos sul-coreanos a novas tecnologias e seu desejo quase obsessivo e ferozmente nacionalista de se tornar número 1 do mundo --como exemplificado pelos chips de computadores e pela indústria de construção de navios.

No entanto, Han Jae Kak, coordenador de política para o Partido Trabalhista Democrático, da oposição, disse que "a ênfase excessiva em conquistas rápidas" dos sul-coreanos e sua "necessidade de um herói em uma época de incerteza econômica ajudaram a tornar Dr. Hwang o que ele é hoje".

"O governo dependia de Hwang para justificar sua política de apoio à clonagem", disse Han. Desde 1998, o governo deu à equipe de Hwang cerca de US$ 65 milhões (em torno de R$ 150 milhões) em fundos de pesquisa. "O apoio popular foi total", disse Han. "As pessoas não deram ouvidos a suspeitas sobre Hwang."

Han, um dos primeiros a questionarem o trabalho, acrescentou: "De certa forma, estamos todos caçando uma ilusão de ótica." Deborah Weinberg

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