UOL Notícias Internacional
 

26/12/2005

Trabalhos de limpeza variam conforme a região atingida pelo Katrina

The New York Times
Eric Lipton
Em Pascagoula, Mississipi
Há uma quietude estranha aqui na Edgewood Avenue. Brinquedos, vidros quebrados e mobílias diversas estão espalhadas pelos quintais. Não se vê uma única pessoa. O único movimento, quase quatro meses após a passagem do furacão Katrina, é o dos gatos perdidos que saltam para dentro e para fora das casas arruinadas.

Seguindo a Costa do Golfo até um pouco a oeste daqui, na rua Oak, em Biloxi, a terra vibra, e o ar cheira a óleo diesel, enquanto operadores de escavadeiras retiram os sinais que restaram do Katrina, criando terrenos vazios, prontos para o trabalho de reconstrução.

Há muitos motivos para que em certas áreas, como Pascagoula, não haja progressos nos trabalhos de recuperação, enquanto que em outras, como Biloxi, a limpeza seja rápida. Mas as autoridades daqui apontam os dedos para aquele que eles consideram o culpado número um: o governo federal, e, em particular, o Corpo de Engenheiros do Exército.

Após o furacão Katrina, o condado de Harrison, onde se situa Biloxi, e o de Jackson, que inclui Pascagoula, tinham, cada um cerca de 10 milhões de metros cúbicos de destroços a serem retirados. Ambos os condados aceitaram a oferta de auxílio do governo para os trabalhos de recuperação.

Mas enquanto o condado de Harrison e todas as suas cidades (com exceção de uma) contrataram empreiteiras por conta própria, o condado de Jackson e as suas cidades, por solicitação do governo federal, pediram ao Corpo de Engenheiros que assumisse a tarefa. Segundo os funcionários do condado de Jackson, essa foi uma escolha da qual eles desde então se arrependem.

Os trabalhos de limpeza no condado de Jackson e nas suas cidades não só custaram milhões de dólares a mais do que os dos condados vizinhos, mas também estão demorando mais. Até a semana passada, apenas 39% dos trabalhos tinham sido concluídos no condado de Jackson, enquanto o condado de Harrison terminara já 57% das tarefas. Além disso, as cidades do condado de Harrison estão administrando os trabalhos por conta própria.

"Há algo de muito errado se passando aqui", afirma Frank Leach, um supervisor do condado de Jackson. "O nosso governo federal está pagando uma quantidade extraordinária de dinheiro por serviços que não estão sendo realizados de maneira adequada".

O mesmo parece se aplicar ao Estado da Louisiana: nas jurisdições que recorreram ao Corpo de Engenheiros, 45% dos trabalhos de limpeza foram concluídos, enquanto que nas municipalidades que contrataram empresas privadas, 70% das obras já estão prontas. Essa diferença se manteve mesmo quando Nova Orleans, onde os trabalhos têm sido especialmente complexos e lentos, foi retirada da lista de condados. Em toda a região do golfo, a média de trabalho concluído é de 60%.

Oficiais do Corpo de Engenheiros disseram que estão agindo da forma mais rápida e responsável possível.

"A magnitude desse desastre é simplesmente extraordinária", afirma Frank Worley, um porta-voz do Exército. "Realmente não há nada que se compare a isso".

Mas, para as autoridades locais, esse tipo de resposta não satisfaz. Membros do conselho legislativo do condado de Jackson decidiram no início deste mês cancelar o seu contrato com o Corpo de Engenheiros, após decidirem que, mesmo na fase atual, estariam em melhor situação caso contratassem empreiteiras privadas.

Pascagoula e outras cidades do condado de Jackson estão mantendo o Corpo de Engenheiros à frente dos trabalhos. Mas a prefeita da cidade de Pascagoula, Kay Kell diz estar desapontada. A sua cidade tinha a opção fazer um contrato com uma empresa privada para a remoção de cada metro cúbico de destroços por US$ 7,80, mas agora depende do Corpo de Engenheiros, que está pagando às suas próprias empreiteiras entre US$ 17 e US$ 19 pelo mesmo trabalho.

"É muito deprimente", diz Kell. Enquanto essas casas estiverem naquela situação, a vida de alguém sempre estará paralisada. Tudo está terrivelmente parado".

Com um toque da pá de aço gigantesca de uma escavadeira, o que restou da garagem de uma casa no bairro de Point Cadet, em Biloxi, desmorona em uma nuvem de poeira. O processo de derrubar o que restou das casas não tem nada de especial. Mas a forma como o trabalho tem se desenrolado aqui em Biloxi possibilitou que esta cidade e outras que compõem o condado de Harrison ficassem à frente das suas vizinhas na corrida pela limpeza dos destroços.

