UOL Notícias Internacional
 

27/12/2005

Ganenses e negros dos EUA em choque cultural

The New York Times
Lydia Polgreen

Em Cape Coast, Gana
Por séculos, os africanos passaram pela infame "porta sem retorno" do castelo de Cape Coast diretamente para dentro de navios negreiros, para nunca mais colocarem novamente os pés em suas terras natais. Atualmente, o portal deste forte imenso, elemento tão central de um dos maiores crimes da história, tem um novo nome, pendurado em uma placa voltada na direção do Oceano Atlântico: "Porta do Retorno".

Gana, por cujos portos passaram milhões de africanos a caminho de plantações nos Estados Unidos, América Latina e Caribe, quer o retorno de seus descendentes.

Michael Kammber/The New York Times 
Guia mostra aos turistas o forte de onde embarcavam no passado os africanos escravizados

Tendo Israel como modelo, Gana espera persuadir os descendentes de africanos escravizados a pensarem na África como sua terra natal --para visitar, investir, enviar seus filhos para estudo e mesmo se aposentarem aqui.

"Nós queremos que os africanos de toda parte, independente de onde vivam ou de como chegaram aqui, vejam Gana como seu lar de entrada", disse J. Otanka Obetsebi-Lamptey, o ministro do turismo de Gana, em uma recente entrevista. "Nós esperamos poder trazer a família africana de volta."

De muitas formas é uma meta quixotesca. Gana está se saindo bem pelos padrões do Oeste da África --com crescimento econômico constante, um governo democrático estável e amplo apoio do Ocidente, a tornando um dos locais preferidos para receber a ajuda dos países ricos.

Mas ainda assim ele continua sendo um país em dificuldades, muito pobre, onde um terço da população vive com menos de US$ 1 por dia, a expectativa de vida é de 59 anos e serviços básicos como eletricidade e água às vezes são escassos.

Todavia, milhares de negros americanos já vivem aqui pelo menos parte do ano, disse Valerie Papaya Mann, presidente da Associação Afro-Americana de Gana.

Para encorajar outros mais a virem, ou pelo menos visitarem, Gana planeja oferecer um visto especial vitalício para membros da diáspora e relaxará as exigências para cidadania, para que os descendentes de escravos possam receber passaportes ganenses. O governo também está iniciando uma campanha publicitária para persuadir os ganenses a tratarem os negros americanos mais como parentes distantes do que como turistas ricos. Isto é mais difícil do que parece.

Muitos negros americanos que visitam a África ficam incomodados ao verem que os africanos os tratam --e até mesmo se referem a eles-- da mesma forma que aos turistas brancos. O termo "obruni", ou "estrangeiro branco", é aplicado independente da cor da pele.

Para os negros americanos que vêm para cá em busca de suas raízes, o termo é um sinal do abismo entre os negros africanos e americanos. Apesar de compartilharem um legado, eles o experimentam de uma forma totalmente diferente.

"É um choque para qualquer pessoa negra ser chamada de branca", disse Mann, que se mudou para cá há dois anos. "Mas é realmente duro ouvir quando você vem com seu coração em busca de suas raízes na África."

A campanha publicitária pede aos ganenses que troquem o "obruni" por "akwaaba anyemi", uma frase um tanto desajeitada formada a partir de dois termos tribais, que significa "bem-vindo, irmã ou irmão". Como parte do esforço para se reconectar com a diáspora, Gana planeja homenagear Martin Luther King Jr., W.E.B. DuBois e outros que chama de Josés modernos, em referência ao personagem bíblico que ascendeu da escravidão para salvar seu povo.

O governo planeja realizar um enorme evento em 2007 para comemorar o 200º aniversário do fim do comércio transatlântico de escravos pela Grã-Bretanha e o 50º aniversário da independência de Gana. As cerimônias incluirão rituais fúnebres africanos tradicionais para os milhões que morreram em decorrência da escravidão.

As estimativas do comércio variam enormemente. A mais confiável sugere que entre 12 milhões e 25 milhões de pessoas que viviam nas vastas terras entre os atuais Senegal e Angola foram capturados, e até metade morreu a caminho das Américas.

Alguns pereciam na longa marcha das aldeias no interior do continente, onde eram capturados, até os portos marítimos. Outros morriam nas masmorras dos castelos e fortes de escravos, onde às vezes eram mantidos por meses, até que um número suficiente tivesse sido capturado para encher o porão de carga do navio. Outros morriam na passagem intermediária, o trecho mais longo da jornada triangular entre a Europa, África e as Américas. Dos cerca de 11 milhões que cruzaram o mar, a maioria foi para a América do Sul e Caribe. Estima-se que cerca de 500 mil foram parar nos Estados Unidos.

As deportações em massa e as divisões provocadas pelo comércio de escravos são feridas que a África ainda luta para cicatrizar.

Gana foi o primeiro país africano sub-Saara a se libertar do governo colonial, conquistando sua independência da Grã-Bretanha em 1957. Seu pai fundador, Kwame Nkrumah, freqüentou a Universidade Lincoln, uma faculdade historicamente negra na Pensilvânia, e via nos negros americanos uma chave para o desenvolvimento de uma nova nação.

