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07/01/2006

Blindagem extra poderia ter salvado muitas vidas americanas no Iraque, mostra estudo

The New York Times
Michael Moss

Em Nova York
Um estudo secreto do Pentágono revelou que pelo menos 80% dos marines que morreram no Iraque por ferimentos na parte superior do corpo poderiam ter sobrevivido se tivessem uma blindagem adicional no corpo. Tal blindagem está disponível desde 2003, mas até recentemente o Pentágono tinha se recusado a fornecê-la às tropas, apesar dos pedidos de campo por proteção adicional, segundo oficiais militares.

Jim Wilson/The New York Times 
Coletes não protegem partes do tronco atingidas por balas rebeldes, o que tem contribuído para as mais de 2 mil baixas norte-americanas no Iraque
As placas de cerâmica nos coletes atualmente usados pela maioria dos militares no Iraque cobrem apenas parte do peito e das costas. Pelo menos em 74 dos 93 ferimentos fatais, que foram analisados no estudo do Pentágono envolvendo marines, de março de 2003 a junho de 2005, as balas e estilhaços atingiram os ombros, laterais e áreas do tronco não cobertas pelas placas.

Trinta e um dos ferimentos fatais atingiram o peito ou as costas tão perto das placas que a simples ampliação da proteção existente "teria o potencial de alterar o resultado fatal", segundo o estudo, que foi obtido com exclusividade por The New York Times.

Pela primeira vez, o estudo do médico legista das forças armadas mostra o custo em vidas perdidas por blindagem inadequada, mesmo enquanto o Pentágono continua defendendo publicamente sua proteção às tropas.

As autoridades disseram que estão enviando a melhor blindagem ao Iraque o mais rapidamente possível. Ao mesmo tempo, elas argumentam que é impossível proteger as forças dos artefatos explosivos improvisados cada vez mais poderosos usados pelos rebeldes. Mas o próprio estudo do Pentágono revela a ameaça igualmente letal das balas.

A vulnerabilidade da blindagem corporal dos militares é conhecida desde o início da guerra, fazendo parte de uma série de problemas que têm cercado a proteção das tropas americanas. Ainda assim, o Corpo de Marines não começou a comprar placas adicionais para cobrir as laterais de seus soldados até setembro deste ano, quando encomendou 28.800 conjuntos, reconheceram oficiais do Corpo de Marines.

O Exército, que conta com a maior força no Iraque, ainda está decidindo o que comprar, segundo oficiais de aquisição do Exército. Eles disseram que o Exército está decidindo entre vários tamanhos de placas para dar aos seus 130 mil soldados; os oficiais disseram que esperam assinar os contratos neste mês.

Estudos técnicos adicionais da unidade do Médico Legista das Forças Armadas que foram obtidos pelo NYT indicam que cerca de 340 soldados americanos morreram apenas de ferimentos no tronco.

Oficiais militares disseram que decidiram originalmente contra o uso de placas adicionais por temerem que adicionariam peso demais aos trajes ou restringiriam o movimento dos soldados. Oficiais do Corpo de Marines disseram que os resultados do estudo do Pentágono fizeram os comandantes em campo deixarem de lado tais preocupações no interesse de uma maior proteção.

"À medida que a informação se torna mais prevalecente e conscientiza a todos de que precisamos nos preocupar com estas áreas, então as pessoas se tornam mais dispostas a aceitar tal peso em seu corpo", disse o major Wendell Leimbach, o especialista em blindagem corporal do Comando de Sistemas do Corpo de Marines, a unidade de aquisição dos marines.

O Pentágono tem coletado dados sobre os ferimentos desde o início da guerra, em parte para determinar a eficácia da blindagem. O médico legista das forças armadas, Craig T. Mallak, disse a um painel militar em 2003 que a informação "exige ser publicada". Mas foram necessários quase dois anos.

O Corpo de Marines disse que pediu os dados em agosto de 2004; mas precisou pagar US$ 107 mil ao médico legista para que os dados fossem analisados. Oficiais marines disseram que o financiamento e outros atrasos resultaram no adiamento do início dos trabalhos para dezembro de 2004.

Ele finalmente começou a receber a informação em junho de 2005. As falhas nos coletes à prova de balas são apenas um dos problemas de blindagem com os quais o Pentágono está lidando enquanto a guerra no Iraque se aproxima da marca de três anos, como descobriu o "Times" no estudo em andamento do sistema de aquisição das forças armadas.

A produção de um novo caminhão blindado chamado Cougar, que os oficiais militares disseram que até agora suportou todos os ataques dos rebeldes, está três meses atrasado. A pequena empresa que produz o caminhão tem enfrentado uma série de problemas legais e de produção.

Enquanto isso, o Pentágono ainda está dependendo de outra fábrica pequena em Ohio para blindar todos os veículos do principal transporte das forças armadas, o Humvee, que continua atrasada no cumprimento dos pedidos.

A instalação, de propriedade da Armor Holdings, aumentou a produção em dezembro, após relatos no NYT sobre os atrasos terem provocado críticas do Congresso. Mas o Corpo de Marines disse que ainda estava aguardando por cerca de 2 mil destes veículos, para substituir outros Humvees no Iraque que possuem blindagem mas leve, e que não espera uma entrega final antes de junho.

Uma iniciativa do Pentágono há quase dois anos para acelerar a produção, a contratação de empresas adicionais para blindar novos Humvees, continua incompleta, disseram oficiais do Exército.

As blindagens corporais têm enfrentado uma série de problemas no Iraque. Primeiro, a prolongada escassez de placas para produção dos coletes à prova de balas. Neste ano, o Pentágono começou a substituir as placas por um modelo mais forte e mais resistente a certos ataques dos rebeldes.