Em vez de limparem uma casa por vez, as autoridades de Biloxi condenaram bairros inteiros. Na última quinta-feira, o jornal "The Sun Herald" publicou uma lista de propriedades em oito páginas de letras miúdas, notificando milhares de donos de imóveis de Biloxi que "a fim de preservar a saúde, a segurança e o bem-estar de outros bairros", as máquinas de demolição chegariam em breve.

"Quando mais rapidamente nos livrarmos de todas essas ruínas, mais cedo voltaremos à normalidade", justifica o prefeito de Biloxi, A.J. Halloway.

Nem todas as casas dos bairros condenados serão demolidas. Mas a menos que o dono do imóvel se oponha, as equipes de demolição removerão o que tiver restado de qualquer casa ou qualquer destroço de grandes proporções. Ao todo, já foram demolidas 740 casas em três bairros da cidade.

Alguns moradores reclamaram, dizendo que o trabalho de limpeza está sendo feito de forma apressada. "Eles estão importunando os moradores", queixa-se John Grower, de Gulfport, cuja casa foi demolida enquanto ele aguardava que os investigadores da companhia de seguros terminassem de avaliar a situação do imóvel. "Estamos vivendo sob lei marcial".

Mas as autoridades alegam que esse ritmo rápido significa que os donos das propriedades poderão começar os planos para a reconstrução, ou pelo menos transferir os trailers fornecidos pelo governo, como casas temporária, para os seus próprios terrenos.

"Estou emocionada", disse Nhin Tran, 58, enquanto um trailer era estacionado na semana passada no seu terreno em Point Cadet, em Biloxi, depois de ter sido limpo pelas máquinas, possibilitando que ela saísse da barraca onde mora desde o desastre. "Agora sei o que o dia seguinte me reserva".

Em Biloxi bairros inteiros estão prontos para a reconstrução. Mas em Pascagoula, 40 quilômetros a leste, somente cerca de 25% dos terrenos residenciais foram limpos.

Autoridades dos condados de Jackson e em Pascagoula citam vários motivos para o atraso.

Um deles é a complexidade do contrato que o Corpo de Engenheiros firmou com a Ashbritt, uma companhia de Pompano Beach, Flórida, que está supervisionando a retirada de destroços do Mississipi e de parte da Louisiana. O contrato traz cláusulas que incluem o tipo de papel de escritório que a companhia utiliza e uma proibição da divulgação de informações à mídia sem a permissão por escrito do Corpo de Engenheiros (os executivos da Ashbritt se recusaram a fazer comentários para esta matéria).

Demorou várias semanas simplesmente para que o Corpo de Engenheiros concordasse com a terminologia exata a ser utilizada nos documentos que os moradores têm que assinar para autorizar as empreiteiras a derrubar as suas casas.

Depois disso, o Corpo de Engenheiros e os seus parceiros federais fizeram exigências específicas. Por exemplo, os trabalhos de medição de lotes teriam que ser feito por satélite, antes do início de qualquer obra de limpeza de monta.

Michael H. Logue, um porta-voz do Corpo de Engenheiros, disse na semana passada que o desejo de utilizar sub-empreiteiras locais muitas vezes significou a contratação de companhias menores, com sede no Mississipi, e que não contam com grandes reservas de equipamentos pesados, o que atrasou os trabalhos. A possibilidade de que restos humanos possam estar misturados aos destroços também fizeram com que as obras de limpeza demorassem.

"Se for para fazer a coisa do jeito certo, com segurança, e de uma forma que ajude as vítimas, deixando claro que nos preocupamos com elas, não dá para entrar nos terrenos com uma mão pesada e muita fumaça de óleo diesel", justifica Logue.

Conforme a demanda aumentou, a quantidade de destroços retirados em Jackson County a cada dia caiu de 75 mil metros cúbicos, para 12 mil metros cúbicos diários.

"Há tanta burocracia, tantos níveis de autorizações, que ninguém parece ser capaz de tomar uma decisão e realizar o trabalho", explica Manly Barton, presidente do Conselho de Supervisores do Condado de Jackson. Benny Rousselle, presidente da Paróquia de Plaquemines, em Louisiana, diz que se deparou com os mesmos problemas. Mesmo que uma casa esteja quase caindo, e o seu proprietário tenha aprovado a sua demolição, o governo federal exige rigorosas avaliações estruturais, históricas e ambientais de cada propriedade, antes que o Corpo de Engenheiros possa demoli-la.

"Há tantos monitores e supervisores que as coisas estão realmente andando devagar", reclama Rousselle.

Autoridades impacientes de Plaquemines contrataram as suas próprias empreiteiras para darem início ao trabalho. Eles já limparam cerca de 600 terrenos, dos cerca de 6.000 que contém casas destruídas ou danificadas. Já o Corpo de Engenheiros, até a semana passada, não havia demolido uma única casa.

Segundo todos os parâmetros, a operação de limpeza dos estragos feitos pelo furacão Katrina é a mais complexa e ampla recuperação de um desastre na história dos Estados Unidos.

