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29/12/2005

"Sex and the City", mas a cidade é Moscou

The New York Times
Sophia Kishkovsky

em Moscou
À primeira vista, parece um "Sex and the City" eslavo.

Quatro amigas bem vestidas e atraentes encontram-se em cafés elegantes
para conversar sobre a vida, amor e sexo.

No entanto, por mais que a Moscou de hoje se pareça com Nova York, com
vidas apressadas, carreiras intensas e relacionamentos complicados,
Vera, Alla, Sonia e Yulia não são bem Carrie, Miranda, Samantha e
Charlotte.

"Balzac Age, or All Men are Bast" ("Balzaquianas, ou todos os homens
são cretinos") é um programa de televisão popular, cuja segunda
temporada acaba de começar. Mesmo sendo uma comédia sobre sexo em uma
cidade grande, muitos aspectos das vidas de suas personagens talvez
sejam chocantes para o quarteto de Manhattan.

"'Sex and the City' é cheio do glamour, esplendor, elegância e beleza
de Nova York", disse Alika Smekhova, que faz o papel de Sonia, viúva
caçadora de heranças que busca outro marido rico e velho. "Nossas
heroínas, como nossas mulheres, são privadas do glamour", acrescentou,
apesar de Sonia morar em um duplex -luxo nesta cidade de apartamentos
inacessíveis.

Em sua primeira temporada em 2004, a série fez sucesso no canal NTV.
Desde o início, foi descrita como a "Sex and the City" russa, apesar
da NTV dizer que não tem contrato ou licença da HBO, produtora da
série original.

Vera tem uma filha adolescente, produto da prática soviética de
casamento precoce. Ela e Yulia moram com suas mães, assim como o
namorado de Vera, Zhan, refletindo a falta de moradia da era comunista
e os altos preços dos imóveis em Moscou.

Yulia, ninfomaníaca desempregada, está tentando desesperadamente
encontrar um marido desde que o pai, que a sustentava, deixou sua mãe
por uma mulher mais jovem do que ela. Vera descobre que Zhan é casado,
mas ele diz que o casamento foi uma fraude para que a mulher obtivesse
o visto de residência necessário até para cidadãos russos morarem em
Moscou.

Alla, advogada poderosa com um fetiche por rapazes que fazem strip-tease e temor de compromisso, tem alguns traços de Samantha. Mas a celebridade Lada Dance, que faz o papel, tem consciência das similaridades e diferenças de "Sex and the City".

"É sobre nossa vida, nossa mentalidade", disse ela. "Temos a nossa
amizade entre mulheres. Elas têm a delas. É diferente. A única coisa
comum é que os homens, tanto aqui quanto lá, são cretinos", acrescentou.

A princípio, Sonia está apreciando a vida de viúva, pegando jovens amantes. Mas quando o dinheiro acaba, ela se torna amante de um
oligarca que está cansado de sua mulher boneca. Ela faz sexo com ele
em um apartamento escuro e vazio, sem ver seu rosto, e ele começa a lhe fazer confidências.

Lembrando a prostituta com coração de ouro de Dostoyevsky e assumindo
a atitude de muitas russas em relação a seus homens, Sonia começa a
ter pena de seu cliente solitário. Ela também confessa à Vera -que é
psicóloga e como Carrie Bradshaw em "Sex and the City" é a voz que
narra o programa- que nunca gostou tanto de sexo quanto neste tipo
anônimo, por dinheiro.

No episódio de segunda-feira (26/12), Sonia acaba bebendo e machuca o
rosto em um tombo. Ela é salva pelas amigas, que ouvem seus
lamentos. "Tenho 35 anos e não tenho filhos, marido ou emprego",
chora. "Acabou. Só o que me resta é uma velhice solitária." Yulia tenta confortá-la, depois chora também quando Sonia salienta que ela está no mesmo barco.

Alla contrata strippers para limpar seu apartamento. Depois, todas as
amigas se deprimem quando concluem que, se fossem jovens e atraentes,
os homens iam limpar por nada.

O desfecho do episódio, com um tom satírico, mostrou rapazes de sunga
lavando louça e passando aspirador de pó. Em geral, a música alegre do
programa e seus personagens e situações exageradas marcam seu lado
cômico.

Mas a série ainda assim reflete a realidade contemporânea russa. As
mulheres, especialmente em Moscou, tornaram-se motores de uma economia
de mercado crescente e estão adiando o casamento. No entanto, as que
têm mais de 30 anos freqüentemente são consideradas velhas; as que
tiveram o primeiro filho com 20 e muitos anos são consideradas mães
tardias. De fato, o nome do programa, "Balzaquianas", refere-se ao
romance de Honoré de Balzac "A Mulher de Trinta Anos" e é a forma
educada de os russos se referirem às mulheres de certa idade. Esses costumes há muito colocaram os homens em posição privilegiada
nos relacionamentos. O legado da União Soviética de guerra, repressão
e alcoolismo e a expectativa de vida dos homens de 59 anos deixaram a
Rússia com uma falta aguda de homens, muitos dos quais são mimados por
mães solteiras.

"Temos relacionamentos completamente diferentes entre homens e mulheres", disse Maksim Stishov, autor e produtor de "Balzac Age". "Temos menos homens, muito menos homens do que mulheres. Isso afeta as relações das mulheres entre si e com os homens." Dmitry Fiks, diretor e co-produtor, é ainda mais direto. "Nossos homens são infantis", disse ele. No entanto, ele acrescentou que o objetivo da série não era criticá-los, mas rir de suas fraquezas. "Adoramos eles; fazemos personagens engraçados", disse
ele. "São gentis e comoventes, mas todos um pouco imbecis." Como as estrelas de "Sex and the City", as atrizes de "Balzac Age" tiveram suas vidas pessoais espalhadas pelas revistas de celebridades e tablóides russos.

Zhanna Epple, que faz o papel de Yulia, recentemente separou-se de seu
marido de quase duas décadas. Em entrevista a uma revista de televisão, ela disse que ele não conseguiu lidar com seu sucesso. Yulia Menshova, que faz o papel da simpática e aplicada Vera, divorciou-se depois que a série começou a ser gravada. Ela era apresentadora de um programa de televisão nos anos 90, chamado "I Myself", sobre mulheres falando por si mesmas enquanto a Rússia fazia sua difícil transição para uma economia de mercado.

Menshova disse que a incerteza da transição reflete-se nas relações
entre os homens e as mulheres. "As pessoas vivem bem, mas sempre temem
que seja a última vez", disse ela. "Isso cria uma pressão psicológica
que deixa as pessoas com tanto medo de deixar alguém entrar em seu
mundo que até relações entre homens e mulheres se tornaram uma espécie
de ameaça." Deborah Weinberg

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