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25/12/2005

Roma em seis horas e quatro décadas

The New York Times
A. O. Scott

Crítico de cinema do NYT
Esta lista não pretende ser uma profecia nem um resumo. É impossível prever quais dos muitos bons filmes lançados em 2005 ainda chamarão nossa atenção daqui a dez anos --ou mesmo dez semanas. Os títulos abaixo tampouco representam, na minha opinião, quaisquer tendências importantes no cinema mundial.

Muitos deles pertencem ao ano que está terminando por mero acaso, já que participaram de festivais muito antes de suas temporadas (geralmente curtas) nos cinemas americanos. O que eles têm em comum é simplesmente o fato de que gostei deles, que cada um me fez temporariamente esquecer minhas preocupações críticas e experimentar a absorção e a surpresa que um dia me levaram a querer ser um crítico de cinema.

Nenhum filme fez isso de modo tão poderoso ou completo quanto "O Melhor da Juventude", de Marco Tullio Giordana, uma crônica de seis horas sobre a história recente da Itália, contada por meio das vidas de uma família romana comum.

Originalmente feito como minissérie de televisão, o filme aponta para a tradição do cinema histórico politicamente inteligente, exemplificado por mestres como Luchino Visconti e Bernardo Bertolucci. É uma festa intelectual assim como emocional, com dezenas de atuações soberbas, especialmente de Luigi Lo Cascio e Alessio Boni, que fazem dois irmãos apanhados no turbilhão social e político dos anos 60 e 70. Giordana fez um filme tão cheio de vida que mesmo depois de seis horas de projeção e quatro décadas de história você gostaria que ele continuasse.

Não tenho certeza se gostaria de mais de "The Aristocrats", de Paul Provenza e Penn Jillette, uma investigação acadêmica da piada mais suja do mundo. Por outro lado, o ponto desse documentário é que a sujeira não tem limites, e que explorar os contornos distantes do gosto e da propriedade exige persistência, trabalho duro e um compromisso com a arte.

A arte em questão são os esquetes cômicos, e o batalhão de artistas e escritores aqui reunidos --entre eles Sarah Silverman, George Carlin, Paul Reiser e Bob Saget-- oferece uma visão fascinante da tradição que os sustenta.

Em (mais um) ano de excelentes documentários --assim como muitos que adotam caminhos fáceis para o arroubo emocional ou a indignação política--, destaca-se "Darwin's Nightmare", de Hubert Sauper. Um exame rigoroso e atento dos efeitos ecológicos e humanos da globalização na Tanzânia, o filme nem sempre é fácil de assistir. Mas ele perscruta tão profundamente uma das crises vitais e de modo geral invisíveis de nosso tempo que as convenções do cinema-verdade adquirem uma intensidade quase visionária, como se William Blake estivesse por trás da câmera.

Em seu segundo longa-metragem, "La Niña Santa", a diretora argentina de 39 anos Lucrecia Martel mostra-se uma das mais originais e perspicazes jovens diretores em atividade. Com uma autoconfiança que supera sua ousadia formal, ela transforma a história do despertar sexual e religioso de uma jovem em um quebra-cabeça lírico e psicologicamente carregado.

O desempenho de Maria Alche no papel-título é assombroso, sensual e sobrenatural. Sua personagem, Amalia, é uma adolescente comum que vive com a mãe divorciada em um hotel de província, e suas colisões com o mundo adulto são ao mesmo tempo cômicas e assustadoras. O filme é oblíquo, às vezes chega a ser obscuro, mas em seu final surpreendente revela uma coerência profunda e quase chocante.

Foi um choque dos mais agradáveis descobrir em "Match Point", de Woody Allen, que um dos cineastas americanos mais enlouquecidamente prolíficos (e recentemente com desempenho inferior) voltou à plena forma. Revisitando alguns temas de seus trabalhos anteriores --mais evidentemente "Crimes e Pecados"--, Allen lembra seus sofridos admiradores de que pode ser um autor hábil e disciplinado.

Trocando Manhattan por Londres e trabalhando com um elenco jovem e excelente (com atuações destacadas de Jonathan Rhys-Meyers, Emily Mortimer e Scarlett Johansson), ele mistura alto artifício com visão aguda e apresenta um entretenimento que é tão brilhante e divertido que você quase não nota a escuridão cruel e fria em seu cerne.

