UOL Notícias Internacional
 

24/12/2005

Onde foram parar as megabombas do cinema?

The New York Times
A. O. Scott

Crítico de cinema do NYT
Aconteceu no último verão americano, com o ar sobrecarregado de ansiedade devido a uma aparente queda abrupta na bilheteria dos cinemas, com jornalistas e executivos de estúdio tentando entender porque parecia que menos pessoas estavam freqüentando as salas. A explicação mais óbvia --ou pelo menos a que achei mais razoável na época-- era a de que os filmes não eram bons o bastante.

Mas agora que a temporada de elaboração de listas e especulação sobre prêmios está entre nós e diminuiu toda aquela polêmica sobre queda na bilheteria, eu me acho preocupado com uma questão levemente diferente, mas que tem algo a ver com tudo isso: E se o problema com Hollywood hoje em dia está no fato de que os filmes não são tão ruins como poderiam ser?

Warner Brothers Pictures via The New York Times 
"Batman Begins" é um filme típico de 2005: não empolga nem chega a ser medíocre

Isso não quer dizer que não há filmes ruins o bastante. Pelo contrário. Nunca há escassez desse artigo, pode haver até mesmo abundância. O número de filmes criticados por The New York Times --os que são lançados em Nova York-- cresce a cada ano; em 2005 o número chegará a 600.

Se considerarmos que tanto esforço humano esteja condenado à mediocridade --e gostem ou não, nós passamos a maior parte de nossas vidas num território mediano, amplo e indistinto da Curva de Bell-- não chega a surpreender que muitas dessas produções não sejam mesmo muito boas. Mas os filmes realmente ruins são aqueles que ostentam uma distinção especial, que se tornam membros de um clube do cânone negativo, num sétimo céu das anti-obras primas. É esse tipo de filme ruim --o desastre, a catástrofe, o desastre artístico profundo e absoluto-- que parece estar em fase de escassez.

E essa não é uma notícia boa.

Desastres e obras-primas, afinal de contas, freqüentemente surgem dos mesmos impulsos: uma ambição extravagante aqui, um risco irracional acolá, puro desplante, e uma sinérgica mistura de vaidade, antevisão e auto-engano. O menor erro de cálculo da parte do artista --ou da platéia-- pode fazer toda a diferença entre a adulação e a pixação mais debochada.

Sendo assim, nesse império das realizações criativas, o pior não é apenas o oposto do melhor, mas também é seu vizinho. Nesse ano já surgiram vários candidatos para a lista dos 10 Menos (ou 30 ou 100 Menos), mas receio que nenhum dos filmes ruins seja realmente merecedor do título de "o pior". E isso pode explicar por que também há tão poucos que merecem ser chamados de melhores.

A linha estreita que separa o terrível fracasso do sucesso estrondoso é o tema de "Os Produtores", que é bem exemplo de um desses filmes não-ruins-o-bastante do ano. Num certo momento do filme, os picaretas Max Bialystock e Leo Bloom, num raro momento de clarividência, sentam num escritório lotado de roteiros, devorando páginas numa busca obstinada pela peça mais horrorosa que possam encontrar. O plano deles de fazer uma fortuna rápida, persuadindo velhas ricas a financiarem uma "bomba", depende de encontrar um show que não seja apenas uma droga, mas que seja também algo terrível em dimensões transcendentais, históricas e mundiais.

Mas o fracasso tão cuidadosamente planejado... fracassa: na noite de abertura de "Primavera para Hitler", a reprovação da platéia se transforma em deleite, quando o desajeitado exercício de apologia ao nazismo se transforma numa paródia inspirada, e o show vira um sucesso.

Não chegam a ser maravilhosos nem terríveis

Mas esse tipo de ambição que tanto pode levar à grandeza quanto à baixeza não é algo que Hollywood tenha muito interesse em estimular por esses dias.

Os desastres históricos no passado cinematográfico --"Showgirls" "Heaven's Gate" (Portal do Paraíso) e "Duelo ao Sol"-- todos demonstram uma centelha de loucura que os mantém bem vivos na nossa memória.

Um dos poucos filmes recentes que parecem pertencer a esse clube é o "Alexandre", de Oliver Stone, que inegavelmente é o registro da obsessão de seu realizador (e até um certo ponto a identificação) com o herói conquistador do mundo mostrado no filme.

