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25/12/2005

Caubóis apaixonados e ursos famintos sob o céu

The New York Times
Stephen Holden

Crítico de cinema do NYT
Ansiedade que se transforma em medo e medo que se transforma em paranóia; o passado esmurrando a porta do presente como um fantasma vingativo: enquanto profecias calamitosas vazavam para os filmes em 2005, às vezes parecia que os furacões que arrasaram a Costa do Golfo e a Flórida tivessem rasgado o telhado que separa o cinema da realidade, deixando entrar uma chuva ácida.

Uma parábola sobrecarregada sobre a era do roubo de identidades, "Marcas da Violência", perfurou o sonho americano da auto-reinvenção, sugerindo que um passado de vício inevitavelmente persegue o tranqüilo presente. Em "Caché", a história colonialista de uma cultura se ergue para assombrá-la como um pesadelo de culpa do qual é impossível despertar.

"Munique" enfoca a interminável cadeia de vingança no Oriente Médio. "Syriana" e "O Jardineiro Fiel" imaginam redes corruptas mundiais de conivência entre empresas e governos. "Boa Noite e Boa Sorte" e "Crash" examinam a paranóia política e racial na vida americana. Até histórias pessoais como "Brokeback Mountain" e "Junebug" são entremeadas de segredo, medo e xenofobia.

Abaixo estão meus dez melhores filmes de 2005 e dez segundos colocados (em ordem alfabética pelo título original).

"Brokeback Mountain"

A fiel adaptação por Ang Lee da história de Annie Proulx sobre dois peões de fazenda (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal) que se apaixonam enquanto pastoreiam carneiros no verão nas altas planícies do Wyoming é um marco cinematográfico que expõe o subtexto homoerótico em diversos filmes de caubóis e de companheiros. Lindamente escrito (por Larry McMurtry e Diana Ossana), visualmente majestoso, discreto e comovente, ele evoca o mesmo frio solitário alojado na alma do vasto interior que inspirou o clássico "A Última Sessão de Cinema". O retrato feito por Ledger do taciturno e atormentado Ennis Del Mar, que se casa e tem duas filhas enquanto mantém um caso homossexual secreto, é o tipo de atuação devastadora que James Dean poderia ter oferecido se tivesse vivido o suficiente.

"Caché"

No drama gélido de Michael Haneke, com um suspense quase intolerável, o conforto privilegiado de um apresentador de televisão de Paris (Daniel Auteuil) e sua mulher (Juliette Binoche), uma editora de livros, é destruído quando o casal, que tem um filho de 12 anos, começa a receber fitas de vigilância anônimas de sua casa, seguidas de desenhos de uma criança ensangüentada. A tentativa desesperada do marido de localizar o algoz leva à revelação de um vergonhoso segredo de família ligado à guerra franco-argelina, décadas atrás. Haneke, um cineasta australiano que trabalha na França, é um cirurgião cultural impiedoso que gosta de operar sem anestesia enquanto descobre os temores mais obscuros de uma sociedade burguesa complacente.

"Nine Lives"

A série de vinhetas de Rodrigo Garcia gira em torno de nove mulheres com uma riqueza e uma sutileza dignas de Chekhov. Embora algumas das histórias sejam interligadas e outras não, coletivamente elas formam uma abrangente contemplação da vida moderna e sua complexidade. Amor, casamento, paternidade, doença, morte e memória são evocadas em contos que se desenrolam em tempo real, sem o fecho narrativo convencional. A atuação de um elenco que inclui Robin Wright Penn, Sissy Spacek, Holly Hunter, Glenn Close e Kathy Baker é extraordinária.

"Nine Lives - Fugindo do Passado", que entrou e saiu de cartaz sem chamar atenção, é uma obra-prima triste e silenciosa à espera de ser descoberta em DVD.

"Marcas da Violência"

O diretor canadense David Cronenberg tem uma compreensão assustadora de onde o terror se mistura ao desejo, a violência à catarse, e uma visão canadense dos EUA como um lugar onde a violência é uma infecção geneticamente semeada na cultura e passada de geração a geração. Aqui ele insere essa idéia em uma viagem cinematográfica emocionante que testa a cumplicidade do público.

Viggo Mortensen é o dono de um pequeno restaurante que vive com a família em uma cidade perfeita de Indiana, cuja placidez é perturbada quando bandidos ameaçadores da cidade grande, convencidos de que ele é um gângster da Filadélfia que os traiu anos antes, percorrem a cidade num grande carro preto. Ele foi em outra vida o assassino que eles afirmam reconhecer? Ou é um caso de identidade trocada?

