UOL Notícias Internacional
 

27/12/2005

Bebês de Natal, um após o outro, depois do outro

The New York Times
Dr. Larry Zaroff

Especial para o NYT

Em Nova York
Os bebês chegavam depressa demais.

Era 1955, uma correria de Natal. Especiais, de todo tipo, em liquidação, sem embrulho.

Grandes presentes --a menos que você fosse um terceiranista de medicina passando os feriados no serviço de obstetrícia do Hospital Gallinger, uma instituição da prefeitura de Washington.

Photo Illustration by Michael Morgenstern/The New York Times 
Cada parto uma vitória, cada rosto, uma nova história em plena noite de Natal
Éramos da Universidade Georgetown e minha escola, a Universidade George Washington. Éramos os mais baixos da categoria, subterrâneos, depois dos médicos, dos residentes e dos internos.

Como estudantes de medicina, perdíamos nossos nomes. Éramos números: G.W. 1, 2, 3 ou 4, e Georgetown 1, 2, 3 ou 4.

Cada vez que um bebê estava prestes a vir ao mundo, as enfermeiras emitiam pelos alto-falantes um número. Quem fosse o da vez corria para a sala de parto para segurar o bebê; as mães faziam o trabalho de verdade.

Ou então um anúncio diferente, que significava que ficaríamos na cabeceira da mesa segurando levemente uma máscara sobre o rosto da mãe para que ela pudesse inalar um anestésico leve.

Plantão duplo. Chamados persistentes, intermináveis.

Mas não para os residentes. Eles raramente apareciam para esses partos de rotina. As enfermeiras conheciam o riscado melhor que os estudantes, e eram boas professoras. As mães, mestras, já tinham feito aquilo antes, algumas delas diversas vezes. O canal de nascimento para elas era como um escorregador de água.

Eu estava entusiasmado, realmente fazendo uma coisa médica, não apenas parado observando os procedimentos, o que era rotina para os estudantes. Eu era quase um médico de verdade. Era útil e tinha histórias para contar.

Às vezes mencionava para meus amigos que estudavam literatura: "Tive um dia cheio, cansativo, mas valeu a pena: trouxe três meninas e dois meninos para o mundo hoje. Como foi seu dia na biblioteca?"

É dessas experiências que nasce a arrogância. Mais tarde, mais grisalho, olhei para trás e percebi que a arrogância desaparece com a verdadeira responsabilidade. Quando você está no comando, um resultado ruim ou uma complicação é humilhante, um peso, às vezes um erro profissional.

Para as iniciantes, as mulheres que faziam o primeiro parto, aprendendo a ter um filho, os residentes estavam presentes. Observávamos. Essas mulheres trabalhavam, empurravam, lutavam, faziam barulho.

Finalmente seus abdomens expulsavam o conteúdo e murchavam.

Podia ter sido uma entrega de mercadorias, não fossem os rostos. Eles mudavam. Pelo esforço do empreendimento, o desafio, o desejo, o dever. Alívio. Os rostos floresciam como se banhados em água de rosas. Um sol nascendo no verão.

Muitas vezes as mães pensavam que fôssemos os verdadeiros médicos, responsáveis por seus bebês saudáveis, como era a maioria. Enquanto abraçavam seus filhos pela primeira vez, pediam sugestões de nomes. Se fosse um menino, eu sempre dizia Larry. Para nomes de meninas eu era fraco. Mas um de meus colegas dava a todas o nome de Dawn [Aurora, em inglês]. Hoje, quando sou apresentado a alguém com um desses nomes, sempre me pergunto: "Será um dos nossos?"

Depois de meus primeiros 20 bebês, eu não queria mais. Chega, só dormir.
Os estudantes de medicina ficavam de plantão 72 horas seguidas, depois tinham um dia de folga. Quando estávamos no hospital, nos escondíamos em um cubículo com quatro camas, adequado à nossa ignorância. Quatro beliches, dois alto-falantes e não um, para aumentar a tortura de escutar canções de Natal constantemente, repetitivamente, só interrompidas por "G.W. 1" ou "Georgetown 2, Georgetown 2".

Em meus poucos momentos livres, eu conseguia cochilar ouvindo "Noite Feliz", mas não com "Jingle Bells", a favorita do programador sádico. Os bebês não acabavam; a acústica elétrica nunca parava.

O único descanso que eu tinha era para comer. Arrastava-me da unidade de obstetrícia até a cafeteria do hospital. Na época eu gostava da comida do hospital --simples, insossa--, mas para escapar da cascata de bebês e da avalanche de músicas natalinas, comia tudo o que ofereciam, como se o chefe fosse Thomas Keller da French Laundry, no vale do Napa.

Depois dos três primeiros dias, tornava-me perigoso: dirigia até em casa para dormir. Não me lembro de fazer muito mais que isso.

Sonhava com um jardim onde eu reunia minhas células vermelhas do sangue em preparação para mais três dias de tortura. Dopado com sangue, podia trabalhar outras 72 horas ou mais, se necessário. Entregava bebês aos montes, gêmeos, trigêmeos. Não era tão simples. Na manhã seguinte começava novamente meu turno de três dias.

Quando descrevo essas experiências para meus alunos, eles ficam chocados. "É inaceitável. Como conseguia? Como podia funcionar?"

"Conseguiu aprender alguma coisa?"

"Cometeu algum erro?"

Expliquei que a experiência não impediu meu treinamento cirúrgico, em que as horas eram muitas vezes mais brutais que as de um estudante de obstetrícia. "Erros, sim, mas pequenos, incomuns, porque éramos observados como as sementes que éramos --pelas enfermeiras, pelos internos, às vezes até residentes", eu lhes disse. "Aprender? Impossível evitar. Nós fizemos tanto, vimos tanto."

Cinqüenta anos depois, eu ainda podia trazer um bebê ao mundo, com a ajuda da mãe. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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