UOL Notícias Internacional
 

06/01/2006

Esquiando nas montanhas, com a força do vento

The New York Times
David Arnold

Em Fairview, Utah
A nevasca tornava tudo branco em torno da Skyline Drive, a 3.000 m acima do nível do mar. O vento deixava as bandeiras totalmente armadas. Com temperaturas de um dígito, os dedos tinham dificuldades de atar um simples nó. Mas os esquiadores ligavam?

Cerca de 100 devotos do esqui com pipa tinham vindo para o condado de Sanpete, em Utah. Alguns de esqui, outros de snowboards, todos eram levados por pipas gigantes multicoloridas e nenhum estava disposto adeixar que um pouco de mau tempo atrapalhasse o mais novo esporte de inverno.

Tom Smart/The New York Times 
Esquiador utiliza a força do vento para planar sobre a neve no gélido interior do Utah

"É um vício. Vou ficar aqui está escurecer", disse Salvador Jerônimo, de Salt Lake City.

Eles chamam o esporte de snowkiting. Eles podem cruzar planícies, subir e descer montanhas íngremes. Eles podem progredir lentamente ou acelerar a 80 km/h ou mais, dependendo do tamanho da pipa e do vento. Eles podem pular alturas de quase 30 m, pousar com uma pirueta e prosseguir.

O esporte dispensa a necessidade de gravidade --e também do bilhete para o teleférico, criando uma espécie de viagem radical.

Para promover o snowkiting, várias organizações estão fazendo oficinas gratuitas neste inverno pelos Estados do Norte. As sessões incluem instruções, uso de pequenas pipas de treinamento e demonstrações de alguns veteranos -se pudermos chamar de veteranos atletas de um esporte que tem cerca de seis anos de idade.

Tom Smart/The New York Times 
Para Ken Lucas, o novo esporte é seguro porque não depende só da velocidade para propulsão
A força por trás da novidade é um aerofólio em formato de abóbada, altamente direcional, emprestado diretamente do kiteboarding, o irmão mais velho nascido nas águas. O esporte está crescendo? Há cinco anos, a fabricante francesa Ozone Kites vendia cerca de 400 unidades para americanos, de acordo com Robert Whittall, um dos projetistas da empresa. No ano passado, as vendas anuais chegaram a 2.000. Whittall acredita que as vendas americanas dobrarão até o final deste ano.

"Até agora, o que as pessoas nas Grandes Planícies podiam fazer para se divertir, exceto queimar combustível em carros de neve? Estamos diante do que pode ser a maior revolução dos esportes de inverno."

Benjamin Franklin não começou esta revolução, mas pode ter sido o primeiro a expressar o potencial das pipas para uma diversão com adrenalina. "Descobri que, deitado de costas e segurando o controle, eu era puxado pela superfície da água de forma muito agradável", escreveu Franklin, em 1773. Ele enviou sua memória de infância de soltar pipa em um lago a Barbeu Dubourg, que traduziu seus trabalhos para o francês.

A pipa deu origem ao paragliding e depois ao kiteboarding, no final dos anos 80. Não está claro exatamente quando o kiteboarding saiu da água para explorar a neve. A maior parte dos representantes da indústria aponta para os franceses, em 1999. As vantagens logo ficaram claras, de acordo com Bill Myers, morador de Wilson, N.Y., uma cidade nas montanhas perto de Buffalo, que desenha pranchas de snowkiting.

"Na água, se você para, afunda", explicou. "Você precisa muito mais da força de uma pipa maior. E isso pode ser irritante." Geralmente, a pessoa demora uma semana para aprender o kiteboard; uma pessoa que já se sente à vontade nos esquis ou no snowboard demora apenas algumas horas para aprender o snowkiting.

Myers estava entre os fiéis (também havia iniciantes) que foram a Utah em um final de semana de dezembro, participar do primeiro de vários eventos nesta temporada patrocinados pela Ozone Kites USA e a distribuidora Windzup. O parque de diversões estava aberto: terreno montanhoso em uma passagem nas montanhas Wasatch.

Utah estava em um período de nevascas. O tempo estava tão hostil a 3 km acima do nível do mar que o motorista do trator que retirava a neve da estrada achou que ninguém ia aparecer. Errado.

Às 9h do sábado, mais de 20 carros tinham estacionado no alto da Skyline Drive. Com os aquecedores no máximo, o debate era sobre como proceder. Haveria visibilidade suficiente para ver as pipas, 30 m acima? Haveria visibilidade suficiente para evitar colisões? As únicas pessoas que se mexiam eram membros da equipe da Windzup que montavam uma pequena base de tendas.