Depois da tempestade, 88 milhões de metros cúbicos de destroços, que incluíam galhos de árvores, mobílias, geladeiras e pedaços de casas - se espelhavam pelo Mississipi e pela Louisiana, em uma quantidade suficiente para encher nove milhões de caminhões. O furacão Andrew, que atingiu a Flórida em 1992, e que até então fora o mais destruidor da história, criou 14 milhões de metros cúbicos de destroços. As autoridades federais se recusaram a fornecer qualquer dado que possibilitasse uma comparação direta entre os custos da operação de limpeza feita pelo Corpo de Engenheiros e aquela realizada diretamente pelos governos locais. Tudo o que o governo divulgou foi a estimativa de US$ 2,2 bilhões para o trabalho do Corpo de Engenheiros, que é responsável pela retirada de cerca da metade dos destroços no Mississipi, e dois terços daqueles da Louisiana.

Mas uma pesquisa feita pelo "The New York Times" sobre os governos da costa do Mississipi que contrataram as suas próprias empreiteiras revelou um preço médio de US$ 14 por metro cúbico. Todas as comunidades conseguiram um preço menor do que a faixa entre US$ 17 e US$ 19 cobrada pelo Corpo de Engenheiros, e que não inclui o transporte dos destroços para um depósito, ou outros serviços extras. O Corpo de Engenheiros conta com quase 800 funcionários supervisionando os trabalhos e paga US$ 55,79 a hora a cerca de 300 inspetores para monitorarem os trabalhos feitos por empreiteiras privadas.

No entanto, o Corpo de Engenheiros recebeu alguns elogios. Eles geralmente limpam um terreno de cada vez, em vez de ruas inteiras, de forma que os proprietários, como Yvette Gonzalez, 76, de Bay Saint Louis, podem estar lá para ver o trabalho. Gonzalez chegou a pedir à equipe que procurasse uma colcha feita à mão, que tem um valor especial para a sua família. A colcha nunca foi encontrada, mas a equipe encontrou o pequeno enfeite do bolo do casamento de Gonzalez, algo que ela guardava desde 1949.

"Isso faz com que tudo retorne", disse Gonzalez, cujo marido morreu nove anos atrás. "O enfeite faz com eu me lembre dos bons tempos".

Em certos casos, o Corpo de Engenheiros adota medidas extras que elevam o custo do trabalho e aumenta o tempo necessário para completá-lo. Por exemplo, as empreiteiras contratadas pelo Corpo de Engenheiros que estão trabalhando para remover as milhares de geladeiras e outros eletrodomésticos das casas destruídas pelo Katrina operam de forma bem diferente das empreiteiras privadas.

No condado de Hancock, Mississipi, onde o Corpo de Engenheiros está à frente dos trabalhos, funcionários das empreiteiras, usando roupas de proteção, abrem as geladeiras e as limpam meticulosamente, desinfetando o seu interior com uma solução especial de limpeza. Os oficiais do Corpo de Engenheiros não revelam os custos das operações, mas na Louisiana eles estão pagando mais de US$ 1,8 milhão para processar e jogar fora esses eletrodomésticos destruídos.

No condado vizinho de Harrison, tão logo as geladeiras sejam jogada em um depósito de lixo, cessa a obrigação financeira do governo. Uma empreiteira da área de reciclagem, ansiosa para levar o ferro velho, remove o gás freon dos refrigeradores. Na maioria dos casos, para remover os alimentos estragados a empreiteira suspende os refrigeradores com uma máquina e os sacodem. Ninguém usa roupa especial para evitar contaminação biológica.

Algumas autoridades locais dizem estar satisfeitas com o fato de o Corpo de Engenheiros estar investindo tempo e dinheiro extras.

"Daqui a 20 anos dão quero que as mães dêem a luz a crianças com defeitos de nascença pelo fato de não termos nos livrado desse material de forma apropriada", afirma o deputado federal Gene Taylor, democrata de Bay Saint Louis, Mississipi, onde o Corpo de Engenheiros é o encarregado pela limpeza.

Worley, do Corpo de Engenheiros, diz que se a agência estivesse fazendo o trabalho de forma diferente, também sofreria críticas.

"No decorrer dos anos, fomos criticados por ter feito o oposto", explica ele. "Estamos fazendo isso da forma que deve ser feita, e o trabalho realmente leva tempo. E também custa muito dinheiro".

Mas John Record, gerente da Custon Recycling, de Cody, Wyoming, uma empreiteira que processa as geladeiras no condado de Harrison, diz estar convencido de que a sua abordagem mais barata não agride o meio ambiente, já que inspetores estaduais e federais monitoram periodicamente o serviço.

"É algo como matar uma mosca com uma marreta", diz Record, referindo-se a abordagem do Corpo de Engenheiros. "Eles parecem contar com um orçamento ilimitado, portanto, desconfio que são capazes de fazer o trabalho dessa maneira". Tradução: Danilo Fonseca

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