"Nkrumah via o negro americano como a vanguarda do povo africano", disse Henry Louis Gates Jr., presidente do departamento de estudos africanos e afro-americanos de Harvard, que foi pela primeira vez a Gana quando tinha 20 anos e tinha acabado de se formar em Harvard, estimulado pelo espírito de Nkrumah. "Ele queria poder utilizar os serviços e a perícia dos afro-americanos enquanto Gana fazia a transição do colonialismo para a independência."

Muitos negros, de Maya Angelou a Malcolm X, visitaram Gana nos anos 50 e 60, e um punhado permaneceu. Para Nkrumah, a luta pelos direitos civis na diáspora e as lutas pela independência do governo colonial na África estavam profundamente ligadas, ambas sendo expressões do desejo do povo negro em toda parte de reconquistar sua liberdade.

Mas Nkrumah foi derrubado em um golpe em 1966, e àquela altura o pan-africanismo já tinha dado lugar ao nacionalismo e às políticas da Guerra Fria, colocando grande parte do continente em um caminho de autocracia, guerra civil e decepção.

Ainda assim, os americanos são atraídos pela rica cultura de Gana e pelo que o país revela sobre a história da escravidão.

Travessia

Gana ainda possui dezenas de fortes de escravos, cada um deles um lembrete assustador da brutalidade do comércio. No Castelo Elmina, construído pelos portugueses em 1482 e tomado pelos holandeses 150 anos depois, os visitantes são guiados por uma capela cristã construída ao lado do salão onde os escravos eram leiloados, e da sacada sobre as masmorras femininas de onde o governador do forte escolhia uma concubina entre as escravas abaixo.

A sala por onde os escravos passavam rumo aos navios que aguardavam é o clímax emocional do passeio, uma masmorra sufocante mal iluminada pela luz que passa pelo portal estreito que leva ao mar.

"Você sente nossa história aqui", disse Dianne Mark, uma administradora da Universidade Central de Michigan, que visitou o Castelo Elmina, a quilômetros do castelo de Cape Coast, no início deste mês, com os olhos cheios de lágrimas enquanto olhava além das imensas muralhas para o oceano. "É daqui que veio nosso povo. Esta é uma experiência muito, muito profunda. Eu olho para todos e me pergunto: 'Será que ele poderia ter sido meu primo? Será que ela poderia ter sido minha tia?'"

Como qualquer reunião de família, esta também é envolta em alegria e lágrimas.

Para os negros americanos e outros na diáspora africana, há uma hostilidade persistente e uma confusão sobre o papel que os africanos tiveram no comércio de escravos.

"O mito era de que nossos ancestrais africanos saíram para caminhar um dia, e um sujeito branco ruim lançou uma rede sobre eles", disse Gates. "Mas não foi assim que aconteceu. Não teria sido possível sem a ajuda dos africanos."

Enquanto isso, muitos africanos freqüentemente falham em ver qualquer ligação entre eles e os negros americanos, ou sentem que os negros estão em melhor situação por seus ancestrais terem sido levados para os Estados Unidos.

Muitos africanos lutam para emigrar; nos últimos 15 anos, o número de africanos que se mudaram para os Estados Unidos superou as estimativas do número dos que foram forçados a ir para lá durante quaisquer anos de pico do comércio de escravos. O número de imigrantes de Gana nos Estados Unidos é maior do que o de qualquer outro país africano exceto a Nigéria, segundo o censo de 2000.

"Tantos africanos querem ir para a América, de forma que eles não entendem por que os americanos iriam querer vir para cá", disse Philip Amoa-Mensah, um guia no Castelo Elmina. "Talvez os ganenses pensem que tenham sorte de ser da América, apesar de seus ancestrais terem passado por tanta dor."

O relacionamento é claramente uma obra em progresso. Os ganenses ainda estão aprendendo sobre os papéis de seus ancestrais no comércio de escravos, e os fortes de escravos na costa, há muito tempo acostumados a milhares de visitantes estrangeiros, nos últimos anos se tornaram locais de visitas para excursões escolares.

Quando os Estados Unidos e a Organização das Nações Unidas deram a Gana o dinheiro para reformar o castelo de Cape Coast, o órgão do governo responsável pelo castelo o repintou de branco. Os moradores de Cape Coast ficaram empolgados em ver o castelo escurecido pela umidade sendo arrumado, mas os negros americanos que viviam em Gana ficaram horrorizados, sentindo que a história de seus ancestrais estava sendo, literalmente, caiada.

"Não foi muito bem aceito", disse Kohain Nathanyah Halevi, uma negra americana que vive perto de Cape Coast.

Um recente visitante negro americano ao castelo de Cape Coast deu um passo cheio de emoção pela porta sem retorno, apenas para ser recebido por um par de crianças brincando em barco de pesca do outro lado, apontando e gritando "obruni, obruni!"

William Kwaku Moses, um guarda de segurança aposentado de 71 anos que vende conchas para os turistas do outro lado da porta sem retorno, afugentou as crianças.

"Nós estamos tentando", ele disse, dando de ombros. País africano quer atrair investimento e turismo de afro-americanos, mas sua população não tem a mesma percepção da escravidão dos negros dos EUA, o que gera conflitos e ressentimentos George El Khouri Andolfato

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