A estrutura narrativa não faz sentido; a motivação dos personagens principais é ao mesmo tempo enfatizada ao extremo e absurdamente opaca; é longo demais, ornado demais, verborrágico demais --tudo em excesso. Mas ninguém será capaz de chamá-lo de medíocre, ou acusar Stone de preguiça, indiferença ou de falta de envolvimento no projeto.

Ao compartilhar o excesso de confiança de seu herói e se atrapalhando no processo, "Alexandre" se apresenta como uma anomalia da atualidade. Pois é muito mais comum ver filmes ambiciosos que parecem amarrados pelo excesso de precaução, com seus apelos mais ousados submetidos ao pudor, devido às exigências das convenções.

"Gangues de Nova York" de Martin Scorsese, por exemplo, é um projeto tão intimamente ligado ao coração fanático de seu realizador quanto "Alexandre". Ali há muita ambição e grandiosidade, mas o que impede o filme de decolar é o enxerto de um caso amoroso típico de estrelas de cinema em sua caudalosa demonstração de violentas mudanças sociais. Fica difícil se envolver com os protagonistas românticos, mas mesmo assim a trama deles é levada ao primeiro plano, obscurecendo e truncando o esforço audaz do diretor para reanimar as sensibilidades históricas da tradição de um John Ford ou de um Luchino Visconti na paisagem urbana dos Estados Unidos no século 19.

É certamente possível que, se Scorsese tivesse instalado a história real no centro de sua trama, "Gangues de Nova York" poderia ter sido um épico canhestro da grandeza de um "Portal do Paraíso" (de Michael Cimino).

Mas "Gangues", do jeito que foi lançado, nunca correspondeu ao risco de suas intenções grandiosas e talvez incipientes. O filme fincou sua bandeira num território intermediário e foi recebido basicamente com um misto de suave decepção e admiração técnica.

Uma reação similar --embora a decepção tenha sido mais intensa e a admiração mais mal humorada-- foi o resultado obtido por "Elizabethtown" de Cameron Crowe, que talvez tenha sido nesse ano o melhor exemplo de um filme que simultaneamente não chegou a ser nem tão maravilhoso nem tão terrível como poderia ter sido.

As primeiras críticas dos que viram o filmes nos festivais de Veneza e Toronto relataram que o filme era um tremendo equívoco, um engano de lascar, mas até que assistível. Com um corte de cerca de 20 minutos, a versão que chegou aos cinemas há alguns meses era medíocre e confusa, com alguns lances de inspiração e longas seqüências de enche-linguiça.

Uma parábola sobre fracasso e redenção --onde a falta de motivação profissional do herói é seguida pela descoberta de uma nova e excêntrica família postiça e também por um novo romance-- "Elizabethtown" patina num terreno mediano entre os tais elementos, esticando uma comédia romântica apenas adequada e suavizando a mistura empática de farsa e observação social.

Evitando o risco

E essa busca da adequação está em primeiro plano nos filmes de hoje em dia: eles devem ter sabor bem marcado, devem ser familiares e sem riscos. Vem daí que o fracasso desses filmes acaba sendo tão desinteressante quanto o sucesso deles.

"Memórias de uma Gueixa", por exemplo, é bem bonito de se ver, mas também se torna monótono e cansativo, e só de imaginar como ele poderia ser mais lapidado --com mais paixão, mais loucura e uma investigação mais profunda da política sexual do mundo das gueixas-- poderíamos avistar a possibilidade de um autêntico "Showgirls" kabuki.

"Memórias" nunca se eleva ao estado exaltado e operístico dos grandes melodramas porque evita cuidadosamente o risco de ser camp. A única seqüência verdadeiramente memorável --onde Gong Li, perturbada e de olhos arregalados, incendeia uma casa de gueixas-- simboliza exatamente o que o filme se recusa a fazer, ou seja, enlouquecer e correr o risco de se atrapalhar.

E Hollywood, que já foi conhecida pelos excessos, chega agora ao ponto de abominar a insensatez. O que os franceses chamam de folies de grandeur --trabalhos feitos de loucura megalomaníaca, excessivos, barrocos, de estourar o orçamento-- corre o risco de extinção.