Repentinamente, o tempo pareceu melhorar. A neve parou de cair e um pequeno buraco azul apareceu entre as nuvens. O sol bateu na face de um morro de 250m, que estivera obscurecido pela nevasca. Surgiram picos em torno, todos cobertos de neve e brilhantes.

Zebulon Jakub, 26, funcionário da Escola Internacional de Montanhismo em North Conway, N.H., foi o primeiro -e, por um tempo, o único- a sair do carro e começar a se preparar. Minutos depois, vestia os esquis, e sua pipa estava no ar. Ele saiu -subindo o morro, dançando na neve de Utah ,que em geral promove gritos de deleite de esquiadores indo na outra direção.

Não demorou para os outros o seguirem.

Um deles era Dorian Olson, 72, professor aposentado de contabilidade de Lake Park, Minnesota. Ele tinha começado a praticar o snowkiting com Chuck Guerber, seu genro, no ano passado. Eles aprenderam a partir de um livro, porque ninguém em sua região sabia nada sobre o esporte. Das pipas pequenas, eles passaram para as maiores, depois de adquirirem confiança. Agora, eles freqüentemente competem em torno de uma pista de 800 m em um lago perto de casa. Eles disseram que chegam perto dos 60 km/h.

Olson aprendeu a pular, uma manobra realizada torcendo a barra de controle para mudar a posição e o formato da pipa. Ele se tornou uma espécie de espetáculo para os vizinhos.

"Eles me dizem: 'Olson, você está louco'", admitiu.

Menos de meia hora depois de o sol aparecer, a nevasca voltou, aparentemente com a intenção de compensar o tempo perdido. Os esquiadores não se detiveram, apesar das nuvens e do perigo de se emaranharem. Nem tudo foi divertido.

Um deles decidiu descansar no topo de uma montanha. Assim que baixou a pipa e prendeu-a em torno da prancha (snowboard), soprou um vento forte que levou tudo morro abaixo. Imagine: US$ 600 (em torno de R$ 1.400) pela pipa, US$ 500 (aproximadamente R$ 1.150) pela prancha, US$ 200 (cerca de R$ 460) pelos cabos e outros tantos dólares de orgulho.

Myers teve um descanso forçado. Como explicou mais tarde, ele estava longe do centro da arena quando sua pipa atingiu um bolsão de ar morto e caiu. Sozinho, com pouca visibilidade e sem conseguir levantar a pipa, ele tentou voltar à base a pé. No entanto, este homem forte de 100 kg não conseguiu andar na neve, que chegava até o peito. Nesta altitude, logo ficou exausto.

Myers eventualmente conseguiu parar um carro de neve e pegar uma carona. No entanto, 20 minutos mais tarde, comendo um almoço quente, ele ainda estava abalado.

"Eu estava com frio, não via nada e estava atolado", disse ele. "Realmente foi o mais perto que cheguei de verdadeiro perigo".

Um esporte extremo pode ser definido como aquele em que você testa seus limites e assume as conseqüências. Essas pipas, em certas configurações, são dóceis. Em outras, sua força é comparada a tentar parar uma caminhonete com um laço. Ainda assim, das duas dezenas de pessoas entrevistadas dentro e fora da indústria, ninguém tinha ouvido falar de uma morte ou acidente sério.

Os cépticos talvez argumentem que o esporte ainda não teve tempo suficiente para acumular números negativos. Ken Lucas, 48, de Hood River, Oregon, tem outra opinião: "Você já está em uma superfície que desliza e minimiza qualquer acidente", disse ele. "E todo iniciante precisa começar com uma pipa pequena. Essa é a beleza do esporte. Você pode atingir altas velocidades, mas não precisa da velocidade."

Quatro anos atrás, Lucas subiu de snowkiting um paredão de 1.200 m em Mount Hood, Oregon. Nesta primavera, pretende subir Mount St. Helens, em Washington. Lucas prefere usar esquis em vez da prancha em suas explorações. Se o vento morrer, ele sempre pode esquiar de volta.

E as pessoas que querem praticar o esporte, mas não têm experiência na neve? "Aprenda com os esquis", disse Lucas. "O equilíbrio é mais fácil."

Nos esquis ou no snowboard, o objetivo é o mesmo --deslizar "de forma muito agradável", como disse Franklin. Quanto a Jerônimo, que disse que ficaria fora até o anoitecer, ele cumpriu sua palavra. Sua pipa foi a última -às 17h30- na Skyline Drive. Escureceu às 17h. Snowkiting dispensa a necessidade de gravidade --e também do bilhete para o teleférico, criando uma espécie de viagem radical Deborah Weinberg

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