UOL Notícias Internacional
 

25/12/2005

Algumas grandes mudanças, maioria para melhor

The New York Times
Manohla Dargis

Crítico do cinema do NYT
A lista é grande: "Batman Begins", "De Tanto Bater o Meu Coração Parou", "Capote", "Darwin's Nightmare", "Duma", "Enron: The Smartest Guys in the Room", "O Virgem de 40 Anos", "Funny Ha Ha", "Terra dos Mortos", "Boa Noite e Boa Sorte", "Grizzly Man", "Head-On", "La Niña Santa", "O Castelo Animado", "Em Seu Lugar", "Keane", "Match Point", "Caiu do Céu", "Mondovino", "Mistérios da Carne", "No Direction Home: Bob Dylan", "Police Beat", "Pulse", "Vôo Noturno", "Rize", "A Lula e a Baleia", "The Sun", "Syriana", "The Talent Given Us", "Los Tres Entierros de Melquiades Estrada", "Three Times", "Tony Takitani", "Tropical Malady", "Esperando as Nuvens", "Wallace & Gromit - A Batalha dos Vegetais", "Who's Camus Anyway?" e "O Novo Mundo".

Este foi um bom ano para o cinema ou não?

Enquanto os críticos do setor se ocuparam com análises derrotistas, relatos de uma discutível queda nas bilheterias e prognósticos sobre a redução do período entre o lançamento dos filmes e sua chegada às videolocadoras, muitos cinéfilos desfrutaram um ano de filmes excepcionais.

Não conheço nenhum crítico de cinema que tenha achado fácil resumir as ofertas deste ano a apenas dez títulos, e por isso muitos deles enumeraram uma dúzia de favoritos, às vezes mais. Enquanto as previsões derrotistas sugerem que algo importante está acontecendo na indústria cinematográfica americana, também está claro que os que passam muito tempo no escuro, incluindo a maioria dos observadores do setor, não têm idéia do futuro que aguarda o cinema.

Steven Soderbergh acredita que estamos no meio de uma mudança de paradigma. "A economia não funciona", ele disse em setembro, enquanto promovia seu último filme, "Bubble", no Festival Internacional de Toronto.

"Todo mundo dos dois lados, de alto a baixo, precisa repensar a questão da compensação e participação. Isso simplesmente tinha de ser recalculado. Os filmes custam caro demais. As pessoas estão ganhando demais. E um dólar deveria ser um dólar, na minha opinião, não importa de onde venha. Tudo precisa ser repensado. E isso já está começando a acontecer. Já há acordos que reconhecem o fato de que o esquema está falido. Mas não sei se veremos isso mudar num sentido amplo antes da mudança digital."

Essa mudança digital certamente fará parte dessa mudança de paradigma, que abrange o modo como os filmes são produzidos --as novas tecnologias, os complexos acordos financeiros-- e como são consumidos.

Em novembro, Jeff Robinov, presidente de produção da Warner Brothers Pictures, que financiou um dos filmes mais badalados de Soderbergh ("Doze Homens e Outro Segredo"), disse a Laura M. Holson, de The New York Times: "Alguma coisa está mudando na experiência do cinema. É a pirataria? São os comerciais? É a disponibilidade de filmes? Ou não estamos criando coisas suficientes para tirar as pessoas de casa? Meu maior medo é fazer um filme que merece ser visto, mas não é".

Seja qual for sua opinião sobre a situação da arte e a saúde da indústria, é inegável que a experiência de ir ao cinema mudou tão radicalmente quanto nossa percepção do significado dos filmes para nossas vidas. As notícias sobre entretenimento hoje ocupam um lugar cada vez mais proeminente na cultura, notadamente na grande imprensa, enquanto os filmes em si parecem cada vez menos relevantes para a cultura, por mais que os cineastas se esforcem.

É difícil saber o que fazer desse estado de coisas, mas como os filmes sobreviveram a ameaçaas anteriores como a introdução do som, a televisão e a ruptura forçada pelo governo do sistema de estúdios, há esperanças de que eles sobrevivam a toda essa atenção da mídia, antiga e nova, cuja maior parte, aliás, tem pouco a ver com a qualidade dos filmes.

Para alguns, Hollywood continua sendo a culpada por tudo o que dá errado com os filmes americanos, mas a mesma companhia que pagou "King Kong", a NBC Universal, está por trás de "Brokeback Mountain". O filme de Ang Lee conseguiu apoio do estúdio em parte porque era o momento certo para essa história e em parte porque o movimento de cinema independente dos anos 90, embora de vida breve, forneceu sangue novo para Hollywood.

Afinal, "Batman Begins" foi dirigido por Christopher Nolan, que também fez o filme "cult" independente "Memento", enquanto o interesse amoroso em "O Virgem de 40 Anos" é Catherine Keener, uma deusa dos filmes independentes. Cineastas independentes genuínos como Andrew Bujalski ("Funny Ha Ha") enfrentam um momento brutal no mercado, mas os problemas que levaram os cineastas a editar seus filmes em computador hoje os fazem distribuí-los por computador: você pode comprar o último trabalho de Bujalski, "Mutual Appreciation", em www.mutualappreciation.com.