Talvez a mais pura dose de prazer nas telas de cinema este ano tenha sido a de Nick Park e seus camaradas da Aardman Animations, criadores de "Wallace and Gromit: The Curse of the Were-Rabbit". Trazendo o inventor inglês de orelhas enormes e seu cão fiel para a tela grande depois de três aventuras curtas, os aardmanitas conquistaram um lugar de honra para a antiquada animação quadro a quadro em um mundo dominado pela tecnologia digital.

É bom saber que virtudes sólidas como a lealdade, a engenhosidade prática, a besteira absoluta e o amor por queijos ainda têm lugar no cinema moderno. Ralph Fiennes e Helena Bonham Carter emprestam suas vozes a essa nobre causa.

O cinema independente americano está cheio de histórias de jovens que se tornam adultos, o que é bastante apropriado já que os rapazes ainda dominam o ambiente do Sundance. Um dos melhores exemplos recentes do gênero --o que quer dizer um filme que transcende totalmente o gênero-- foi "Mistérios da Carne", de Gregg Araki.

Araki, que já foi um filho selvagem do New Queer Cinema, continua destemido, mas sua adaptação do romance de Scott Heim também é terna e bela. Dois ótimos jovens atores, Joseph Gordon-Levitt e Brady Corbet, interpretam rapazes que crescem no Kansas nos anos 80, ligados por um trauma de infância que compartilham sem o saber. A história é dolorosa, mas a maneira de Araki contá-la é engraçada, humana e despretensiosa.

Outra história de amadurecimento, "A Lula e a Baleia", me atingiu onde eu moro, e não apenas porque foi filmado a alguns quarteirões de minha casa. A comédia crítica e comovente sobre mau comportamento e romance fracassado de Noah Baumbach traça o desenvolvimento de uma família literária do Brooklyn.

Ao acompanhar as alianças cambiantes entre dois irmãos e seus pais em processo de separação, Baumbach expõe a vaidade e a crueldade de pessoas que se consideram criaturas de refinamento e gosto superiores. Mas é impossível não sentir uma ponta de simpatia por todas. Jeff Daniels, como o pai pomposo e narcisista, tem uma das melhores atuações do ano, e as cenas precisas e rápidas de Baumbach dão ao filme a textura e a economia de um romance de primeira classe.

Filmes sobre jovens sem objetivo nunca faltaram no mundo independente, mas "Funny Ha Ha", de Andrew Bujalski, se destaca. Ele fez esse longa-metragem de orçamento superbaixo com um grupo de amigos (notadamente Kate Dollenmayer) em Boston, e transformou a afetação e a indecisão de jovens instruídos de 20 e poucos anos em um verdadeiro estilo. Despretensioso a ponto de ser tímido, sob um exame mais cuidadoso o filme vem a ser ousado e perspicaz. É ao mesmo tempo uma declaração geracional (sussurrada, quase engolida) e o anúncio de um talento formidável.

"Munique", de Steven Spielberg, foi imediatamente saudado na capa de "Time" como uma "obra-prima secreta", assim como foi submetido a uma reação preventiva, principalmente dos analistas que acusam Spielberg de relativismo moral e manipulação. O elogio inicial pode ter sido exagerado, mas os ataques têm mais a ver com a necessidade de novas fixações por parte de certos ideólogos do que com qualquer coisa que o filme realmente faça ou diga.

"Munique" é complexo, a ponto de confusão, mas também é eticamente sério de uma maneira que poucos filmes comerciais de grande escala ousam ser. É fundamentalmente sobre o desafio que o combate ao terrorismo representa para as sociedades liberais, mas dificilmente é um compêndio de derrotismo ou imparcialidade. Fazer a coisa certa tem seus custos, que às vezes são terríveis. Mais uma vez, Spielberg exibe um domínio da técnica cinematográfica que no momento não tem igual.

Aí foram os dez, mas por que parar aqui? Esses foram os filmes que, por um motivo ou outro, me causaram o maior impacto. Mas houve muitos outros --mais que o habitual, parece-- que achei dignos de admiração. O ano foi muito bom para o cinema, e não posso deixá-lo terminar sem mencionar alguns filmes, sem ordem especial e sem comentários.

Aqui vão os 20 "segundos melhores" filmes de 2005: "Capote", "Boa Noite e Boa Sorte", "Good Morning, Night", "Syriana", "Los Tres Entierros de Melquiades Estrada", "Marcas da Violência", "Schizo", "Brokeback Mountain", "Nobody Knows", "Look at Me", "Shopgirl", "40 Shades of Blue", "Reis e Rainha", "O Castelo Animado", "My Summer of Love", "Gunner Palace", "Flores Partidas", "Head-On", "Casanova" e "King Kong". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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