"Grizzly Man"

O retrato documental feito por Werner Herzog de Timothy Treadwell, que passou 13 anos vivendo com ursos no Alasca, onde se tornou seu protetor, é uma visão dura da desconexão entre a vida humana e o mundo natural.

Treadwell, um ator fracassado, tornou-se cada vez mais messiânico enquanto vivia na natureza, onde deu aos animais nomes de mascotes e se imaginou seu amigo, até que ele e sua namorada foram atacados e comidos por um urso. A maior parte do filme consiste em filmes feitos pelo próprio Treadwell mostrando a si mesmo com as feras. O documentário é um antídoto prático para "A Marcha dos Pingüins", o documentário antropomórfico sentimental que se tornou o maior sucesso-surpresa da temporada.

"A Queda"

O épico de Oliver Hirschbiegel sobre os últimos dias de Hitler no bunker em Berlim onde ele se suicidou é um dos filmes de guerra mais poderosos já feitos. Baseado no livro de Joachim Fest e nas memórias da secretária de Hitler, Traudl Junge, o filme parece autêntico, desde as terríveis cenas de batalha (filmadas nas ruas de São Petersburgo, Rússia) até o retrato do ditador iludido e furioso.

O surpreendente retrato de Hitler feito por Bruno Ganz é grandioso, paranóico e abjeto, um monstro, mas reconhecidamente humano. A força de seu desempenho se equipara ao de Corinna Harfouch como Magda Goebbels, que envenena os próprios filhos para que não tenham de crescer num mundo sem nazismo.

"Look at Me"

O filme da diretora francesa Agnes Jaoui capta o mundo narcisista, carreirista e sicofanta da "intelligentsia" parisiense, embora pudesse igualmente ser os salões de Nova York. Jean-Pierre Bacri é um autor famoso, casado pela segunda vez, que é egocêntrico demais para se importar com sua filha de 20 anos, gorda e solitária, Lolita (Marilou Berry), que busca desesperadamente sua aprovação. Alternadamente pungente e ácida, a comédia de maneiras urbana e contemporânea é uma observação perfeita.

"Junebug"

Uma sofisticada comerciante de arte de Chicago (Embeth Davidtz), recém-casada com um garoto de ouro do sul (Alessandro Nivola) que fugiu das garras da família, volta com ele para visitar sua família de hábitos religiosos no interior da Carolina do Norte e tem uma recepção polida mas desconfiada.

A rivalidade entre irmãos, a possessividade materna e uma mentalidade de clã sufocante tornam tenso o confronto entre a América cosmopolita e a provinciana, em uma casa onde reinam os valores familiares. Amy Adams, como a cunhada infantil da marchande, faz um retrato incandescente do único membro da família com um coração realmente aberto.

"Saraband"

Na seqüência da obra-prima de Ingmar Bergman, "Cenas de um Casamento", o conflituoso casal Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) se encontra 30 anos depois quando ela impulsivamente visita a casa de verão dele no meio da floresta. Ali ela presencia uma brutal disputa de poder entre Johan e seu filho fracassado, Henrik, pelo controle da filha de Henrik, uma bela e talentosa violoncelista. Ullmann e Josephson estão magníficos como sempre. A visão freudiana de Bergman, de um frio nórdico e assustador, não mudou nada.

"A Lula e a Baleia"

O divórcio no estilo do Brooklyn dos anos 80 é o tema do filme de Noah Baumbach, uma observação aguda e semi-autobiográfica da explosão do casamento entre um escritor e professor egoísta (Jeff Daniels) e sua mulher (Laura Linney), uma escritora aspirante cuja carreira está florescendo. Presenciada por seu filho de 16 anos, inteligente e conturbado, o mais velho de dois meninos, a dinâmica emocional da família é tão agressiva que faz as brigas domésticas de Woody Allen parecerem brincadeira.

SEGUNDOS LUGARES:

"De Tanto Bater o Meu Coração Parou", "Capote", "O Jardineiro Fiel", "Crash", "Boa Noite e Boa Sorte", "The Intruder", "Munique", "Mistérios da Carne", "Syriana", "Los Tres Entierros de Melquiades Estrada". Veja lista dos dez melhores filmes produzidos em 2005 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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