UOL Notícias Internacional
 

27/12/2005

Resultados de eleições sugerem participação sunita reduzida nas forças de segurança

The New York Times
Richard A. Oppel Jr.*

Em Bagdá, Iraque
Os resultados parciais das eleições parlamentares divulgados na segunda-feira (26/12) sugerem que, apesar do impressionante aumento da participação de árabes sunitas no processo político, a etnia ainda tem relativamente pouca representação nas forças de segurança. Há muito se suspeita que os sunitas estejam pouco representados no novo exército e na polícia.

Joao Silva/The New York Times 
Xiitas manifestam-se após a eleição paralmentar; maioria no Iraque, os rivais dos sunitas levaram a melhor nas urnas
A votação parcial incluiu votos principalmente de militares e policiais, e os resultados assinalaram a mudança na sorte dos sunitas, que administravam as forças de segurança sob Saddam Hussein. A votação no Iraque seguiu em grande parte linhas étnicas e sectárias.

Os resultados são significativos porque os sunitas, que compreendem cerca de 20% dos iraquianos, votaram em grandes números na esperança de assumir parte do poder político junto com xiitas e curdos. Eles temem que as forças de segurança sejam usadas contra eles.

Já os comandantes americanos acreditam ser crucial construir um exército iraquiano que seja representativo das etnias que compõem o país --ou arriscar as conseqüências de ter forças xiitas e curdas tentando sozinhas pacificar uma guerrilha dominada por militantes sunitas.

Os números recém divulgados também sugerem que as milícias curdas têm presença desproporcionalmente grande nas forças de segurança, talvez até maior que os xiitas, que são três quintos da população.

Os resultados preliminares estão longe de exatos e não passam de um censo das forças de segurança. É impossível saber se os soldados e policiais sunitas votaram na mesma proporção que a população sunita em geral. Um porta-voz do comando militar americano que supervisiona o treinamento das forças iraquianas disse que, apesar de não saber os detalhes das etnias que compõem as forças de segurança, ele acreditava que havia mais soldados sunitas do que sugerido pelos números.

Ainda assim, os resultados fornecem fortes pistas das tendências políticas dos soldados iraquianos, um conjunto de dados crucial em um país que está tentando superar profundas divisões sectárias e derrotar uma guerrilha dominada pelos sunitas.

Os dados divulgados hoje são apenas uma fatia dos resultados eleitorais preliminares, que indicam que os xiitas novamente dominam o parlamento iraquiano.

Depois de uma pausa após as eleições, mais de 70 iraquianos foram mortos nos últimos quatro dias, inclusive mais de 20 na segunda-feira, em uma série de emboscadas e explosões de carros que poderiam ter causado muito mais baixas.

Ao menos seis carros foram detonados em Bagdá, matando cinco iraquianos. Em Baquba, norte da capital, cinco policiais morreram em um ataque cedo pela manhã. Uma granada lançada por foguete matou um soldado americano em patrulha na capital.

Apesar do grande comparecimento nas votações ter dado aos partidos sunitas uma parte considerável dos assentos parlamentares, eles acusaram os xiitas de fraude eleitoral e exigiram novas eleições.

Sunitas e alguns xiitas seculares ameaçaram boicotar o novo governo. No entanto, qualquer possibilidade de novas eleições foi eliminada.

Autoridades da comissão eleitoral independente iraquiana disseram nesta segunda que não viam razão para novas eleições -opinião endossada pelo representante da ONU.

"Acreditamos que pode ter havido fraude em alguns locais isolados, mas não vemos essa fraude disseminada da qual as pessoas tão falando", disse Craig Jenness, diretor da equipe de assistência eleitoral da ONU no Iraque, em entrevista. "(As eleições) não foram perfeitas, mas foram razoavelmente confiáveis, dadas as circunstâncias", disse ele, acrescentando que "não há nada que justifique uma nova eleição".

Os militares americanos estão conscientes, porém, de que as forças iraquianas têm pouco sunitas, especialmente no Norte, onde oficiais curdos deixaram claro que desejam expandir seu território para regiões sunitas e turcas. Para muitos comandantes, uma representação proporcional de soldados xiitas, sunitas e curdos é vital para a estabilidade e coesão de longo prazo do Iraque.

No entanto, este objetivo está distante, sugerem os resultados das eleições. A disparidade foi revelada na contagem especial de uma categoria de votos que, de acordo com os supervisores, consistia de cédulas de membros das forças de segurança iraquianas, pacientes de hospitais e prisioneiros.

Nessa categoria, 45% dos votos foram para a principal chapa de candidatos curdos -contra um total de apenas 7% para os três maiores partidos políticos sunitas. A principal aliança política xiita recebeu 30% dos votos. Os votos altamente desproporcionais para os curdos e a pequena votação dos sunitas refletiram primariamente seus números relativos nas forças de segurança, disseram as autoridades eleitorais.

Os resultados finais das eleições só estarão disponíveis na outra semana, mas a imprensa iraquiana estima que curdos e sunitas terão, cada um, talvez 20% dos assentos no parlamento nacional. A principal aliança política xiita deve conquistar um pouco menos de 50% dos assentos no parlamento.

O coronel Fred Wellman, porta-voz do comando militar que supervisiona o treinamento iraquiano, disse que alguns soldados iraquianos votaram perto de suas residências, no dia 15 de dezembro, e por isso não seriam incluídos na contagem especial. No entanto, ele não sabia se estes incluíam um número desproporcional de algum grupo étnico.

O coronel Wellman disse que não tinha estimativas detalhadas da composição étnica dos militares iraquianos, apesar de dizer que a representação sunita "fica claramente para trás". Ele também enfatizou os esforços feitos para recrutar soldados sunitas, inclusive mais de 4.000 que se alistaram nos últimos seis meses.

"Um dos maiores objetivos deste empreendimento é montar um exército que reflita a composição nacional do Iraque e empregue essas unidades longe de casa", disse ele. "Há grandes esforços para atrair sunitas e equilibrar o exército o máximo possível."

Além da contagem especial de votos de militares, prisioneiros e pacientes, a comissão de eleição iraquiana também divulgou os resultados da votação de iraquianos no exterior. As principais coalizões curdas e xiitas receberam igualmente 30% dos votos.

Os números refletiram o alto número de expatriados que fugiram do regime impiedoso de Saddam Hussein, cujo governo e forças armadas eram dominados por sunitas.

Na contagem no exterior, os três principais partidos sunitas combinados receberam 7,5% dos votos. A chapa de candidatos patrocinada pelo ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, xiita secular e ex-membro do Baath, ficou com 12%.

Em uma conferência com a imprensa em Bagdá, um porta-voz da comissão eleitoral, Farid Ayar, disse que os responsáveis pela avaliação das denúncias de fraude encontraram exemplos concretos de votos duplos e outros problemas em urnas de expatriados em Istambul, Turquia. Problemas similares foram denunciados na província de Diyala, ao Norte de Bagdá.

No entanto, em entrevista posterior, ele disse: "As reclamações não afetarão os resultados finais."

*Colaboraram Abdul Razzaq Al Saiedi, Monah Mahmoud, Khalid Al Ansary e Omar Al Neami. Deborah Weinberg

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