Quase que desde o início, alguns soldados pediam por proteção adicional para impedir as balas de penetrarem em suas laterais. No outono de 2003, quando os soldados começaram a pendurar seus protetores de entrepernas sob seus braços, a Força de Equipagem Rápida do Exército enviou várias centenas de placas para proteger suas laterais e ombros. Soldados individuais e unidades continuavam comprando seus próprios conjuntos.

O ex-secretário em exercício do Exército, Les Brownlee, disse em uma recente entrevista que lhe foram mostrados vários projetos para blindagens expandidas em 2003, e que instruiu seu pessoal a pesar os benefícios contra a ameaça percebida de perder de vista a meta principal: eliminar a escassez de placas para peito e costas.

Oficiais de aquisição do Exército disseram que seus esforços para comprar placas cerâmicas laterais foram dificultados por sua força ser muito maior e porque queriam fornecer aos fabricantes especificações detalhadas. Além disso, eles disseram que suas placas serão produzidas para resistir a ataques mais fortes dos rebeldes.

Os marines disseram que optaram por aceitar a versão mais velha da cerâmica para acelerar a entrega. Até o início do mês passado, os oficiais disseram que os marines no Iraque tinham recebido 2.200 dos mais de 28 mil conjuntos de placas que foram comprados ao custo de cerca de US$ 260 cada.

Oficiais marines disseram que forneceram aos soldados proteção macia aos ombros que pode repelir alguns estilhaços, mas continuam preocupados com a possibilidade das placas de cerâmica para os ombros serem muito restritivas. De forma semelhante, eles disseram acreditar que as placas de peito e costas são as maiores que podem ser sem limitar terrivelmente o movimento dos soldados.

O NYT obteve um relatório de 3 páginas do Pentágono depois que um grupo de defesa dos militares, o Soldados pela Verdade, ter tomado conhecimento de sua existência. O grupo postou um artigo sobre o relatório em seu site na Internet no início desta semana. O NYT adiou a publicação deste artigo por mais de uma semana até que o Pentágono confirmasse a veracidade do relatório. Autoridades do Pentágono se recusaram a discutir os detalhes dos dados sobre ferimentos, dizendo que isto ajudaria o inimigo.

"Nossa pesquisa preliminar sugere que a morte de 42% dos marines que morreram de ferimentos isolados no tronco poderia ter sido prevenida com uma melhor proteção nas áreas ao redor das áreas protegidas do colete", concluiu o estudo.

Outros 23% poderiam ter sido salvos com placas laterais que se estendessem abaixo dos braços, enquanto 15% adicionais poderiam ter se beneficiado de placas nos ombros, disse o relatório. Ao todo, 526 marines morreram em combate no Iraque. Um total de 1.706 soldados americanos morreram em combate.

Os resultados e pesquisa adicional de patologistas militares sugerem que uma análise de todas as mortes em combate no Iraque, incluindo a de pessoal do Exército, mostraria que 300 ou mais vidas poderiam ter sido salvas com uma blindagem corporal melhorada.

Oficiais militares e empresas contratadas pela Defesa disseram que os problemas de aquisição do Pentágono derivam em parte de erros de cálculo que subestimaram a força da insurreição, assim como de anos de corte de custos que deixaram algumas empresas de blindagem à beira da falência enquanto aguardavam por novas encomendas.

Para ajudar a vencer as emboscadas de beira de estrada, as forças armadas encomendaram em maio de 2005 a compra de 122 Cougars, cujo corpo especial em forma de V ajuda a defletir bombas de estrada, disseram oficiais militares. Mas o Pentágono deu o serviço para uma pequena empresa na Carolina do Sul, a Force Protection, que nunca produziu veículos em massa. Executivos da empresa disseram que uma série de erros atrasou a data de conclusão do pedido para junho.

Uma dúzia de protótipos enviados para o Iraque teve que ser devolvida para substituição da transmissão falha. Aço foi cortado no tamanho errado antes do projeto do veículo ter sido aperfeiçoado. Vários gerentes deixaram a empresa.

Os executivos da empresa disseram que também perderam tempo com uma briga entre serviços militares. O Exército, que está comprando grande parte dos veículos, pediu para que seus veículos fossem entregues antes dos veículos dos Marines, e os executivos disseram que a ação complicou seu processo de produção até que o Exército concordasse em esperar na fila atrás dos marines. "É assim que é, e estamos correndo o máximo que podemos para mudar as coisas", disse Gordon McGilton, o executivo-chefe da empresa, em uma entrevista em sua fábrica, em Ladson, Carolina do Sul.

Em 5 de julho, dois ex-funcionários impetraram uma queixa federal que acusa a Force Protection de falsificar registros para encobrir uma execução defeituosa. Eles alegam que as ações "comprometem a integridade imediata e de longo prazo dos veículos e resultam em um produto deficiente", segundo documentos legais selados impetrados no Tribunal Distrital federal em Charleston e obtidos pelo "Times".

A queixa também acusa a empresa de falsificar registros para fazer as forças armadas acreditarem que a empresa pode atender os prazos de produção. O gabinete do procurador-geral federal na Carolina do Sul se recusou a comentar o caso. O Corpo de Marines disse que o Departamento de Justiça não o notificou sobre o caso até dezembro.

Executivos da Force Protection disseram não estar cientes do caso. Eles reconheceram ter cometido erros na tentativa de apressar o cumprimento dos pedidos, mas disseram que há múltiplos sistemas implementados para monitorar a qualidade dos veículos e que não estavam cientes de nenhuma deficiência que possa ameaçar os soldados. Pela primeira vez, legistas das forças armadas mostram o custo em vidas perdidas por blindagem inadequada, enquanto o Pentágono continua defendendo publicamente sua proteção às tropas George El Khouri Andolfato

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