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06/01/2006

Governo do Irã cancela negociações com Agência Internacional de Energia Atômica

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Paris
O Irã lançou em confusão nesta quinta-feira (05/01) as negociações em torno de seu programa nuclear, cancelando abruptamente uma reunião de alto nível com a agência de monitoramento nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) em Viena, com o chefe da equipe iraniana de negociação tendo supostamente voltado para Teerã.

O desdobramento inesperado frustrou e deixou atônitos tanto os membros da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) quanto diplomatas estrangeiros. Eles se esforçavam para entender o fracasso dos iranianos em comparecerem à reunião, que estava marcada para que o Irã pudesse explicar em detalhes sua decisão formal de reiniciar pesquisa nuclear a atividades de desenvolvimento sensíveis na próxima segunda-feira.

"Não houve explicação", disse uma porta-voz, Melissa Fleming, em uma entrevista por telefone em Viena. "Nós ainda estamos buscando esclarecimentos."

Uma explicação é a de que o Irã decidiu desafiar o resto do mundo e prosseguir com as atividades nucleares que correm o risco de acarretar em censura ou sanções internacionais. Tal decisão poderá acabar com um acordo de 14 meses com a França, Grã-Bretanha e Alemanha sob o qual o Irã concordou em suspender a maioria de suas atividades nucleares em troca de recompensas prometidas.

Outra explicação é a de que diante das fortes críticas internacionais, a estratégia de negociação do Irã esteja em desordem. Desde que o presidente Mahmoud Ahmadinejad assumiu o poder no ano passado, o aparato de segurança nacional do Irã, incluindo sua equipe de negociação nuclear e dezenas de seus embaixadores, foi em grande parte substituído por pessoas guiadas por posições rígidas, linhas-duras e com pouca experiência diplomática.

A delegação de negociação iraniana, que é chefiada por Mohammad Saeedi, o vice-chefe da agência de energia atômica do Irã, deveria participar da reunião com Mohamed ElBaradei, o diretor da agência internacional, e seus especialistas iranianos na manhã de quinta-feira.

Os iranianos informaram inicialmente a agência, por telefone, que se atrasariam. Depois, em uma conversa subseqüente por telefone, os iranianos anunciaram o cancelamento da reunião e não deram indício de quando ou se outra reunião ocorrerá. Saeedi voltou para casa, disse o lado iraniano para a equipe internacional.

Tal ação sugeriu que não haverá explicação das intenções do Irã antes da retomada das pesquisas na segunda-feira ou que o Irã está repensando a própria decisão ou o momento.

Autoridades americanas e européias e alguns especialistas da AIEA disseram estar preocupados com a possibilidade da pesquisa e desenvolvimento se concentrarem em experiências de enriquecimento em pequena escala, que poderiam ajudar a avançar o conhecimento do Irã sobre como produzir combustível nuclear -seja para usinas civis ou, em níveis mais elevados de enriquecimento, para armas.

Em Washington na quinta-feira, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, alertou o Irã para não retomar a pesquisa nuclear, dizendo aos repórteres: "Eles não deveriam fazer isto porque realmente seria um sinal de que não estão preparados de fato para uma negociação diplomática".

Rice expressou confiança de que os Estados Unidos terão sucesso em levar o Irã ao Conselho de Segurança da ONU para uma punição não especificada caso as negociações fracassem. Mas os Estados Unidos fracassaram até o momento em persuadir tanto a Rússia quanto a China a adotarem medidas punitivas contra o Irã, um passo difícil já que não há nenhuma violação clara das obrigações internacionais do Irã sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Certamente, o fracasso do Irã em explicar suas intenções mina ainda mais a confiança no país como parceiro crível de negociações. Em sua carta à AIEA dois dias atrás, anunciando seus planos de pesquisa, o Irã deu garantias de que pretendia realizar as novas atividades sob supervisão de inspetores da agência e requisitou que os passos necessários fossem dados para o reinício da pesquisa.

Tal posição gerou a especulação de que o Irã estava tentando testar se poderia prosseguir com seu programa nuclear e permanecer dentro das fronteiras de suas obrigações legais internacionais, mesmo se isto violasse seu acordo com os europeus.

A decisão do Irã, em agosto passado, de retomar as atividades de conversão de urânio em sua instalação em Isfahan violou o acordo europeu. Mas inspetores da AIEA estavam lá para romper os selos do equipamento e têm monitorado as atividades, que não violam as obrigações do Irã segundo o Tratado de Não Proliferação Nuclear.

"Para posicionar os inspetores, eles precisam saber onde estarão e o que estarão observando", disse Fleming.

A AIEA expressou séria preocupação não apenas com o mais recente anúncio do Irã em relação à pesquisa nuclear, mas também com seu fracasso em cooperar plenamente com seus inspetores nos últimos três anos, listando vários exemplos específicos onde o Irã não cooperou.

ElBaradei também criticou duramente a decisão do Irã de reiniciar a pesquisa nuclear, alertando o país das conseqüências potenciais de sua ação.

Entre as questões substanciais estão a recusa do Irã em permitir acesso de inspetores internacionais à instalação em Teerã chamada Lavisan-Shian, que foi demolida pelo Irã em 2004, antes que pudesse ser inspecionada. A agência quer entrevistar cientistas que trabalharam lá e determinar se estavam realizando pesquisa nuclear.

Outro mistério é como o Irã obteve as centrífugas usadas para enriquecer urânio. A AIEA também não está convencida das explicações do Irã para a fonte do urânio pouco e altamente enriquecido encontrado no país.

Ahmadinejad, em um discurso em Qom transmitido pela televisão estatal iraniana na quinta-feira, repetiu suas afirmações da intenção do Irã de realizar pesquisa nuclear, dizendo que algumas pessoas "têm dito que a nação iraniana não tem o direito de realizar pesquisa nuclear".

"Mas elas devem saber que a nação e governo iranianos defenderão o direito à pesquisa e tecnologia nuclear e prosseguirão prudentemente", ele disse.

Ahmadinejad também disse que "contando com seus jovens cientistas, o Irã usará esta tecnologia para medicina, indústria e energia no futuro próximo".

As afirmações do Irã de seu direito de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos de energia são bastante populares entre os iraniano, e seus comentários foram recebidos com gritos de "Ahmadinejad, nosso herói, nós apoiamos você", informou a agência de notícias "Reuters" em Teerã.

Ahmadinejad, que chamou o Holocausto de "mito", foi citado pela agência de notícias estudantil ISNA como tendo dito no discurso que está torcendo pela morte do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon.

"Esperamos que a notícia de que o criminoso de Sabra e Shatila se juntou a seus ancestrais seja final", disse Ahmadinejad.

Sabra e Shatila são os nomes de dois campos de refugiados palestinos em Beirute, onde milicianos cristãos pró-israelenses mataram palestinos depois que Sharon supervisionou a invasão israelense ao Líbano em 1982. Presidente Ahmadinejad adota unilateralismo e quebra acordo George El Khouri Andolfato

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