Aventuras clássicas construídas com imprudência visionária --lembrem-se de Francis Ford Coppola gastando meses (e milhões) nas selvas das Filipinas produzindo "Apocalypse Now", de Warren Beatty e Dustin Hoffman encarando o deserto em busca do "Ishtar" de Elaine May, de Brian De Palma queimando dinheiro e luz diurna na "Fogueira das Vaidades"-- já têm a auréola de lendas antigas. E também são consideradas, dentro e fora da indústria cinematográfica, como aventuras a serem evitadas. Há um consenso geral de que no negócio é melhor ser disciplinado, responsável e prático.

Mas o que dizer das platéias?

Como as grand follies estão condenadas à extinção, também perigam aqueles prazeres culpados, debochados e ligados ao trash, que costumavam emergir com certa regularidade quando víamos a produção classe B desse gênero de entretenimento.

Aqueles filmes ruins tão cultuados --feitos de "defeitos especiais", interpretações catastróficas e argumentos ridículos-- que eram exibidos com crueza e entusiasmo nos drive-ins e poeiras no território do cinema-B, incluindo ficção científica e quadrinhos em particular, mas também desenhos infantis e filmes de horror, agora dominam a lista das produções classe A, quem diria. São filmes que recebem os maiores orçamentos e as maiores atenções dos departamentos de pesquisa de mercado e de controle de qualidade das empresas produtoras.

Há exceções à regra de sensatez, como a franquia bagaceira de "Saw" (Jogos Mortais) e de "Final Destination" (Premonição), filmes de horror para adolescentes. E há também alguns arrasa-quarteirões de determinados gêneros --"O Senhor dos Anéis" em especial-- que atingem um patamar de grandeza.

Mas na maioria dos casos, as extravagâncias do passado se converteram em mediocridades estelares, caras e exaustivamente divulgadas, que cuidadosamente equilibram novidade e mesmice. "Batman Begins", "Quarteto Fantástico", "O Galinho Chicken Little", "Madagascar", "Plano de Vôo" e "Ameaça Invisível -Stealth" --a lista é enorme, incluindo todos esses filmes que não são ótimos nem terríveis, e que também não compensaram o dinheiro que neles foi investido.

Claro que ser adequado não é nada mau. Na maior parte dos estúdios de Hollywood, ao menos, os padrões técnicos são altos de maneira geral, em parte porque os orçamentos também são altos. Cinqüenta ou cem milhões de dólares podem comprar muita competência. Num típico produto de estúdio, o roteiro irá seguir sem sobressaltos, a trilha sonora estará recheada de agradáveis canções pop, as estrelas terão um visual agradável, a luz irá realçá-los e uma revisão digital irá neutralizar qualquer infelicidade pendente.

Eva Mendes e Will Smith têm uma aparência ótima em "Hitch", assim como Manhattan, que também parece bem agradável no recente "Prime". Os robôs de "Robots" tem um lustre tão vistoso quanto as penas do "Galinho Chicken Little", e os espectadores mais precoces terão prazer em identificar as estrelas de cinema que dublam as vozes engraçadas.

Você não verá mais fios aparentes ou o boom do microfone vazando no alto da tela, e se for sortudo ainda ouvirá de novo James Brown em seu surrado "I Feel Good." O roteiro já terá sido devidamente trabalhado por um verdadeiro comitê, e mais tarde outro comitê irá se esfalfar na ilha de edição após colher os resultados das exibições para grupos testados.

Nesse clima, os bons filmes tendem a ser filmes pequenos. Cada vez mais os estúdios delegam a ambição artística às suas divisões de produtos especiais, que têm orçamento modesto para produções sofisticadas, e as melhores delas ostentam a marca de exercícios de um cineasta sem maiores compromissos.

A cada ano são esses filmes --a safra atual inclui "Brokeback Mountain", "Boa Noite e Boa Sorte", "Capote" e "A Lula e a Baleia"-- que lotam as listas de final de ano e as especulações pré-Oscar por parte dos críticos.

Bom para eles. Mas para nós, nem tanto. Há cada vez menos filmes em produção que possam nos remeter ao estado de sair do cinema chocado e coçando os olhos, perguntando "Caramba, que diabos foi isso?" ou exigindo o dinheiro do ingresso de volta. E, precisamente pela mesma razão, cada vez menos temos a emoção de sair surpresos e excitados, prontos para rever o filme e incapazes de esquecer o que acabamos de assistir. O problema com Hollywood hoje em dia pode ser o fato de que os filmes não são tão ruins como poderiam ser Marcelo Godoy

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