A brutalidade desse mercado também significa que hoje os amantes do cinema, especialmente os que vivem fora dos principais mercados, muitas vezes têm de trabalhar mais e esperar mais do que gostariam para ver coisas boas, mas elas estão aí --se não necessariamente nos multiplex, em festivais, videoclubes, aluguel por correspondência e companhias online que vendem filmes do mundo todo.

O cinéfilo dedicado tem mais e talvez melhores opções do que em qualquer outra época da história. Isso é especialmente verdadeiro se você mora em Nova York ou na maioria das grandes cidades. Nesse caso, não culpe Hollywood se você não assistiu a "Marcas da Violência" ou qualquer dos melhores filmes do ano. Ninguém encostou uma arma na sua cabeça e o obrigou a assistir a "King Kong".

Aqui estão meus melhores filmes do ano, sem uma ordem particular:
A primeira vez que vi "Marcas da Violência", do grande diretor canadense David Cronenberg, foi no Festival de Cannes, onde foi exibido na competição.

Na primeira projeção para a imprensa, um cinéfilo europeu furioso censurou os membros da platéia que riram durante o filme, acreditando erroneamente que não estavam dando o devido respeito a essa história sobre um pai de família do interior, interpretado brilhantemente por Viggo Mortensen, cujo passado violento o persegue com uma vingança. O fato de muitos dos que riram mais alto serem americanos mostrava nosso reconhecimento de que o pastoral e provinciano Cronenberg havia criado ao mesmo tempo um filme de fantasia e terrivelmente real. Nosso riso foi tanto o do cidadão perturbado quanto o do amante de cinema aprovador.

Se Heath Ledger chamou tanta atenção por sua atuação em "Brokeback Mountain" é em parte porque ele finalmente atingiu seu potencial tão anunciado no início e em parte porque seu personagem na tragédia romântica de Ang Lee, Ennis Del Mar, representa o tipo de masculinidade contida que muitos de nós identificamos: não conheço uma única mulher hetero que não tenha se envolvido com um homem tão retorcido emocionalmente quanto Ennis, o homem que não consegue dizer o que sente porque talvez sinceramente não saiba.

E como o filme é, em muitos aspectos, sobre a dificuldade de se viver numa cultura que pune os homens que dão a impressão de ser moles demais, fracos e femininos, imagino que muitos homens, gays e heteros, também reconheçam Ennis.

Ao contrário dele, o Jack Twist com olhos de gazela de Jake Gyllenhaal veste o desejo tão abertamente quanto o sofrimento. Sem seu desempenho sensível, sem sua dor e sua sensualidade, "Brokeback Mountain" não funcionaria tão bem.

A beleza do trabalho fica totalmente evidente na cena em que Jack, mais velho, lembra quando Ennis o abraçou delicadamente no primeiro verão que os dois passaram juntos. É um momento devastador, porque justapõe o passado idílico dos dois a seu presente difícil, e porque nos lembra de que nossas memórias vivem dentro de nós como promessas, censuras e fantasmas. Quando a cena volta ao presente, você vê no rosto daquele homem uma vida inteira de esperança se mesclar a uma vida inteira de decepção, assim como o início do fim dos amantes.

No cinema dos meus sonhos, eu colocaria dois filmes dos mais ousados do ano, "Caché", de Michael Haneke, e "Munique", de Steven Spielberg, num programa duplo. (Nesse cinema você também poderia comprar cerveja, de que realmente precisaria para assistir aos dois filmes.)

Ambos são explorações do tema mais fascinante dos filmes inteligentes deste ano: o retorno dos reprimidos. "Caché" explora o custo pessoal do envolvimento da França na Argélia; "Munique" acompanha a reação de Israel ao assassinato de seus atletas nas Olimpíadas de 1972. O diretor francês Philippe Garrel aborda o mesmo tema em "Les Amants Réguliers", voltando a maio de 1968. Esse filme terno, maravilhoso, que foi exibido no Festival de Nova York, termina com uma nota de terrível desespero político, que é contrabalançado pela arte de Garrel.

Entre as maiores surpresas do ano está o triunfo comprometido de Terrence Malick, "O Novo Mundo", que embora seja demasiado longo e sobrecarregado de Colin Farrell é um trabalho de ambição e beleza surpreendentes. "Reis e Rainha", de Arnaud Desplechin, dá novas provas de que esse diretor francês é um dos mais interessantes cineastas em atividade; "2046", de Wong Kar-wai, prova mais uma vez que o diretor de Hong Kong está entre os maiores.

O elegíaco "Last Days", de Gus Van Sant, confirma que o diretor está num excelente segundo ato. O divertidíssimo "Princess Raccoon", do mestre japonês Seijun Suzuki, me proporcionou duas horas das mais felizes no cinema este ano. Esse filme sobre uma aventurosa guaxinim (a deliciosa Ziyi Zhang) esvaziou metade do cinema em Cannes, mas sua loucura é pura alegria. Enquanto os críticos fazem análises derrotistas e relatos de uma discutível queda nas bilheterias, muitos cinéfilos desfrutaram um ano de filmes excepcionais Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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